
O conde espanhol

Penny Jordan


         Decididamente, a cidade de Sevilha mexia com os sentidos. Jssica sentia a mente fervilhar ao percorrer as ruas repletas de turistas que vinham aquecer-se
ao sol do vero espanhol. Tudo parecia confirmar que aquela parte do mundo havia sido dominada pelos mouros, com seu amor ao luxo e sua extrema sensualidade. Ela
estava ali para cumprir uma misso: enfrentar a tradicional e austera famlia dos Calvadores para salvar a honra de sua prima Isabel. Mas no esperava ser envolvida
pela fria do chefe do cl, o belo e arrogante Sebastin, que a recebeu com olhares cnicos e a tratou como a uma mulher qualquer...
CAPTULO I
        - Francamente, Jess, no sei o que essa sua famlia faria sem voc - disse Colin Weaver a sua assistente, Jssica James, com um sorriso contrariado. - O
que foi desta vez? Sua tia ficou trancada novamente, ou seu tio esqueceu o talo de cheques?
        - Nem uma coisa nem outra - respondeu ela, disfarando a vontade de rir.
        Na verdade, os tios de Jssica tinham a mania de recorrer a ela toda vez que surgia um problema, por menor que fosse. Apesar de no ter a menor vocao para
arrimo de famlia, ela os desculpava por viverem numa outra realidade.
        Tio Frank continuava habitando o mundo do comeo do sculo, recusando-se a ver as transformaes da sociedade, protegido pela vida calma que levava na propriedade
que herdara do pai, naquela pequena cidade do interior.
        Tia Alice no era diferente, apesar de que, nervosa e agitada, era dada a se queixar de que a vida havia mudado muito. Quanto a Isabel... Jssica suspirou.
Os problemas dos tios tornavam-se insignificantes perto dos que a prima de dezoito anos lhe trazia.
        - Bem... me desculpe por criticar sua "amada" famlia. Mas acho que fico com cimes - Colin admitiu.
        - Com cimes? - perguntou Jssica, achando graa da desculpa.
        - . Por acaso voc deixaria tudo para vir correndo em meu socorro, se eu precisasse?
        - Acho que no tem comparao, no , Colin? Seria at mau sinal se fosse preciso faz-lo - ponderou, rindo.
        - No resta dvida - ele concordou, caindo em si. - Porm isso no me impede de desejar que eles me deixem mais tempo de sua companhia!
        - Desta vez tenho mesmo que ir.  a Isabel. - Jssica mordeu o lbio inferior e franziu as sobrancelhas escuras, preocupada.
        Os tios estavam praticamente na meia-idade quando, inesperadamente, Isabel surgiu em cena e, at agora, pareciam no ter se habituado  idia de possuir
uma filha.
        - Ah,  a Isabel! - Colin repetiu, desanimado. - Aquela menina  terrvel. Lembro que quando voc a trouxe aqui...
        "Aqui" era o luxuoso ateli de alta costura londrino, por onde, a cada temporada, desfilavam as mais requintadas colees com a griffe "Colin Weaver".
         Jssica trabalhava como sua assistente desde que conclura o curso de Artes e adorava aquele emprego. De vez em quando, Colin era dado a ataques de "estrelismo",
mas felizmente se recuperava. Jssica aceitava e compreendia a instabilidade do patro por consider-lo realmente insupervel como estilista.
        Colin costumava dizer que o segredo de seu sucesso estava no s na criao dos modelos como tambm na escolha cuidadosa dos tecidos. A revista Vogue considerava
suas colees "clssicos da alta costura". No era para menos, portanto, que todas as aspirantes s listas das dez mais elegantes tivessem, necessariamente, algumas
peas dele em seus guarda-roupas.
        Apesar de sua clientela ser constituda das mais ricas senhoras da sociedade e suas criaes serem exclusivas, Jssica sabia que o grande sonho de Colin
era tornar sua moda mais acessvel a todas as mulheres.
        - Ela  meio imatura - Jssica admitiu, suspirando novamente ao pensar em Isabel. O que a prima possua de beleza sobrava em teimosia.
        - Ela tem, hoje, exatamente dois anos menos do que voc tinha quando comeou a trabalhar para mim. A verdade  que vocs a superprotegem. Ela  mimada demais
e abusa. Aos dezoito anos, voc j no vivia mais em casa, nem era sustentada por seus pais, Jess.
        - No mesmo - ela concordou, com expresso sombria.
        Seus pais haviam falecido num desastre, trs meses antes de completar dezoito anos. Jamais poderia esquecer daquele trgico dia. Parecia ter ainda diante
dos olhos a palidez mortal dos tios quando chegaram para lhe dar a notcia. Lembrava perfeitamente da dificuldade que tiveram para contar o ocorrido. Convidaram
Jssica para morar com eles, mas ela no aceitou, pois j tinha planos definidos para o futuro. Primeiro cursaria a escola de Artes, depois sua meta era um emprego
como desenhista de moda.
        Com parte do dinheiro que os pais lhe haviam deixado, comprara um pequeno apartamento em Londres, onde se instalou. Mas sempre mantivera contato com os tios,
afinal eram toda sua famlia.  medida que ficava mais madura, Jssica sentia que os laos afetivos entre eles iam se fortalecendo.
        " estranho que s se d grande valor  famlia quando se tem uma muito pequena", pensou Jssica, filosofando.
        Isabel estava com dez anos quando o acidente aconteceu e pouco lembrava dos tios. Conforme os anos foram passando, Jssica foi assumindo um papel de intermediria
entre a jovem prima e os tios. Por um lado Isabel solicitava seu apoio para conseguir mais liberdade com os pais, por outro, estes viviam a lhe pedir que interferisse
junto  filha, para "faz-la compreender".
        Tudo havia sido planejado para que Isabel fosse estudar numa universidade, mas, antes de terminar o colegial, ela decidira que estava cansada da escola e
que no queria fazer carreira alguma. Agora trabalhava no escritrio do pai, reclamando amargamente daquele emprego toda vez que encontrava Jssica.
        - Queria conversar com voc sobre nossa viagem  Espanha - Colin lhe disse, interrompendo o fluxo de seu pensamento.
         Jssica sorriu. Era incrvel, que, aos quarenta e oito anos, ele ainda tivesse reaes de criana, fazendo qualquer negcio para chamar a ateno ou desencadear
um sentimento de culpa.
        Realmente, Colin estava sonhando com a Feira de Tecidos h meses. Inicialmente planejara ir sozinho, mas mudara de idia e sugerira que Jssica fosse com
ele. Tinha ouvido falar de uma firma espanhola que havia descoberto uma srie de novas tinturas para fibras naturais, com resultados espetaculares. Seus tecidos
eram vendidos apenas para alguns poucos clientes exclusivos. Jssica sabia que Colin ansiava por uma apresentao ao Diretor Superintendente dessa empresa.
        - No sei se vou ter condies de ir - ela comentou, sentindo no ntimo uma ponta de satisfao ao ver a ansiedade estampada no rosto dele.
        - No me diga que  por causa dessa droga de sua famlia de novo! - ele protestou. - Se for, diga a eles que tero de se virar sem voc desta vez. Preciso
muito de voc, Jess - concluiu, com humildade.
        - Tudo bem, mas no me faa mais crticas a Isabel - repreendeu-o. - Sei que ela  meio voluntariosa...
        - Voluntariosa, teimosa feito uma mula, isso  que o que ela ! Mas sei que nada do que eu diga vai fazer voc mudar em relao a sua prima, por isso pode
ir embora mais cedo hoje.
        Uma hora mais tarde, ao abrir a porta de seu apartamento, Jssica dizia a si mesma que Colin era realmente um amor. Tinha uma excelente relao de trabalho
e, se vez por outra no concordava com alguma atitude dele, admitia que isso era o de menos em vista da sorte de trabalhar para um homem to talentoso e experiente.
        Incrvel como apesar de toda a sua experincia ele muitas vezes acatava e adotava as sugestes de Jssica! Chegara at a lhe dizer que, como no tivesse
nenhum herdeiro, se tudo corresse bem, mais tarde a tornaria scia dele, o que sem dvida a fizera muito feliz.
         Jssica sorriu ao ver sua imagem refletida no espelho. Sara s pressas do ateli, sem sequer pentear os cabelos ou passar um batom nos lbios. No podia
estar com a aparncia mais desarrumada, mas ainda assim sua beleza era evidente.
        Os cabelos de Jssica eram um de seus maiores atributos: longos, pesados e brilhantes, caam abundantes sobre os ombros. No contato com os clientes, quando
queria causar uma impresso mais formal, prendia-os num coque elegante.
        Uma das vantagens de trabalhar para um estilista famoso, Jssica sabia muito bem, era conseguir a maior parte das roupas a preo de custo. Desse modo, possua
modelos finssimos que lhe realavam a figura esbelta e as pernas longas.
        - Adoro ver minhas roupas numa mulher de verdade - Colin lhe dissera uma vez, com admirao. - As manequins so meras caricaturas das minhas clientes, mas
voc... Voc foi feita para minhas roupas!
        Conhecendo profundamente a generosidade de Colin, Jssica se irritava muito quando sua prima Isabel fazia pouco-caso dele, chamando-o de "velha senhora".
Certamente a garota no possua sensibilidade suficiente para perceber o quanto Colin era autntico e talentoso.
        Mas Isabel no levava de fato nada a srio. Debochava tambm de Jssica por achar que a vida da prima no tinha "diverso".
        "Diverso" para ela englobava todas as fantasias do que poderia significar viver sozinha em Londres. Isso porque sentia-se atada aos pais idosos e  monotonia
da vida em Merton, com seus fazendeiros e seu ritmo de vida calmo.
        Apesar das tentativas de Jssica em fazer a prima enxergar a realidade londrina com maior objetividade, ela deliberadamente no queria se deixar desiludir.
Alm disso, a "liberdade" de Jssica era uma arma que Isabel usava para lutar contra os pais nos momentos de rebeldia.
         Jssica percebia que os tios comeavam a apresentar sinais de cansao. O tio Frank estava falando em se aposentar e a tia Alice se queixava de tudo mais
do que nunca. No havia dvidas de que seria um alvio para ambos se Isabel eventualmente se casasse. Ela, porm, parecia no ter a menor inteno de faz-lo. Tudo
indicava que era do tipo que queria aproveitar a vida.
         Jssica deu um suspiro e se olhou novamente no espelho ao sair do banho. Sem ter a beleza de Isabel, era uma mulher atraente. Tinha a pele aveludada, os
olhos castanhos, amendoados e os cabelos negros, o que lhe dava um ligeiro ar oriental.
        Foi para o quarto e vestiu rapidamente uma cala jeans e uma camiseta. Quando no estava em servio, no usava maquilagem alguma.
        Eram pouco mais de oito e meia quando pegou a estrada que levava  cidadezinha onde os tios viviam. Ao lembrar a voz chorosa da tia quando lhe falara ao
telefone, Jssica se perguntou o que Isabel teria aprontado desta vez.
        Chegando em Merton, Jssica estacionou o carro na rua tranqila em frente  casa dos tios. Entrou no pequeno jardim e foi direto at a porta dos fundos.
Sabia que encontraria os tios na cozinha, j que habitualmente jantavam s nove horas.Alice James teve um sobressalto, mas logo sorriu aliviada ao ver a sobrinha,
abraando-a calorosamente.
        - Jess! Que bom que voc veio! Estamos to preocupados!
        - No pude chegar antes. Belle est em casa? - Beijou a tia e foi puxando um banquinho de sob a mesa da cozinha, onde sentou-se.
        - No, ela saiu... Com John Wellington, um novo scio, ainda jovem, que seu tio arrumou. Belle parece bem interessada nele.
        - E  esse o problema? - Jssica perguntou bem-humorada, sem entender direito o motivo da preocupao dos tios. - Pensei que estivessem rezando para que
ela conhecesse algum srio e trabalhador. No era o que queriam para ela, que se casasse e tivesse quem a protegesse?
        - Era o que sonhvamos - confirmou a tia. - Mas agora est tudo estragado por causa do diabo daquelas frias!
        - Frias? Que frias? - Jssica no estava compreendendo nada.
        - Ah, foi h algumas semanas... Isabel quis ir  Espanha com uma amiga. John no queria que ela fosse, pois  muito ciumento, mas sabe como ela . O simples
fato de ele no querer fez com que ela quisesse ainda mais. Bem, Isabel foi e a que as coisas se complicaram.
        - O que aconteceu? - Intimamente Jssica imaginava tudo o que podia acontecer a uma garota decidida apenas a "se divertir" na vida.
        - Ela ficou noiva... ou quase, com um rapaz que conheceu l, - esclareceu a tia. - Estiveram se correspondendo desde ento. No sabamos de nada at que
ela nos mostrou a ltima carta dele. Jssica, pelo amor de Deus, o que vamos fazer? Ela tambm j se comprometeu com John e se ele descobrir...
        - Como descobriria? - Jssica replicou com objetividade, louca da vida com a prima. Isabel era realmente uma desmiolada. Mas no valia a pena dizer isso
 tia e afligi-la ainda mais. - Me parece, tia, que a situao no  to complicada assim. Basta ela escrever para o espanhol dizendo que est tudo acabado.
        - Ela no quer arriscar. Est apavorada, temendo que ele venha at aqui para tirar satisfaes do que aconteceu. E, nesse caso, o que diria a John?
        - No se preocupe. Vai terminar tudo bem. - De que adiantava dizer  tia que um relacionamento que comeava com mentiras no era de forma alguma uma base
slida para um casamento?
        - Jess querida, sabia que voc viria arrumar tudo - desabafou a tia, caindo em prantos. - Eu disse  Isabel que voc a ajudaria.
         Jssica levantou as mos num gesto impotente.
        - Claro, s no sei o que posso fazer...
        - Como no? Tem de ir  Espanha, naturalmente! - Alice falou com a maior simplicidade, como se se tratasse de uma viagem  cidade vizinha. - Precisa ir v-lo,
Jess, e explicar que Isabel no pode se casar com ele.
        - Ir  Espanha? - Jssica a olhou atnita. - Mas tia...
        - Voc vai ter de ir de qualquer jeito - a tia apressou-se a dizer, evitando o olhar dela. - Jess, voc sabe falar espanhol. Ajuda muito poder se explicar
na prpria lngua. Suaviza um pouco o golpe. Pense, querida, o que seria de Isabel se ele viesse at aqui. Ela est realmente apaixonada por John e eu acho que ele
 tipo de homem com fora necessria para lidar com ela.
        Antes que Jssica retrucasse alguma coisa, a tia continuou:
        - s vezes penso que seu tio e eu devamos ter sido mais severos com ela, mas...
        A conversa foi interrompida com a porta da cozinha sendo aberta, repentinamente, dando passagem a um jovem esguia, muito loira, que estacou surpresa assim
que entrou.
        - Jess! - exclamou alegre. - Graas a Deus, voc veio! Minha me j lhe contou...
        - Que est sendo seguida por um perseguidor ardente? - replicou Jssica, secamente. - Francamente, Belle...
        - Mas eu pensei que estava mesmo apaixonada por ele - defendeu-se a garota. - Ele era to diferente de John e tudo parecia to romntico... Ora, no precisa
me olhar desse jeito!  muito fcil para voc fazer essa cara, nunca se envolve em nada desse tipo,  to sensata... to pouco romntica... mas eu...
         Jssica piscou os olhos ao ouvir o comentrio impensado da prima. Quantas vezes j ouvira isso antes? Pelo menos todas as vezes em que se recusara a ir
para a cama com um acompanhante. Ironicamente sempre pensara em si mesma como uma pessoa muito romntica, apenas talvez com ideais mais elevados.
        Quando foram se deitar mais tarde, Jssica insistiu com a prima:
        - Ento, est mesmo certa de seus sentimentos para com John?
        - Acho que nunca estive to certa de alguma coisa. - Isabel garantiu, com sinceridade. - E vou entrar bem se Jorge resolver aparecer aqui para saber o motivo
de eu ter deixado de lhe escrever. Voc vai v-lo, no vai, Jess? Acho que eu no agentaria perder John!
        Havia lgrimas nos olhos de Isabel e, sem se dar conta, Jssica acabou cedendo. Talvez no fosse tanto trabalho assim encontrar o rapaz enquanto estivesse
na Espanha. Ainda que para isso fosse necessrio esticar a sua permanncia l.
        - Est bem, eu vou, embora duvide que ele v aparecer por aqui.
        - Voc no entende, Jess. Ficamos praticamente noivos. Tenho certeza de que ele vir!
        - J lhe disse, Belle, acho que est se preocupando exageradamente. Mas tudo bem, eu vou.
        Colin estranhou quando Jssica lhe explicou o ocorrido e lhe pediu uns dias de frias para acrescentar  sua viagem  Espanha.
        - Est querendo me dizer que concordou em ir ver esse impetuoso "romeu" no lugar de sua prima? Ser que no  bem grandinha para resolver seus prprios problemas?
        - Nesse caso no. - Jssica assegurou-lhe. - Alm do que, voc sabe que falo espanhol.
        Colin sabia muito bem que ela falava vrias lnguas estrangeiras. Mas insistiu em critic-la:
        - Bem, vejo que nada do que digo ir cur-la dessa sua incorrigvel mania de proteo em relao  sua famlia. Por essa e por outras  que agradeo a Deus
no ter famlia alguma!
        - E quanto aos dias de frias?
        - Tudo bem. Apenas lamento que no v tir-los porque quer e sim por causa daquela sanguessuga de sua prima.
        A cidade de Sevilha mexia com os sentidos. Assim que desceu do avio sob o tpido sol da primavera, Jssica apaixonou-se por ela. J estivera antes em Madri,
a capital, por motivos profissionais, porm, era a primeira vez que visitava aquela cidade do sul da Espanha.
        Quando Isabel lhe dissera que Jorge vivia l, Jssica se surpreendera. Na verdade, esperava que ele morasse em algum canto da Costa Brava. A prima lhe contara
que haviam se encontrado quando ele tambm estivera viajando, em frias no litoral.
        Colin insistira em lhe pagar o hotel e se apressara em lhe fazer a reserva. Assim, depois de uma rpida passagem pela recepo, onde no tivera problema
algum, devido ao seu espanhol fluente, Jssica foi conduzida ao seu quarto.
        O prdio era uma imponente construo em estilo barroco, transformada em hotel com muito cuidado e bom gosto. Os mveis combinavam perfeitamente com o estilo
e poca do quarto. O banheiro era muito mais luxuoso do que o de um hotel de categoria equivalente em Londres. A atmosfera do ambiente parecia confirmar que aquela
parte do mundo havia sido governada pelos mouros, com seu amor ao luxo e sua sensualidade extrema, transmitida atravs das geraes.
        Depois de ajeitar suas coisas, Jssica foi at o saguo comprar guias e mapas da cidade. Ainda dispunha de toda a tarde e do incio da noite para marcar
o encontro com Jorge, j que na Espanha era costume se jantar somente s dez horas da noite.
        Em primeiro lugar, tentaria descobrir se o nome da famlia de Jorge constava da lista telefnica. Dessa maneira poderia avis-los de sua visita, em vez de
chegar de surpresa.
        Depois de fazer uma refeio ligeira no restaurante do hotel, Jssica foi imediatamente para seu quarto, consultar a lista. Havia muitos Calvadores, mas
nenhum com o endereo de Jorge. Teria mesmo de ir sem ser anunciada.
        Pediu para a recepo lhe providenciar um txi e foi tomar um banho. Vestiu um vestido de seda verde jade, cuja saia plissada marcava-lhe as pernas conforme
andava. Era uma das novidades de Colin para aquela estao e a cor lhe caa muito bem.
        Passou um pouco de sombra da mesma tonalidade sobre as plpebras e um pouco de rmel para realar os clios.
        Quando a recepcionista ligou para lhe dizer que o txi havia chegado, Jssica j estava pronta.
        O txi percorreu o mais luxuoso bairro da cidade, passando por prdios imponentes e casares majestosos, para surpresa da visitante. Nunca imaginara que
Jorge poderia ser de uma famlia rica.
        Finalmente o txi parou e, meio hesitante, ela perguntou ao motorista se poderia vir busc-la dentro de meia hora. Esperava que, se Jorge estivesse em casa,
esse tempo seria suficiente para esclarecer a situao com ele.
        Sentindo-se insegura, Jssica subiu alguns degraus de pedra e tocou a campainha. Pareceu-lhe haver passado uma eternidade at que ouviu passos se aproximando
da pesada porta de entrada. Era como estar vivendo uma cena de filme de terror!
        O mordomo que a atendeu olhou-a com reprovao por alguns segundos, dando-lhe a impresso de que ia lhe fechar a porta na cara., Jssica balbuciou rapidamente:
        - Meu nome  Jssica James e desejo ver o senor Calvadores. Ele est?
        O homem estudou-a por mais alguns minutos e depois abriu a porta, para que ela entrasse. Jssica reconheceu que todo o seu apartamento caberia naquele hall
de entrada! O piso era de um tipo de cermica rara, to maravilhoso que ela susteve a respirao. Se ao menos Colin pudesse ver aquilo! As tonalidades, variando
do azul-claro ao azulo, eram fantsticas.
        - Queira esperar aqui, senorita - disse-lhe o mordomo, encaminhando-a para uma outra sala, to grande quanto o hall, e decorada com valiosas peas antigas.
- Vou ver se o senor Conde pode atend-la.
        - O senor Conde! - Jssica repetiu baixinho, assim que ele se retirou. Isabel no havia mencionado absolutamente nada a respeito desse ttulo. Mesmo sem
querer, sentia-se impressionada por toda aquela atmosfera.
        Estava observando um retrato sobre a lareira quando ouviu passos firmes se aproximando. Sentia-se tensa. Agora que o momento estava chegando, comeava a
se achar ridcula, sem ter o que dizer. Como poderia simplesmente contar a ele que Isabel no o queria mais, que estava quase noiva de outro homem?
        A porta se abriu e o homem que apareceu quase a fez parar de respirar. A primeira impresso que causava era de ser tremendamente arrogante, olhando-a, do
alto de seu porte aristocrtico, de cima a baixo, com uma expresso de visvel raiva em seus olhos acinzentados. Fez um leve movimento com a cabea, que mais lhe
pareceu um insulto do que um cumprimento.
        Era muito mais alto do que imaginava. Seus cabelos eram negros e revoltos. Tudo nele exalava riqueza e prestgio. Jamais seria o tipo que pudesse se imaginar
excursionando pela Costa Brava e tendo um romance com sua prima.
        Primeiro devia ter o dobro da idade dela: talvez pouco mais de trinta anos; depois, de forma alguma parecia o tipo de homem que precisasse de mulher jovem
para adular seu ego. Na verdade no precisava de mulher alguma, pois seu orgulho jamais admitiria isso. Era o smbolo de centenas de anos de bero e riqueza, coisa
encontrada exclusivamente nas famlias espanholas antigas. Jssica sentia o sangue gelar s de pensar em lhe dizer que a prima havia preferido um outra pessoa.
        - Senorita James?
        Pelo visto falava ingls sem sotaque, mas apesar de sua voz polida e controlada, Jssica podia sentir uma grande raiva no seu tom. Por qu? Teria pressentido
o motivo da sua visita?
        - Senor Calvadores?
        A voz de Jssica no soou absolutamente to controlada quanto a dele. Por algum motivo sentia que ele no pretendia lhe facilitar as coisas.
        "Onde est a to decantada hospitalidade espanhola?", perguntou-se indignada.
        No via a hora de dizer o que precisava e fugir dali. Toda a simpatia que sentira de incio por aquele homem se esvara diante de sua atitude. No podia
imaginar a prima envolvida com aquele tipo e achou um desaforo que a tivesse colocado naquela situao.
        - Vim v-lo para lhe...
        - Sei por que veio, srta. James - ele interrompeu-a, bruscamente. - E sem dvida espera que eu torne as coisas fceis para voc. Certamente pretende me convencer
com esses seus grandes olhos preocupados. Mas pode desistir desde j.
        Ele deu uma volta na sala, e continuou, rspido:
        - Colocando as coisas claramente, srta. James, depois de v-la com meus prprios olhos, e confirmar cada uma de minhas piores suspeitas, percebo que  uma
mulher jovem, que gosta de roupas caras, e, apesar da sua petulncia em vir at aqui, simplesmente no vou permitir que arrune a vida de meu irmo, chantageando-o.
No permitirei que se case como ele por causa de um casinho banal que vocs tiveram alguns meses atrs!
         Jssica estava completamente boquiaberta. No conseguia articular uma palavra. Ele havia dito "meu irmo". Ento ele no era Jorge de Calvadores, mas, sem
dvida, pensava que ela fosse Isabel.
        J se dispunha a esclarecer o engano quando ele mencionou "um casinho banal". Isabel nada lhe dissera de ter tido um caso com Jorge. Na realidade, a prima
lhe dera a ntida impresso de que ele a estava pressionando a um compromisso indesejvel, enquanto aquele homem lhe dizia exatamente o contrrio. Estava claro que
aquele mal-entendido precisava ser corrigido!
        Jssica deu um suspiro profundo. Talvez fosse melhor explicar logo quele homem que ela no era Isabel. Abriu a boca para falar, mas fechou-a no mesmo instante,
paralisada pela maneira cnica com que ele a olhava. Ningum a havia olhado daquele jeito antes, como se estivesse fazendo uma avaliao sexual. Sentiu o prprio
corpo pegando fogo e ficou revoltada ao pensar que Isabel pudesse ter sido exposta quele olhar impiedoso. E dizer que ouvira falar da delicadeza e respeito dos
espanhis pelas mulheres!
        - No  nada disso... - comeou a argumentar, trmula. Comeou a se recompor um pouco, sentindo que o embarao cedia lugar a uma grande raiva.
        - Pelo contrrio, entendo tudo muito bem - retrucou ele, rspido.
        - Dios, acha que no sei o que acontece nessas estaes de frias?
        - Os lbios dele fizeram uma expresso de desprezo. - Deve ter se julgado muito afortunada por encontrar um jovem rico e desprevenido como meu irmo. Infelizmente
para voc, Jorge s toma posse de sua herana daqui a seis anos, quando completar vinte e cinco anos. At l sou o seu curador e pode ter certeza de que farei tudo
ao meu alcance para livr-lo de suas garras.
        - No  nada como...
        - Devo lhe dizer que estou surpreso com a sua vinda - interrompeu-a, impedindo-a uma vez mais de se explicar. - Pensei que Jorge tivesse deixado bem claro
para voc que o caso estava encerrado. Devia t-lo persuadido a pagar pelas horas de prazer na mesma ocasio, srta. James. Agora  tarde demais. Ele a v como realmente
 - concluiu, cheio de desprezo.
         Jssica estava gelada e s imaginava Isabel ali, tendo de agentar todos aqueles insultos.
        - Seu irmo amava... Ele...
        - Apenas desejava seu corpo. Ele  um rapaz inexperiente e confundiu esse desejo com um outro tipo de emoo. Naturalmente voc se prevaleceu disto para...
        - Um momento! - foi a vez de Jssica interromp-lo, sentindo-se inesperadamente lcida. - Se est insinuando que Jorge foi forado a...
        - Ora, estou certo de que no foi uma questo de ser "forado" - concordou ele, num tom glacial. - Enredado, atrado, magnetizado talvez fossem termos mais
adequados. Voc  uma mulher atraente - disse-lhe, quase despindo-a com os olhos. - Embora no seja o tipo preferido de Jorge... Claro, sei por que est aqui. Sua
presena talvez fosse o incentivo de que ele estivesse precisando. Longe dos olhos...
        As coisas tinham ido longe demais. Jssica permitira que ele a insultasse fora dos limites.
        - Antes que continuemos, devo dizer-lhe que no tenho o menor desejo de me comprometer com seu irmo. Na realidade...
        - Ora, vamos l, no espera que acredite nisso! - disse-lhe em tom macio e petulante. - Talvez devesse lhe refrescar a memria. Tenho aqui sua ltima carta.
Ele a trouxe para que eu a lesse. Estava muito confuso. Acho que fez tanta presso para que Jorge assumisse o noivado que ele entrou em pnico e veio se confidenciar
comigo.
        - Ah, deve ter bastante experincia de como se livrar de mulheres indesejveis, no ?  o preo que se paga por ser rico!
        Ao v-lo corar ligeiramente, Jssica sentiu uma grande satisfao interior. Realmente no devia ser nada agradvel ouvir que as mulheres pudessem se aproximar
dele apenas pelo seu dinheiro, o que sem dvida no era verdade. Jssica o achava imensamente msculo e atraente, apesar de toda repugnncia que lhe causava. Naquela
frao de segundo, passou-lhe pela cabea se seria casado, mas procurou imediatamente afastar o pensamento, pois no era de sua conta.
        - Tem de aceitar que Jorge no quer mais nada com voc. Ainda que quisesse, eu faria de tudo para dissuadi-lo de se casar com uma mulher do seu tipo. Ser
que posso adivinhar o que voc mais gostou nele?
        - Se o fizer, vai se enganar - Jssica falou num fio de voz. - Conforme j lhe disse, no desejo me casar com seu irmo.
        - No mesmo? - Com um movimento rpido, ele tirou do bolso uma folha de papel. - Leia isto, talvez a ajude a se lembrar - acrescentou, com desdm.
        Contra sua vontade, Jssica pegou a carta, sentindo um calafrio quando sua mo roou na daquele homem.
        Abriu a carta e mal comeou a ler, seu corao quase parou. No s estava ali declarado que Isabel e Jorge tinham sido amantes, como tambm a prima praticamente
implorava a ele que se casasse com ela.
        No podia acreditar que Isabel estivesse enlouquecida quele ponto e sentia nuseas s de pensar em com os tios se sentiriam se lessem aquela carta. O que
dizer ento de John? Jssica s no compreendia a razo da prima tanto recear que Jorge fosse v-la na Inglaterra. Tudo indicava que ele estava to ansioso quanto
ela para dar o caso por encerrado.
        - Muito edificante, no? Segundo o que Jorge me confessou, embora meio relutante, ele tampouco foi seu primeiro caso.
         Jssica arregalou os olhos, no escondendo o seu espanto.
        - S posso concluir que, uma vez que sua carta no produziu resultado esperado, voc resolveu vir pessoalmente. Bem, creio que agora ficou bem claro que
meu irmo no quer se casar com voc.
         Jssica novamente teve mpetos de abrir a boca e contar a verdade. Mas, se havia protegido Isabel at aquele ponto, era melhor se calar agora.
        - Talvez, diante da impossibilidade de casamento, voc tenha outra coisa em mente.
         Jssica ficou lvida. Procurou se apoiar no espaldar de uma cadeira. Ele continuou, implacvel:
        - Jorge deve ter lhe dito que nossa famlia tem planos de v-lo casado com a filha de um grande amigo nosso.  uma unio que tem todas possibilidades de
sucesso. Me ocorreu agora que talvez voc esteja querendo tirar partido da situao. Ele certamente lhe falou que a famlia de Brbara  muito conservadora e no
aceitaria qualquer deslize da parte dele...
        - Acha que eu usaria de chantagem? - sussurrou Jssica, mal acreditando no que ouvia. - Acha que vim aqui para... para...
        - Deveras convincente, srta. James. Mas esquece que no sou Jorge, para ficar impressionado com a inocncia desses seus olhos e acreditar nessa sua representao.
Voc  vrios anos mais velha do que meu irmo e est querendo se aproveitar da inexperincia dele. Sabia que minha famlia nunca iria concordar com esse compromisso,
srta. James, por isso  melhor irmos direto ao assunto.
        - Se est querendo insinuar que pretende me pagar para esquecer qualquer reivindicao que tenha com relao ao seu irmo, est perdendo seu tempo!
         Jssica deu as costas e saiu, furiosa. As lgrimas escorriam-lhe pelo rosto. Ao perceber que ele se aproximava, por trs, sentiu-se em pnico. Mas felizmente
conseguiu logo abrir a porta, de modo que mal teve tempo de sentir a mo dele esbarrar em seu ombro e ouvi-lo praguejar. No instante seguinte, j havia ganho a rua.
        Entrou rapidamente no txi que estava  sua espera, pouco se importando com o que o motorista pudesse pensar daquela cena. Assim que chegasse ao hotel telefonaria
para a prima para saber o que realmente havia acontecido.
        Por sorte, os tios estavam fora jogando bridge e Isabel encontrava-se sozinha em casa. Ela atendeu o telefone, ansiosa. Sua primeira reao de prazer ao
ouvir Jssica transformou-se em petulncia ao perceb-la zangada.
        - Ento viu Sebastin? - exclamou nervosa. - Essa no, Jess, o que foi que ele disse?
        - Nada de elogioso - desabafou, registrando intimamente que Sebastin era um nome bem adequado para aquele homem.
        - No vai me contar?
        - Na verdade, ele me confundiu com voc. Oh, Belle, devia ter me avisado o que eu iria encontrar. Devia ter me contado toda a verdade. Por que afinal quis
que eu viesse at aqui? Sebastin disse que Jorge no tem o menor desejo de se comprometer com voc, inclusive me mostrou sua carta.
         Jssica pde sentir que a prima ficara desnorteada. Certamente no esperava que isso acontecesse e tinha agora de reverter a coisa para ficar novamente
em vantagem
        - Voc no disse a ele que estava enganado, disse? Quero dizer sobre voc ser eu?
        - No tive oportunidade - retrucou Jssica, secamente, lembrando que no tinha sido nada agradvel ouvir os insultos do arrogante Conde.
        -  melhor que ele no saiba... Oh, Jess, por favor, procure entender. Quando escrevi aquela carta a Jorge, estava desesperada. Pensei que estivesse grvida...
Jess...  Jess, ainda est a?
         Jssica confirmou, to chocada se sentia.
        - , acho que voc no pode entender nada - ouviu Isabel dizer, zangada. - Francamente, Jess, voc  to antiquada que nem d para acreditar! Pode ser muito
bom para voc viver feito uma solteirona fria, mas no  para mim. Por que no posso me divertir se  isso que quero?
        - Ser que  muito divertido pensar que est grvida, sem ser casada?
         Jssica sentiu que aquela conversa estava sendo intil. Isabel ainda era muito mimada e no adiantava nada, agora, reconhecer que devia ter sido criada
com maior firmeza. O erro estava feito e a prima achava que tinha o direito de fazer o que quer que lhe passasse pela cabea.
        -  claro que no - Isabel admitiu. - Mas o que mais me restava fazer? Tinha de escrever a ele, afinal era to responsvel quanto eu.
        - Continue - pediu Jssica.
        Quanto mais ouvia, mais difcil achava justificar a atitude da prima. Mas no podia esquecer dos tios. Eles ficariam tremendamente chocados se soubessem
da verdade.
        - Bem, descobri que foi alarme falso e como as coisas esto correndo bem com John...
        - Belle, no entendo. Deve ter mais alguma coisa alm disso. Por que me pediria para vir ver algum que estava a ponto de ficar noiva, se ele no tinha a
menor inteno?
        Houve um breve silncio. Jssica j se sentia exasperada. Finalmente, Isabel admitiu, encabulada:
        - Est bem, vou lhe dizer. Quando escrevi para Jorge, no foi ele quem me respondeu, mas sim seu irmo. Jorge havia mostrado a ele a minha carta, e o idiota
queria saber que prova eu podia dar de que a criana era de Jorge. Foi uma carta odiosa, Jess, e eu estava apavorada... Jorge j havia me falado a respeito dele,
que era seu curador e muito rgido. Fiquei apavorada que ele pudesse vir at aqui me procurar por causa do que eu havia escrito. Entrei em pnico.
        - E foi cmodo me mandar em seu lugar, no ?
        - Pensei que se voc pudesse falar com Jorge e esclarecer tudo, ele diria ao irmo e...
        E no teria que enfrentar o desprazer de encontrar Jorge ou Sebastin. "Muito cmodo!" pensou Jssica, irritada.
        - Voc entende, no entende, Jess? - perguntou Isabel, em tom suplicante. - Eu no podia correr o risco de Sebastin vir at aqui. Se John ou meus pais o
vissem...
        - Muito boazinha! Preferiu mandar-me  jaula do leo. Obrigada!
        - No podia imaginar que voc iria encontrar Sebastin. Menos ainda que ele fosse tom-la por mim - ela procurou defender-se. - Mas agora est tudo arrumado,
no ?
        Sem dar a menor importncia aos sentimentos de Jssica, ela continuou:
        - Como  ele? Jorge falava dele como se fosse um deus. - Deu uma risadinha. - Cheguei at a desejar v-lo; Jorge dizia que as mulheres viviam atrs dele.
Ele  imensamente rico, e o ttulo de nobreza remonta de sculos atrs.
        Era evidente que Isabel sabia muito mais a respeito dos Calvadores do que dera a entender antes. Jssica estava furiosa com a prima, mas experincias passadas
confirmavam que de nada adiantava se zangar com ela. Agora tambm pouco resolveria faz-la vir at Sevilha para enfrentar Sebastin de Calvadores.
        - Precisa ver que carta odiosa ele me mandou - Isabel insistiu na conversa, com a voz ligeiramente trmula. - Ousou dizer que no acreditava na minha gravidez
e que isso no passava de um truque meu para fazer Jorge se casar comigo. Ainda bem que est tudo acabado agora, Jess - acrescentou, num tom mais feliz. - Estou
to aliviada.
         Jssica sequer acreditava que a prima tivesse estado muito preocupada.
        - A propsito, John me props casamento a noite passada e eu aceitei. Meus pais esto exultantes.
        Intimamente, Jssica achava que aquela notcia era uma lstima. Isabel era ainda muito imatura. Duvidava que John fosse o marido certo para ela.
        - Quando voc volta? - Isabel perguntou. - Estamos planejando uma festa de noivado e, naturalmente, quero que voc esteja aqui.
        Naturalmente o que a prima queria era aplacar a conscincia, embora nem imaginasse o que havia sido para Jssica enfrentar Sebastin de Calvadores, ouvir
insultos, o questionamento de sua moral, de seus sentimentos, de sua pessoa...
        Como havia tirado dois dias para resolver os problemas de Isabel, Jssica se encontrou com mais um dia pela frente e resolveu no desperdi-lo. Iria explorar
Sevilha.
        Sabia alguma coisa sobre a cidade, que fora governada pelos mouros, que durante a Idade Mdia ganhara reputao como centro de estudos mdicos. Quando Colin
chegasse, haveria muito pouco tempo para visitarem os pontos tursticos, o que alis pouco interessava a ele. Assim, depois de verificar que o avio no qual ele
viajava s chegaria  noite, Jssica apanhou os guias e saiu para explorar a cidade.
        Infelizmente, mal pde apreciar a beleza de Sevilha. A cada esquina, lembrava-se de Sebastin de Calvadores. Sangue mouro corria nas veias daquele homem,
o mesmo sangue dos que haviam construdo aquela civilizao sculos atrs.
        "Esquea-o", disse a si mesma, com determinao. Mas como esquecer aquele olhar de desprezo que lhe dizia conhecer tudo sobre as mulheres e no sentira absolutamente
nada por ela, ao medi-la de cima a baixo?
        Se no fosse pelo fato de no querer trair Isabel, voltaria quela casa e jogaria na cara daquele homem toda a verdade. Mostraria como ele se enganara a
seu respeito. Ento seria a sua vez de desprez-lo.
        Sevilha era uma cidade linda, mas definitivamente Jssica no estava com disposio para aproveitar o dia. Quase tudo o que via lembrava-lhe Sebastin de
Calvadores. Os rostos mouros, graves e oprimidos dos quadros faziam-na pensar naqueles homens que guardavam suas mulheres como jias preciosas. A castidade e o desejo
corriam paralelamente no sangue dessa gente; santos ou pecadores, no havia possibilidade de meio-termo. Tinham um passado de conquistas e raros eram os habitantes
de Sevilha que no se gabavam da prpria descendncia.
        Jssica ficou contente quando chegou o momento de ir esperar o avio de Colin. Ao v-lo descer, com sua maleta, achou-o agradavelmente seguro e carinhoso.
        - Jssica! - exclamou Colin, ao v-la de longe.
        Abraou-a com afeto quando se aproximaram.
        - Tudo resolvido? - perguntou ele, ao entrar no txi, com expresso ansiosa, como se temendo que os problemas particulares dela, pudessem interferir em seu
trabalho.
        - Acho que sim.
        O visvel alvio que ele sentiu fez com que Jssica sorrisse.
        - Graas aos cus! Estava preocupado pensando que iramos ter um choroso amante latino para consolar.
        Por um momento Jssica se perguntou se Jorge se pareceria com o irmo. Concluiu logo que no. Tinha certeza de que Sebastin no se deixaria manipular como
talvez Isabel tivesse feito com Jorge. No tinha dvidas que, em se tratando de mulheres, Sebastin devia ser sempre senhor da situao. Seria casado?
        - Jess?
         Jssica procurou voltar sua ateno para Colin. Estava em Sevilha a trabalho e no para se preocupar com a vida pessoal de um estranho.
        Estranho ou no, ainda sentia o impacto da presena dele, como naqueles, primeiros segundos em que o vira e se impressionara com sua aparncia mscula e
sensual.
        Colin estava cansado da viagem e ficou combinado que ele jantaria em seu quarto e se deitaria cedo.
        - J foi conhecer o centro de exposies? - ele perguntou a Jssica que negou com a cabea. - Bem, a abertura ser amanh. Temos uma entrevista na Calvortex
depois do almoo. Faa figa, hein? Fiz todos os desenhos da prxima estao tendo em mente os tecidos deles. Se forem como os da estao passada, ser um sucesso,
especialmente se nos derem concesso exclusiva para a Inglaterra.
        - O que sabe a respeito deles? - Jssica perguntou, enquanto entravam no saguo do hotel.
        - Muito pouco, de fato. Na maior parte, apenas informao de boca. Pelo que me disseram, o presidente da companhia seleciona seus clientes a dedo. Sei tambm
que se trata de um pequeno negcio de famlia e que produzem os tecidos sonhados por todos os estilistas que se prezam.
        - Ento vamos fazer figa mesmo - Jssica comentou, rindo, ao velo to empolgado.
        - Fiquei contente de saber que voc resolveu o assunto de Isabel - Colin confidenciou. - Que garota! No entendo por que voc tem de ficar correndo atrs
dos problemas dela.
        - Fique sossegado que  por pouco tempo. Ela ficou noiva!
        - Deus ajude o coitado! - foi o comentrio mordaz de Colin, quando a porta do elevador se abriu.
        Como seus quartos ficassem em alas diferentes, os dois se despediram ali.
        Uma vez no quarto, Jssica procurou se concentrar no que teria de fazer na manh seguinte, quando visitaria a exposio. As feies aquilinas de Sebastin
de Calvadores, entretanto, interpunham-se entre ela e seu trabalho.
        No entendia a razo daquele homem orgulhoso e arrogante no lhe sair da cabea. Talvez por ter se sentido humilhada demais com os insultos dele.
        Foi deitar-se cedo e estava quase dormindo quando bateram  sua porta.
        - Jess, est acordada? - ouviu Colin cochichar do lado de fora. - Estou com uma terrvel indigesto. Tem alguma coisa para eu tomar?
        Dando um suspiro, Jssica levantou-se e foi buscar uns comprimidos efervescentes em sua frasqueira. Um dos defeitos de Colin era ser hipocondraco e se recusar
a carregar sequer uma aspirina. Preferia fazer papel de vtima com os desavisados. Jssica, porm, depois de alguns meses de trabalho com ele, sabendo do seu fraco,
se habituara a levar uma pequena farmcia onde quer que fossem juntos.
        Abriu a porta e estendeu-lhe os envelopes.
        - Voc  um anjo!
        Colin se inclinou, e a beijou, de leve, no rosto.
        Nesse momento, ela levantou ligeiramente os olhos para ver o casal que se aproximava no corredor. Uma mulher mignon, com um carssimo vestido de noite, acompanhada
por um homem alto, impecavelmente vestido e cujo perfil... Sebastin de Calvadores! O que estaria fazendo ali e quem estava com ele?
        Empalideceu quando o olhar de desprezo dele encontrou o seu. Sentiu-se instantaneamente embaraada por estar de camisola e despenteada, com a mo de Colin
em seu brao e os lbios dele em seu rosto. Corou ao pensar nas concluses que Sebastin pudesse estar tirando daquela situao.
        No mesmo minuto, ficou com raiva de si mesma por sentir-se embaraada. Afinal, o que ele tinha a ver com sua vida? Aquele olhar glacial, porm, parecia querer
acus-la de estar visando com este novo "parceiro" s vantagens financeiras que no tivera com seu irmo.
        - Jess, algo errado? - Colin perguntou ao v-la contrariada. - Estou achando voc muito estranha desde que cheguei. Deve ser por causa da danada daquela
sua prima.
        - No h nada errado, Colin. Estou apenas um pouco cansada - mentiu, aliviada por Sebastin e sua companheira terem virado o corredor, saindo do seu campo
de viso. - Estarei bem pela manh, fique tranqilo.
CAPTULO III
        Jssica sentia-se insegura e tensa na manh seguinte ao tomar seu desjejum, no restaurante do hotel. Ficava sobressaltava cada vez que entrava algum. Daria
tudo para poder voltar para casa e se ver livre daquele pesadelo em que a prima a havia metido.
        No podia perdoar Isabel por ter tido uma conduta to leviana. Por mais que ela quisesse se justificar, era indiscutvel que tentara forar Jorge ao casamento.
Entretanto, isso no dava direito ao irmo dele de se dirigir a ela naqueles termos que to cedo no lhe sairiam da cabea.
        - Est na hora de irmos para a exposio - disse Colin, fazendo-a voltar ao real motivo de sua visita  Sevilha.
        Meia hora depois, l estavam os dois, deslumbrando-se com os tecidos expostos.
        - Sinta a maciez desta camura - exclamou Colin. - Parece uma seda. Fico com coceira nos dedos de vontade de usar!
        - E este tweed? - exclamou Jssica. - Parece que a l vem da Amrica do Sul...
        - Muitos espanhis tm familiares na Amrica do Sul, no se esquea. No  de admirar que se valham dessas relaes para intercmbios comerciais. No caso,
importam a l em seu estado natural e fazem o tingimento e o tecido aqui na Espanha. Colin chamou a ateno de Jssica para o stand da companhia que eles iriam visitar.
        - Que classe! Que cores! - suspirou, encantado.
        - So realmente incrveis - Jssica concordou, sentindo uma pontinha de inveja.
        Ao terminar a faculdade, sua primeira inteno era a de conseguir um emprego de desenhista numa indstria txtil. Entretanto, logo percebera que no seria
fcil. Normalmente, essas firmas promoviam e treinavam seus prprios funcionrios. Trabalhar com tecidos, a partir das fibras naturais, era agora apenas um sonho
impossvel.
        Havia uma pequena multido em volta do stand da Calvortex. Colin demorou alguns minutos para conseguir falar com um dos responsveis. Explicou o propsito
de sua vinda a Sevilha e lhe mostrou as cartas de recomendao que trouxera. Jssica servia de intrprete.
        - Infelizmente, sou apenas um funcionrio - explicou o rapaz a Jssica. - Mas vou levar o assunto a meus superiores. H algum telefone para que nos comuniquemos
com os senhores?
        Colin deu seu carto, anotando no verso o telefone do hotel. Em seguida sugeriu a Jssica que fossem almoar. Logo um txi os deixou num restaurante discreto
e requintado, naturalmente escolhido por Colin.
         Jssica estava trajando uma outra roupa da griffe de seu patro. Ao serem encaminhados at a mesa, vrias cabeas se voltaram para ela, com admirao, provocando
um ar de prazer no rosto de Colin.
        Durante o almoo, porm, ele estava muito srio.
        - Peo a Deus conseguir entrar em acordo com a Calvortex. Jssica, que o conhecia muito bem, procurou anim-lo.
        - Tomara mesmo, pois os tecidos so realmente fantsticos. Porm, no ser o fim do mundo se no conseguirmos, no , Colin?
        - Talvez seja - disse-lhe Colin, em tom grave. - As coisas no tm sido muito fceis nestes ltimos anos. Cada vez h menos gente com dinheiro para gastar
em alta costura. Os tecidos da Calvortex tm reputao internacional. Se consegussemos us-los em nossas roupas, estou certo de que nos ajudariam a levantar as
vendas. J tive at um contato com americanos, que impuseram a condio de que usemos Calvortex. No sei como ficaram sabendo dessa nossa inteno. Mas nos propuseram
um contrato excelente.
        - Que tima notcia!
        - Nem fale. Se der certo,  capaz de, com os lucros, termos condies de iniciar uma linha mais acessvel.
        Fazia sentido o que Colin falava. Jssica conhecia o mundo da moda suficientemente bem para saber que ele no estava exagerando. Muitas casas de alta costura
aos poucos se retiraram do mercado. Excelentes estilistas apareciam, eram aclamados por algumas temporadas e, depois, simplesmente desapareciam. Sentia, porm, um
frio na espinha s de pensar que Colin pudesse atravessar dificuldades financeiras.
        - Bem, voltemos  exposio - Colin props, assim que terminaram de almoar. - Precisamos ter outra alternativa no caso de nosso contato com a Calvortex
no dar certo. Vou lamentar muito se perdermos o contrato com os americanos.
        - A textura e a cor daqueles tweeds... Como ser que conseguem aquelas cores?
        - No sei, ouvi dizer que  uma espcie de segredo guardado a sete chaves. O presidente da firma tambm  o principal desenhista e especialista em cor. Como
lhe disse,  uma companhia realmente pequena, sem inteno alguma de se expandir, exatamente para garantir exclusividade a seus clientes.
        Apesar de interessantes, comparados aos tecidos da Calvortex, todos os demais tecidos expostos deixavam muito a desejar. Mesmo assim Jssica achou que havia
um produto ou outro que pudesse ser til a eles, como o couro e a camura.
        H algum tempo tentava convencer Colin a testar uma linha mais jovem e descontrada, para a qual tanto o couro quanto a camura dariam um timo resultado.
        Pouco depois do jantar, Colin foi avisado pela recepo do hotel de que tinham recebido um chamado da Calvortex.
        - Primeiro passo, sucesso total, pelo menos! - foi anunciando ao se aproximar de Jssica, no bar, muito eufrico. - Falei com o prprio presidente da organizao
e ele concordou em me receber amanh. Expliquei que voc est comigo e ele me disse que est programando uma visita  fbrica primeiro, antes de conversarmos.
         Jssica sabia que no tomaria parte naquelas conversaes, mas exultava de poder ver como eram fabricados os tecidos.
        Apesar de Colin no lhe ter feito recomendao alguma, vestiu-se com esmero para a visita. Escolheu um conjunto da temporada seguinte, em veludo cor de ferrugem,
finamente debruado nos punhos e na gola, e, por baixo, uma blusa de sede creme. Ao se olhar no espelho, gostou do resultado.
        Colin tambm gostou e logo tratou de expressar sua admirao.
        - No podia estar melhor. Essa jaqueta tem um certo ar de "toureiro", bem adequada para este lugar. Ol!
        - Pensei em vestir o tailleur de tweed, mas, como o tecido no se compara aos da fabricao deles, mudei de idia.
        - Fez bem. Essa cor lhe ficou muito bem.
        - Obrigada.
        - Bem  melhor irmos tomar caf, pois o txi que mandei reservar no deve tardar.
        Enquanto se dirigiam ao restaurante, Jssica ficou observando Colin. Ele estava impecavelmente trajado, de terno e gravata, e uma imaculada camisa de seda
branca da Turnbull & Asser. Pertencia a uma gerao mais antiga, que gostava de se vestir corretamente em cada ocasio e acreditava que se reconhecia um cavalheiro
pelas roupas. As dele eram caras e discretas, combinando com os finos sapatos feitos a mo.
        A fbrica estava situada fora de Sevilha. Surpreendentemente, era muito moderna. Colin no se cansava de dizer que fora muito bem planejada, pois localizava-se
bem prxima a estradas importantes, tendo inclusive acesso fcil ao porto.
        Foram atendidos na recepo por um rapaz sorridente, formalmente vestido num terno escuro, que os olhou respeitosamente. Seu nome era Ramn Ferres.
        Num tom educado, ele informou que os acompanharia na visita  fbrica.
        - Infelizmente, o Conde no pode lhe mostrar a fbrica pessoalmente - disse num ingls sibilante, caracterstico dos espanhis. - Entretanto, almoar com
o senhor, conforme combinado.
        Em seguida acrescentou, dirigindo-se a Jssica:
        - Perdoe-me se a olho, senhorita.  que quando o sr. Weaver mencionou que viria acompanhado, imaginamos que fosse por "um" assistente e no espervamos uma
mulher. Receio que v achar os processos qumicos da fbrica meio enfadonhos...
        - De forma alguma - interrompeu-o Colin, achando graa, rindo.
        Jssica intimamente fervia de raiva por aquela observao chauvinista. Era provvel que na Espanha as coisas fossem diferentes. De um modo geral, as mulheres
talvez se contentassem em viver num segundo plano, especialmente nas famlias mais abastadas. Sem dvida, algum como a mulher de Sebastin de Calvadores, se  que
era casado, jamais pensaria em interferir na vida do marido.
        Era uma questo de educao. As mulheres eram educadas para serem dceis e submissas, e viverem apenas para suas casas e famlias.
        - Ver que Jssica tem muito maior conhecimento sobre processos industriais do que eu - prosseguiu Colin. - Para ser sincero, acredito at que ela preferisse
desenhar tecidos do que roupas.
        As horas seguintes passaram voando. Para Jssica, havia muito o que ver e aprender. A fbrica era muito moderna, seu equipamento era sofisticado e de qualidade
superior. As tcnicas, avanadssimas.
        Embora tivessem visitado a seo de tingimento, Ramn Ferres nada lhes disse a respeito de como conseguiam obter aquelas cores delicadas e diferentes. Ao
ser indagado por Jssica, tudo o que informou foi que os pigmentos eram extrados de fontes naturais.
        - Deve haver problemas para estabilizar essas cores, no? - Jssica insistiu.
        O jovem guia sorriu, encolhendo os ombros, ligeiramente.
        - E h. Mas tivemos a sorte de descobrir um meio para faz-lo que, deve compreender, no lhe posso revelar.
        - E as tonalidades da prxima estao? Ser que... Ramn Ferres meneou a cabea mais uma vez.
        - Isso  com o Conde. - Consultou o relgio, acrescentando. Vou lev-los de volta  recepo. Est quase na hora do almoo.
        Depois, voltando-se para Jssica, ele comentou:
        - Inicialmente o plano era de almoarmos juntos, mas, como lhe disse, pensvamos que a senhorita fosse um homem...
        - Adoraria poder almoar com vocs - Jssica disse com convico. - H muitos pontos que gostaria de esclarecer a respeito do processo de fabricao, tais
como os problemas que eventualmente vocs tm para manter a qualidade da l, por exemplo...  mas se no for possvel...
        Ao chegarem  recepo, uma elegante secretria morena conduziu Colin  sala do presidente, deixando Jssica com Ramn Ferres. Para sua surpresa, ele levou-a
at o carro, alegando que, apesar da fbrica ter um restaurante, iriam almoa fora.
        - Adotamos o mesmo esquema que os japoneses, ou seja, todos os funcionrios almoam juntos. Apesar da comida ser excelente, a atmosfera no  de forma alguma-
adequada para se tratar de assuntos srios. Por isso, vamos a um restaurante no muito distante daqui.
        - E o presidente? - Jssica perguntou curiosa, imaginando se Colin, com todo aquele seu vesturio imponente, iria se sentar para almoar com algumas centenas
de espanhis barulhentos.
        - Ele tem uma sala de refeies particular, que usa para receber seus visitantes.
        Ao entrarem no restaurante, o teto, extremamente alto, decorado com barris, chamou a ateno de Jssica. Ramn Ferres explicou a ela que ali havia sido o
escritrio de um exportador de vinho. Sob o solo havia um poro, que era a adega.
        - Quase toda casa em Sevilha tem poro.  um legado dos tempos dos mouros, uma espcie de lugar santo e de segurana.
        - E de priso tambm _ completou Jssica, estremecendo um pouco.
        - Tem razo, priso tambm - ele concordou. - A idia a apavora, no? So poucas as famlias importantes de Sevilha que no tiveram de recorrer aos seus
porres, por uma razo ou outra, em algum momento da histria.
        - Este lado da Espanha  fascinante - Jssica declarou, quando o garom lhes servia a gazpacho- -  uma verdadeira mistura do ocidente com o oriente.
        - Nem sempre com resultados muito felizes. - Ramn replicou. - O carter mouro  orgulhoso e sombrio. So invariavelmente convencidos de sua linhagem, e
alguns conseguem tra-la de volta at os tempos dos mouros. Claro que nem sempre foi assim. Houve poca, especialmente durante a Inquisio, que ter sangue mouro
era um verdadeiro atestado de bito.
        - Voc tem ascendentes mouros?
        - No, minha famlia veio do norte. O Conde sim. A famlia dele remonta aos tempos da corte de Pedro, o Terrvel. Contam que um ancestral do Conde raptou
a filha de seu arquiinimigo. Porm, na famlia corre a verso de que a jovem fora seduzida por um primo. Temendo a fria paterna, ela jogou a culpa nas costas do
inimigo de seu pai. O ancestral do Conde era homem orgulhoso. Preferiu casar com a moa, do que manchar seu bom nome.
        Conforme Ramn Ferres lhe contava o evento, Jssica ia formando uma viso mental do raptor, homem arrogante e orgulhoso, com uma centelha de dio e paixo
no olhar. Era a representao exata de Sebastin de Calvadores!
        Essa constatao a deixou exasperada. No sabia exatamente o que se passava com ela, mas tinha certeza de que precisava parar de pensar naquele homem. Estava
se comportando como uma verdadeira adolescente! O nico sentimento que poderia nutrir em relao a ele era desprezo. Entretanto, guardava consigo a frustrao de
no ter lhe contado a verdade, no momento em que ele a insultava. Quem sabe teria visto, em vez daquela expresso sombria e ameaadora, um sorriso no rosto dele...
Mas que lhe importava v-lo zangado ou sorridente? Felizmente nunca mais o encontraria...
        Ramn Ferres era uma companhia realmente agradvel. Embora provavelmente desaprovasse a presena feminina num mundo que considerava essencialmente masculino,
ele respondeu a todas as perguntas de Jssica com a maior delicadeza.
        - Muita coisa voc ter de perguntar diretamente ao Conde - declarou ele, quando as perguntas dela se tornaram de carter mais tcnico. - Infelizmente, no
posso ajud-la muito nesse sentido. Meu cargo  mais de relaes pblicas do que de especialista tcnico, compreende? O Conde  quem sabe realmente tudo sobre o
processo de fabricao.
        -  interessante que ele prprio se encarregue dessa parte.
        - Toda a organizao  fruto da cabea dele. A idia nasceu quando estava trabalhando na fazenda do padrinho, na Amrica do Sul. De l  que vem a l. A
sociedade acabou dando muito certo. Dizem at que o senor Cusuivas gostaria de estar mais prximo daqui. Ele tem uma filha que, julga, daria uma excelente esposa
para o Conde. Ah, desculpe-me - apressou-se em dizer. - No deveria ter lhe contado isso. O Conde...
        - No se preocupe. J esqueci o comentrio - Jssica assegurou, divertindo-se por ver uma pessoa to sria e compenetrada como Ramn Ferres perder a compostura
por um momento e fazer uma fofoca.
        - Vou deix-la aguardando aqui na recepo por uns minutos - desculpou-se, assim que chegaram de volta  fbrica. - O senor Weaver no deve demorar. Vou
deix-la aos cuidados de Constncia, pois tenho alguns negcios a tratar.
        Constncia era a secretria. Sorriu para Jssica e gentilmente lhe ofereceu um caf. A moa acabara de sair, quando a porta foi aberta, repentinamente.
        - Constncia...
         Jssica teve um sobressalto ao ver de quem se tratava e pensou que fosse perder a respirao. Ficou lvida e trmula.
        - Dios! - exclamou Sebastin de Calvadores cheio de indignao. - Teve a coragem de me perseguir at aqui?! Ser que no tem o menor escrpulo, a mnima
dignidade? Acho que lhe disse, senorita, que meu irmo no tem o menor interesse em voc. Ser que no fui bem claro?
        Pareceu tomar flego, antes de acrescentar:
        - E perca as esperanas, no vai encontr-lo aqui tambm. Ele est ausente da cidade; est visitando sua noiva, uma jovem de excelente famlia, que preferiria
morrer a se comportar como voc o fez.
        Era impressionante a maldade daquelas ltimas palavras. Jssica sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.
        - Mandou seu irmo afastar-se daqui apenas para que no pudesse... me ver? - perguntou esquentada.
        - Como poderia, se no sabia de sua vinda? Mas garanto-lhe que, se soubssemos, Jorge me agradeceria por poup-lo desse confronto desagradvel. O que esperava
com sua vinda? Faz-lo mudar de idia para proteger sua reputao com o nome dele... Com o nosso nome?
        Antes que Jssica pudesse replicar, a porta se abriu e apareceu Colin, alegrando-se visivelmente ao v-la.
        - Jssica, querida, j est de volta? - E voltando-se sorridente para Sebastin de Calvadores: - Conde, deixe-me lhe apresentar minha assistente, Jssica
James. Jssica, o Conde de Calvadores  o presidente da Calvortex!
        - Essa  a assistente a quem teceu to altos elogios? Jssica percebeu que, por um momento, Sebastin ficou completamente atnito. Conseguiu, entretanto,
se recuperar do choque da notcia antes que ela prpria.
        Se ele era o presidente da Calvortex, era dele que dependia o sucesso futuro das negociaes de Colin! Sentiu um aperto no corao. No via como essas negociaes
agora pudessem ser bem-sucedidas...
        - Sim, ela mesma - Colin concordou, feliz da vida, jamais imaginando o lado trgico daquela situao. - Sabe, Jssica, como o senor Ferres, o Conde tambm
pensou que voc fosse um homem.
        - Talvez por ser mulher, preferisse me ver bem longe do mundo dos negcios - falou, com secura. Pelo enrijecimento das feies do Conde era evidente que
ele havia entendido a observao.
        - Como no conseguimos discutir sobre tudo o que precisvamos, o Conde me convidou para jantar esta noite.
         Jssica sentia um aperto no peito cada vez maior. Esperava que, como homem de negcios, Sebastin de Calvadores tomasse sua deciso estritamente baseado
no carter comercial daquele relacionamento. No agentava pensar que o fato de ser assistente de Colin pudesse interferir nessa deciso.
        Constncia voltou trazendo-lhe uma xcara de caf. Jssica agradeceu, aliviada de poder desviar os olhos por alguns segundos do semblante furioso de Sebastin.
        Que coincidncia horrvel! Jamais poderia imaginar que o presidente da Calvortex e o arrogante irmo de Jorge fossem a mesma pessoa!
        - ... e Jssica tambm me  de muita ajuda porque fala vrias lnguas com fluncia.
        A mo de Jssica estremeceu segurando a xcara, ao se dar conta do que os dois homens falavam a seu respeito.
        - Muito oportuno - foi a resposta cnica de Sebastin. - Se no me engano, tambm me disse que  altamente qualificada em processamento e desenho txtil?
        - Sim... sim. Acho at que  uma espcie de primeiro amor. Mas, sabe como , na Inglaterra no temos nada comparvel  Calvortex...
        - Mudando de assunto, ho me disse que queria usar o telefone?
        - Gostaria, sim.
        - Se no se importa, minha secretria o acompanhar at a sala ao lado, de onde poder falar mais  vontade.
        Ao ver Colin se afastar com Constncia, Jssica teve mpetos de lhe implorar que no a deixasse sozinha com Sebastin de Calvadores.
        - Coincidncia muito estranha, no? - foi a primeira observao que ele fez, assim que ficaram sozinhos. - Passo a desconfiar ainda mais de suas intenes.
Naturalmente sabia, quando encontrou Jorge, da ligao dele com a Calvortex, e concluiu que poderia fisgar um homem rico. Coisa engraada voc no admitir que est
 procura de um homem para sustent-la, por causa dessa necessidade estpida de independncia. Deveria saber que para tornar a isca mais atraente para um espanhol
a mulher deve ser pura e inocente. , deve ser por isso que procurou um rapaz jovem como Jorge! Ele ainda  bastante ingnuo para achar um certo encanto na experincia
feminina... mas foi tolice de sua parte acreditar que ele se casaria com uma mulher como voc.
        Era demais estar novamente na frente daquele homem e sendo insultada. Sem se conter, Jssica desferiu um tapa no rosto dele. No mesmo instante, arrependeu-se,
mas a atitude impulsiva j tinha se materializado.
        Sebastin de Calvadores parecia chocado tambm. Passou a mo pelo rosto. Seus olhos estavam escuros de raiva. Jssica, apesar de procurar no demonstrar,
sentia-se aterrorizada.
        - Dios, ningum agride um Calvadores e escapa sem retribuio! - A respirao de Sebastin estava alterada e suas feies aristocrticas contritas.
        Rapidamente, ele se aproximou mais dela e a pegou, com toda fora, pelos pulsos. Jssica tentou se desvencilhar. As mos que a agarravam pelos pulsos, entretanto,
soltaram-na, para logo em seguida prend-la pelos ombros, puxando-a para frente e despertando nela sentimentos antagnicos, que no podia compreender.
        - Cristo! - A boca de Sebastin proferiu essa exclamao e no momento seguinte estava colada  sua, cheia de dio e desprezo, punindo-a com um beijo.
        Com o corpo to prximo ao de Sebastin era difcil para Jssica entender como aquele abrao, que s devia atorment-la, dava-lhe apenas conscincia do corpo
daquele homem e da poderosa atrao sexual que existia entre os dois.
        O palet e a camisa de seda eram meros traos de civilizao, mascarando a verdadeira natureza do homem que tinha, em cada milmetro de sua pele, a mesma
essncia conquistadora de seus ancestrais. No restava dvida que ele sentia enorme prazer de usar o prprio corpo para puni-la, forando-a, com arrogncia, a se
submeter a ele naquele contato.
        Contra sua vontade, os lbios de Jssica cederam e, trmulos, se entregaram quele beijo. Quase que instantaneamente Sebastin se afastou.
        - No sou meu irmo, senorita - disse-lhe mordaz. - O calor de seus lbios deixam-me completamente frio, especialmente sabendo que estou longe de ser o primeiro
a provar a doura deles.
        - Que hipcrita! - Jssica se afastou ainda mais dele. - Naturalmente espera que sua mulher seja pura como a neve quando se casar, mas garanto que o mesmo
no  vlido para voc!
        - Daria um violino Stradivarius ou um piano Bechstein a um mero principiante? - ele retrucou, cnico. - Mas tambm acho que no precisa se preocupar com
as virtudes da mulher com que virei a me casar. Definitivamente, ser diferente de voc como a gua do vinho. Assim como a garota com quem Jorge vai se casar.
         Jssica ficou lvida, ferida com aquela observao.
        - Quem garante que Jorge quer realmente se casar com essa moa? Quem garante que tudo no foi simplesmente idia sua? - estourou.
        - Jesus, Maria! - Sebastin levantou os olhos, como quem pedia pacincia aos cus... - O prprio Jorge lhe disse!
        - Talvez por insistncia sua. - Jssica no entendia por que sentia tanta necessidade de irritar aquele homem. - Talvez fosse melhor procurar por ele e conversar
pessoalmente...
        - Nunca! No vou permitir!
        O olhar implacvel que Sebastin lhe dirigiu fez com que um calafrio lhe percorresse a espinha. Embora no tivesse a menor inteno de dizer o que quer que
fosse a Jorge, sentia um desejo cada vez maior de provocar o arrogante Conde.
        - Nada poder me deter, se eu quiser.
        Os olhos dele estavam furiosos agora e sua tez havia empalidecido.
        - Est ousando me desafiar? - perguntou, controlando-se ao mximo. - Vejo que no  apenas leviana,  tola tambm! - sussurrou, entre dentes.
CAPTULO IV
        - Tem certeza de que ficar bem sozinha? - Colin lhe perguntou pela quarta vez.
        Jssica suspirou.
        - Est apenas saindo para um jantar, no vai me abandonar aqui para todo o sempre, Colin. Claro que vou ficar bem. O que, por Deus, poderia me acontecer?
        Colin saiu um pouco antes das oito e meia. Jssica recostou-se na cadeira do bar e procurou relaxar. Estava com os nervos  flor da pele desde que sara
da fbrica. Ficara indecisa se devia se confidenciar com Colin, ou evitar envolv-lo em assuntos particulares.
        No achava justo que Sebastin de Calvadores se recusasse a fechar contrato com Colin simplesmente por ela ser funcionria dele. Porm, ao se despedirem,
os olhos dele pareciam adverti-la que faria qualquer coisa para puni-la.
        De que meio melhor dispunha ele para castig-la do que pr em risco o contrato de Colin? Podia inclusive for-lo a demiti-la. Apesar de sua experincia
e qualificaes, seria muito difcil arrumar outro emprego do mesmo nvel.
        Subitamente, contra sua vontade, pegou-se lembrando do beijo de Sebastin. Sabia que estava longe de ser um beijo e um abrao apaixonados, pelo contrrio,
haviam sido um gesto de desdm e de punio. No lhe saa da cabea, porm, o vigor daquele corpo moldado ao seu.
        Ainda pensando em Sebastin foi para seu quarto, antes que Colin tivesse voltado. Fazia figa para que tudo tivesse dado certo. Ele estava to cheio de otimismo
ao sair, que voltaria arrasado se as coisas no tivessem corrido bem.
        - Ento, como foi a conversa ontem  noite?
        Colin levantou a cabea de sua xcara de caf. Jssica teve a impresso que evitava seu olhar ao responder.
        - Muito bem. O Conde pareceu bastante interessado em minhas propostas.
        - Concordou com elas, ento? - perguntou ansiosa e meio alarmada com a resposta evasiva.
        - Sim, num certo sentido. Mas imps algumas condies...
        - J era de se esperar, devido  reputao da companhia dele.
        - Jssica concordou, sentindo-se mais animada. - Que condies foram essas?
        Colin demorou para responder. Jssica pousou a xcara no pires e levantou os olhos para ele. Havia incerteza e dvida no olhar dele. Jssica sentiu o sangue
gelar nas veias. No mnimo, acontecera o que temia. Sebastin devia ter exigido que a dispensasse para poderem fechar o contrato!
        - Ele quer que voc me demita, no ? - perguntou, calmamente.
        - Olhe, eu...
        - No... no, Jssica, no  nada disso - ele lhe assegurou. - Pelo contrrio. Parece que a firma est tendo problemas com os desenhos para a prxima coleo
de tecidos.  o Conde mesmo que trabalha neles, com a ajuda de um outro desenhista, que acabou de perder para um concorrente. Como pode imaginar, ele est mais do
que ansioso para terminar esse servio e me pediu se concordaria que voc trabalhasse para ele at que os desenhos estivessem prontos.
        Essa era a ltima coisa que Jssica poderia imaginar. Por alguns minutos ficou espantada demais para poder falar.
        - Viu s? Voc foi muito radical em achar que ele no a aprovava - Colin censurou-a. - Ele ficou impressionadssimo quando lhe falei de suas qualidades.
Durante o jantar ele no parava de especular a seu respeito. Queria saber de todos os detalhes; onde havia estudado, h quanto tempo trabalhava para mim e uma poro
de outras coisas. Sinceramente, nem estava percebendo direito a razo de tanto interesse. Acho que o Ramn Ferres deve ter comentado com ele de como voc se interessa
e entende dos processos de fabricao. Assim, ele resolveu apelar para mim para resolver a situao crtica em que se encontra.
        - Mas certamente uma firma famosa como a Calvortex no teria dificuldade alguma de encontrar um desenhista no mercado.
         Jssica estava muito desconfiada das verdadeiras razes de Sebastin. O que estaria pretendendo? Era estranho que a quisesse por perto quando estava to
decidido a mant-la afastada do irmo.
        - Claro que eles no teriam dificuldade de encontrar algum - Colin concordou. - Mas parece que ele est relutante em pegar uma pessoa sem preparo, nesta
fase. Admitiu que para ele era prefervel ter um desenhista experiente, mesmo que numa base temporria. Alm disso, parece que tem um irmo que vai substituir o
desenhista que saiu, mas at que esteja treinado leva tempo. O caso agora  de urgncia.
        - , parece que sim.
        - Acho que  uma honra ele ter pensado em voc - argumentou Colin, com lgica. - Como voc sempre disse que adoraria trabalhar com desenho txtil, achei
que fosse gostar do convite.  apenas por algumas semanas e, naturalmente, seu emprego comigo est garantido. Alm disso, no podemos comear os desenhos para a
prxima estao sem saber ainda os tecidos que a Calvortex nos fornecer.
        - Seu contrato est dependendo dessa aceitao? - Apesar de no entender onde Sebastin estava querendo chegar ao fazer aquela proposta, no tinha dvidas
de que a ltima coisa que poderia pretender seria benefici-la.
        - Bem, ele no disse claramente, mas creio que se voc recusar... Colin no concluiu a sentena e nem precisava. Do pouco que conhecia do Conde, Jssica
sabia que ele seria capaz de todas as presses para conseguir seu objetivo. De seu lado, porm, apesar de toda sua paixo pela indstria txtil, no sentia o mnimo
desejo de trabalhar para aquele arrogante. Entretanto, se recusasse, a firma de Colin ficaria em pssima situao. O que deveria fazer? No era a primeira vez na
vida que desejava ardentemente ter algum com quem pudesse se aconselhar.
        - O que h de errado? - Colin perguntou, hesitante. - Pensei que fosse exultar com essa oportunidade.
        -  que a surpresa foi grande demais. Quanto tempo teria de ficar na Espanha?
        - No sei ao certo. Os detalhes teriam de ser discutidos com o Conde. Ele fez inicialmente uma mera consulta, se eu concordaria em emprest-la, numa base
temporria, e se voc estaria preparada para trabalhar na Calvortex. H um outro detalhe... - Colin fez um pouquinho de suspense. - Ele insinuou que poderia pagar-lhe
muitssimo bem.
        "Pagaria, sem dvida!", Jssica pensou, apertando as unhas nas palmas das mos.
        Ficou tentada, por um momento, a dizer a Colin o que aquele arrogante poderia fazer com seu emprego e seu dinheiro. O seu bom senso, porm, prevaleceu. Ficou
sensibilizada ao ver a expresso pattica no rosto dele. Sabia que o magoaria muito se recusasse, e ele no merecia isso.
        Tentou se animar dizendo a si mesma que era uma oportunidade de ouro. Apesar de ser uma experincia curta, valorizaria seu currculo, sem dvida.
        - Ento, vai aceitar? - perguntou Colin, ansioso.
        - Acho que no tenho opo - Jssica respondeu secamente.
        - Que bom! Vou telefonar agora mesmo para o Conde e lhe dar as boas novas. Sem dvida, ele vai querer conversar com voc para ultimar os acertos.
        - Sem dvida - respondeu Jssica, ironicamente, em eco. Imaginava que teria de enfrentar um Sebastin de Calvadores mais arrogante do que nunca, depois de
aceitar a sua proposta.
        Uma sementezinha de dvida comeou a germinar em seu esprito. No sabia que outras coisas ele poderia fazer, alm de tornar sua vida um inferno com palavras
insultuosas e olhares de desprezo. Ainda assim, receava. Trataria, porm, de mostrar a ele que era completamente superior a qualquer maltrato.
         Jssica acabara de entrar no chuveiro quando ouviu baterem  porta de seu quarto. Pensando tratar-se da camareira, colocou rapidamente um roupo e foi abrir
a porta.
        Consternada, deu de cara com Sebastin de Calvadores, que a olhava cinicamente.
        - Pensei que fosse o servio de quarto - gaguejou ela, sentindo-se corar feito uma adolescente. - Eu... o que quer?
        - Falar com voc. Naturalmente, Colin j deve t-la posto a par da minha sugesto?
        -  sobre isso que quer falar? Bem, Colin me disse que voc iria me telefonar... pelo menos...
        - Vai me convidar para entrar, ou vamos ficar discutindo na frente dos outros hspedes?
        Sem esperar pelo convite, Sebastin foi entrando. Passou por ela e fechou a porta.
        - Mas eu nem sequer estou vestida... - Jssica protestou, ficando vermelha at a raiz dos cabelos quando ele percorreu seu corpo com os olhos.
        - Manobra antiga essa, s que no funciona comigo. Sou imune s mulheres que usam o corpo para conseguir seus fins.
        - E ainda assim quer que eu trabalhe para voc? Podia jurar que eu seria a ltima pessoa que voc desejaria como funcionria.
        - s vezes, no temos escolha.
        Realmente ele era o homem mais arrogante e insuportvel que Jssica j conhecera. Se tivesse a mnima considerao por ela, poderia t-la encontrado no saguo,
ou pelo menos lhe daria a oportunidade de se vestir. Mas no restava dvida que sentia prazer em v-la numa situao embaraosa.
        - Ainda no consigo acreditar que esteja querendo que eu trabalhe para voc - Jssica comentou, sentindo-se mal pela maneira insistente como ele a encarava.
Sentia-se o prprio verme sendo examinado sob um microscpio.
        - Ora, deixe disso. Tenho certeza de que no preciso ficar adulando seu ego com elogios. Seu patro me garantiu que voc  uma desenhista de primeira classe.
Confio na opinio dele. Estou tremendamente necessitado de um bom desenhista, por isso procurarei ignorar certos aspectos de sua personalidade.  simples.
        - Realmente deve estar tremendamente necessitado para ameaar Colin de no fechar contrato com ele, em caso de uma negativa.
        - Como lhe disse, s vezes no temos escolha. J estou atrasado com o trabalho dos tecidos da prxima estao. Tivemos problemas com algumas tintas. Em primeiro
lugar, sou qumico e no desenhista. Concluso: para acertar a questo das tintas acabei atrasando o servio de desenho. Como qualquer outro fabricante, tenho prazos
para observar. Meu pedido a Colin foi meramente comercial. Ele entendeu, mas parece que voc no. Estou pronto para ajud-lo, se ele me ajudar. No h nada de extraordinrio
nisso.
        Aparentemente, no havia mesmo. Ainda assim, Jssica sentiu um certo mal-estar, como se alguma coisa estivesse sendo omitida.
        - E  por apenas umas poucas semanas que vai precisar de meu trabalho?
        - Dois meses, no mximo. O senor Weaver disse que pode dispens-la por esse tempo. O resto  com voc. - Sebastin deu de ombros. - Sei muito bem que jamais
me escolheria para patro. O senor Weaver certamente no conhece sua verdadeira personalidade. Se quer ajud-lo nos negcios,  mais prudente aceitar.
        Sebastin de Calvadores j havia admitido que precisava tremendamente de um desenhista. Ento por que a perturbava essa sensao de que havia mais alguma
coisa alm disso?
        - Voc... - comeou a dizer.
        - No tenho mais tempo a perder - interrompeu-a com sua arrogncia caracterstica. - Voc pode aceitar ou no, mas pense bem o que vai lhe custar no caso
de recusar.
        Apesar daquela proposta no ser nada justa, Jssica sabia que no lhe era deixada outra alternativa seno aceitar. Estremecendo um pouco, ajustou melhor
o roupo contra o corpo.
        - Eu... eu concordo - disse muito baixinho, sentindo-se revoltada por ver o brilho de triunfo no olhar de Sebastin.
        - Deciso sbia. Bem... se estiver preparada para partir de manh, venho busc-la, s nove, isso nos d tempo de...
        - Partir?
        - Ah, sim, ia esquecendo de lhe dizer - respondeu com ar caosta. - Pretendo passar os dois prximos meses trabalhando em minha fazenda. Tenho alguns compromissos
por l. Alm disso, a paz e a calma do campo so mais adequados para o trabalho de desenho do que a fbrica.  na fazenda que esto meus laboratrios, onde so feitos
os experimentos com as tintas.
        - No vou com voc para fazenda alguma.
        - Ora, pois acho que vai - retrucou ele, em tom aveludado. - H menos de cinco minutos voc disse que estava disposta a trabalhar para mim! Acho que o simples
fato de saber que vai ser hspede de minha famlia na fazenda em vez de morar sozinha num hotel no  razo suficiente para mudar de idia. No esquea de Colin
- falou ameaador. - Pense em seu futuro, assim como estou pensando no de meu irmo.
        - Em Jorge? - Jssica estava intrigada. - O que ele tem a ver com isso?
        - Tudo. - Sebastin no poderia ser mais sucinto. - Acha mesmo que eu permitiria que ficasse em Sevilha para dar em cima de meu irmo e acabar espalhando
rumores sobre o relacionamento de vocs? Rumores que poderiam chegar aos ouvidos da noiva dele, numa sociedade fechada e inflexvel como Sevilha? O pai de Brbara
jamais consentiria no casamento deles se soubesse da relao de vocs.
        - Acho que a opinio de Brbara  que deveria importar, e, alm disso, no tenho inteno alguma de permanecer na Espanha.
        - Agora voc me diz isso, mas no pode negar que veio com o firme propsito de ver meu irmo, apesar de ele j lhe ter escrito, pondo um fim no caso de vocs
dois. Sabe, mesmo que voc jurasse que jamais procuraria Jorge novamente, eu no acreditaria em voc. S h um meio de parar essa sua interferncia em nossa vida.
        - Qual ser? - Jssica estava irritadssima com aquele homem. Era mesmo insuportvel. - Ser que pelo fato de eu estar trabalhando para voc faria com que
ningum acreditasse que um Calvadores se rebaixaria a ponto de se envolver com uma assalariada?
        O sarcasmo de Jssica fez com que Sebastin perdesse sua arrogncia por alguns instantes.
        - De jeito nenhum - respondeu ele, finalmente. - O que pensariam  que Jorge jamais se atreveria a se envolver com minha amante.
        - Sua... Quer dizer que deixaria as pessoas pensarem que eu sou sua amante? Mas isso  infame! No se atreva!
        A expresso de Sebastin era agora muito zangada. Jssica no tirava os olhos dele. Seu corao batia acelerado.
        - Pensei que j tivesse aprendido a no me desafiar - ele disse, procurando controlar a voz.
        "Isto tudo  um absurdo!", pensou Jssica.
        Era como se estivesse vivendo um drama da poca da Restaurao! Primeiro ele a acusava de ser amante do irmo, depois dizia que deixaria todos pensarem que
ela era amante dele prprio!
        -  exagero de sua parte - argumentou ela, com convico. - S porque estou trabalhando para voc iriam pensar que sou sua amante?
        - Claro que no, se estivssemos trabalhando na fbrica. Mas trabalharemos juntos na minha casa e vou providenciar para que nosso relacionamento no tenha
apenas a aparncia de empregador e empregada.
        - Que coisa ridcula!
        - Talvez para voc. O nome dos Calvadores significa muito para mim e no vou consentir. que seja jogado na lama, simplesmente porque uma mulherzinha gananciosa
como voc tentou fazer chantagem para forar meu irmo ao casamento.
        Essas palavras tiveram o poder de enfurecer Jssica. A injustia que continham era grande demais para ela silenciar.
        - Se espera me impedir obrigando-me a ir para sua fazenda, vai ter uma grande decepo - anunciou friamente. - No h nada, ningum, nem sequer fora fsica,
que v me obrigar a ir.
        - Voc j concordou em trabalhar para mim de livre e espontnea vontade. - Sebastin retrucou em tom glacial. - Se no...
        - J sei, Colin perder o contrato...
        - Sem dvida, quando lhe explicar as razes de sua recusa, ele vai entender - ameaou ele, com ar irnico.
         Jssica esmoreceu um pouco. No podia explicar a Colin o motivo de ter recusado. Caso contrrio, iria expor Isabel a um vexame e permitir que o caso dela
com Jorge chegasse aos ouvidos de John.
        Agora tudo estava complicado demais. Mas uma coisa era certa: no podia contar a verdade a Colin. Que alternativas ento lhe sobravam? Ou aceitava aquela
proposta suja e todas as suas conseqncias, ou a recusava e colocava em risco os negcios de Colin, e o casamento de Isabel.
        Intimamente Jssica sabia no ter escolha, mas ficava indignada por estar sendo envolvida com tticas to ultrajantes.
        - Vou com voc - concordou, finalmente, com a maior frieza. - Mas no tente insinuar a ningum que temos algo alm de um relacionamento profissional, caso
contrrio serei obrigada a contradiz-lo.
        - No  necessrio insinuar. - Mais uma vez o tom de Sebastin era caosta. - H maneiras muito mais convincentes de demonstrar. Como esta, por exemplo.
        Antes que Jssica pudesse evitar, Sebastin, puxou-a contra seu corpo, abraando-a com fora. Ela conseguiu at sentir as batidas do corao dele, muito
mais tranqilo do que o seu, que parecia querer saltar-lhe pela garganta. Levantou a cabea corada, encarando-o. Apesar do inesperado da situao, no pde deixar
de se envolver com o aroma msculo da colnia que ele usava.
        - Solte-me! - exclamou com um misto de raiva e dor. Pelo sorriso sarcstico de Sebastin, pressentiu que ele no atenderia seu pedido.
        - Voc est trmula.
        Havia surpresa e prazer naquela afirmao. Com a mo livre, ele puxou para o lado a gola do roupo que ela usava, deixando  mostra a nudez plida de seu
colo.
        - Ser que Jorge lhe disse como os latinos admiram peles alvas e macias? A sua  translcida como uma prola.
        Com delicadeza, os dedos dele acariciaram-lhe o pescoo, fazendo-a sentir um frio no estmago.
        "Deus, o que esse homem est tentando fazer comigo?", Jssica se perguntou, alarmada. Naturalmente j fora acariciada antes, mas nunca com tamanha sensualidade.
        - Dios! - ouviu-o dizer, fazendo eco aos seus prprios pensamentos. - Parece que voc nunca foi tocada por nenhum outro homem! Mas ambos sabemos que isso
no  verdade, no , senorita!
        Depois, inesperadamente, os lbios de Sebastin roaram-lhe a pele, num erotismo que a fazia estremecer de prazer. Esquecendo de tudo o mais, Jssica no
se importou que seu corpo se amoldasse ao dele, deixando a cabea cada para trs para que ele pudesse beij-la livremente. Esse gesto fez com que seu roupo acabasse
se abrindo, revelando a curva bem-feita de seus seios.
        - Parecem de mrmore - Sebastin murmurou fascinado, fazendo um crculo com os dedos em volta de seus mamilos. - Ao contrrio do mrmore, minha cara, sua
pele se aquece ao meu toque. - Levando em seguida a mo aos cabelos dela, perguntou-lhe num tom selvagem:
        - Me diga agora, se algum nos visse assim no iria imediatamente pensar que somos amantes?
         Jssica estremeceu novamente, odiando-se por ceder to facilmente ao clamor daquele corpo.  Ele continuou, insinuante:
        - Talvez precise de um pouco mais de persuaso.
        Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha, enrijecendo o corpo quando Sebastin lhe pegou o queixo, levantou-o e colou os lbios nos dela. Mesmo sabendo
que era uma maneira de castig-la, no momento em que as bocas se encontraram, sedentas, uma fora vital surgiu dentro dela.
        Sebastin abriu seu roupo e se ps a acariciar-lhe os seios. A reao de Jssica foi quase incontrolvel. Ela se afastou abruptamente, livrando-se daquele
abrao. Ele examinou cinicamente seu rosto corado e seus olhos furiosos.
        - O que h de errado? - perguntou, com ar inocente. - Tenho certeza de que no tomei nenhuma liberdade que os outros j no tenham tomado!
        Na verdade ele estava enganado, mas Jssica jamais admitiria.
        - Quando a gente consente  diferente - ela retrucou, secamente.
        - E esse consentimento eu no lhe dei.
        Agora, nem por amor a Colin ela concordaria em trabalhar para aquele homem. No teria um minuto de paz. No poderia relaxar nunca...
        - No me diga que no vai querer trabalhar para mim por causa disso? Est se comportando com uma virgenzinha ultrajada, o que no  necessrio. No precisa
pensar que corre o mnimo risco comigo. Se ainda no deixei bem claro, deixo agora: no estou absolutamente interessado nas sobras deixadas por outros homens - disse
cheio de veneno. - No importa se apenas um ou uma centena. Est to segura comigo como estaria num convento. No confunda um mero aviso com qualquer desejo por
voc. Na verdade, foi apenas isso: um aviso.
        Sem esperar resposta, acrescentou: - Voc vai comigo, garanto. Esteja pronta amanh s nove.
        Sentada ao lado de suas malas,  espera de Sebastin de Calvadores, Jssica se recriminava. Seguramente, se tivesse o menor amor-prprio, estaria agora num
avio a caminho de sua casa.
        Eram oito e meia. Colin j havia ido para o aeroporto, depois de se despedir de Jssica, mostrando-se agradecido. Tinham conversado muito na noite anterior
e, vrias vezes, ela tentou lhe dizer que simplesmente no poderia trabalhar para Sebastin de Calvadores, mas no teve coragem.
        Assustou-se com a batida na porta do quarto. Era o carregador que viera apanhar suas malas. Com os nervos tensos, Jssica o seguiu at o elevador.
        Na tentativa de se acalmar um pouco, foi tomar um caf, mas sentia-se enjoada e no conseguiu ingerir o lquido.
        Atormentava-se em pensar que poderia ter ido embora com Colin. Se tivesse lhe explicado, certamente ele teria compreendido. Mas no podia desapont-lo. Sabia
que destruiria todos os sonhos de sua vinda  Espanha. Entretanto, se mesmo assim tivesse lhe dito, no estaria ali agora, esperando... Seu corao teve um sobressalto
ao ver a figura alta e familiar de Sebastin encaminhando-se para ela.
        - Vamos!
        Pela primeira vez o via numa roupa esporte. Sentiu um n na garganta e lembrou a sensao que tivera ao ser acariciada por ele. De repente deu-se conta de
que estava extremamente nervosa. O que sabia a respeito daquele homem, alm de que dava um valor obsessivo ao bom nome de sua famlia? Nada!
        -  bom parar de me olhar como se eu tivesse duas cabeas! Asseguro que pode ficar tranqila, desde que se comporte direito.
        - E se no me comportar? - Novamente aquela vontade de provoc-lo. - Vai me "castigar" como fez ontem, impondo-me seu corpo?
        - Cuidado, senorita. No me provoque muito seno vou achar que gostou do "castigo".
         Jssica o fulminou com o olhar. Aquele homem era petulante mesmo. Como ousara sugerir que ela queria ser tocada novamente por ele?
        - Est muito enganado e  muito petulante! - esbravejou. Por um momento Jssica pensou que o desconcertara. Um brilho de surpresa passou pelos olhos dele
por um breve instante. Em seguida, ele a conduziu silenciosamente atravs do saguo at seu reluzente Mercedes. Um porteiro levou a bagagem at o carro.
         Jssica contemplou o automvel e estremeceu. No momento em que estivesse dentro dele, no haveria caminho de volta, no poderia mais mudar de idia. Hesitou
ligeiramente entre o desejo de fugir dali a qualquer custo e o sentimento de dever para com Colin.
        - No pense em fazer isso - uma voz melosa sussurrou ao seu ouvido. - Para onde iria? Vamos! - exclamou Sebastin. - Entre no carro e pare de me olhar como
se eu fosse um bandido. Garanto que sou completamente inofensivo quando me tratam com respeito.
s cegas, Jssica procurou abrir a porta traseira. Para sua surpresa, porm, ele lhe indicou a porta da frente.
        - Qual o problema? - perguntou, angustiada, quando entrou no carro. - No est com medo que eu fuja, est?
        - No se esquea que se, supostamente, somos amantes voc jamais iria sentada sozinha no banco traseiro.
        - Ah,  verdade - Jssica concordou irnica. - Mas se bem me recordo desse costume espanhol, esse  um privilgio oferecido apenas s esposas!
        Sebastin guiou por vrios quilmetros em silncio. Os nervos de Jssica ficavam tensos sempre que ele se voltava para ela, encarando-a. De vez em quando
ela o olhava de soslaio e enrubescia quando seus olhares se encontravam.
        - J lhe disse que no precisa ter nenhum temor de natureza sexual em relao a mim - Sebastin lhe disse bruscamente.
        - E no tenho. - Jssica ficou surpresa de perceber a maneira zangada com que fizera essa afirmao.
        - Ser que no? Est agarrada ao banco como se esperasse a qualquer minuto um ataque  sua pureza. Ou ser que  uma atitude de efeito? Se for, no vai funcionar.
Mesmo que no tivesse sabido tudo a seu respeito por Jorge, jamais poderia acreditar que uma inglesa na casa dos vinte anos ainda conservasse essa inocncia virginal
que est tentando representar.
        - Por que no? Esse comentrio  to leviano como garantir que todas as jovens espanholas, sem exceo, chegam virgens ao casamento!
        - No quero discutir sobre isso - cortou ele, secamente. - Mas aconselho-a a no ficar testando muito minha pacincia fazendo-se passar por algum com uma
personalidade que, ambos sabemos, no  a sua!
         Jssica nem desconfiava quanto tempo demorariam ainda para chegar  fazenda, mas, quando passava das onze horas e ela se viu cercada pela imensido do campo,
deu-se conta de como seria difcil sair de l se quisesse.
        - No estamos muito longe agora - informou Sebastin. - Temos talvez mais uma hora de percurso.
        - Como consegue trabalhar to longe da fbrica?
        - Existem facilidades, como o telefone. A fazenda pertence  minha famlia h muitas geraes. Ainda plantamos as uvas com as quais so feitos os mais finos
vinhos locais. Atualmente nossas vinhas no so mais as nicas na regio, como voc pode ver.
         Jssica j havia percebido os numerosos campos com videiras.
        Por orgulho, evitou de ficar fazendo muitas perguntas. Alm disso, sentia uma incmoda nusea por no ter tomado o caf da manh. Estava, de fato, sentindo-se
extremamente fraca. Porm, procurou demonstrar interesse e ateno quando Sebastin lhe falou sobre as plantaes e a arte de fazer vinho.
        Era exatamente meio-dia quando deixaram a estrada principal, levantando uma nuvem de poeira ao entrarem numa estrada de terra. Campos de videiras cobriam
o solo dos dois lados at se perderem de vista. Somente quando o carro fez uma curva mais adiante, Jssica pde ter uma rpida viso da fazenda.
        Por um motivo qualquer, esperava uma casa simples, no estilo tradicional das casas de fazenda. Por isso, mal conteve uma exclamao de espanto ao ver um
conjunto de construes em estilo mourisco, muito brancas e com as cpulas brilhando sob a luz do sol, como se tivessem sido transportadas num tapete mgico da antiga
Bagd.
        - O prdio principal foi construdo muitos sculos atrs por um de meus ancestrais. A terra lhe foi dada como parte do dote da esposa e nela foi construda
a primeira casa. Desde ento cada gerao tem construdo novos prdios, sempre conservando o estilo mourisco.  claro que houve pocas, como durante a Inquisio,
que no era aconselhvel admitir ter sangue mouro, alis, era mais prudente neg-lo.
         Jssica olhou para ele com ar pensativo e concluiu que, definitivamente, Sebastin no era do tipo que negaria a sua prpria origem.
        Ele estacionou o carro num ptio em arco, ao lado da casa, e foi abrir a porta. Jssica percebeu o movimento de pessoas dentro da casa, que logo vieram ao
encontro deles.
        Sentiu uma tontura sbita e procurou se apoiar no objeto mais prximo, que era para seu desprazer o brao de Sebastin. Inesperadamente, ele inclinou a cabea,
beijando-a na boca.
        O tempo pareceu parar por um minuto. As emoes mais incrveis se apossaram dela. No entendia como podia desejar ficar ali, entregue quele beijo, com um
homem que considerava abominvel.
        No momento seguinte, livre do beijo mas ainda zonza, ouviu Sebastin dizendo calmamente:
        - Ah, tia Sofia, deixe-me apresent-la a Jssica.
        E Jssica sentiu-se examinada por um par de olhos escuros muito pensativos.
        - Chegou na hora certa. - Foi tudo o que a tia comentou. Depois, dirigindo-se a Sebastin:
        - A pequena estava to excitada que aconselhei-a a deitar um pouco.  sempre a mesma coisa quando sabe que voc vem.
        - Titia est se referindo  minha... pupila - explicou olhando para Jssica. - Ela mora aqui na fazenda e vai continuar morando at ter idade para ir  escola.
- A mo dele pousou de leve no brao de Jssica.
        - Mandei preparar os quartos de Rosalinda para sua convidada - disse Sofia, hesitante.
        Sempre parecendo gentil, Sebastin explicou a Jssica:
        - Rosalinda foi a primeira noiva dos Calvadores a ocupar a fazenda. Os quartos dela ficam numa das torres, bem isolados do resto da casa. Tm um ptio e
escada de acesso privativos.
        O rosto de Jssica ardeu ao entender a insinuao contida naquelas palavras. Com o canto dos olhos, pde perceber a expresso do rosto da tia tornar-se mais
sria. No havia dvida que ela pensava que fossem amantes.
        Amantes! Seu corao se apertou s imagens que aquela palavra evocava. S que os dois no eram amantes e nunca o seriam. Por duas razes muito simples: Sebastin
no sentia mais do que um imenso desprezo por Jssica, enquanto que ela, evidentemente, o detestava.
        Por um momento voltou-lhe  mente as incrveis emoes que tivera quando ele a beijara. Porm logo procurou banir da cabea aquela idia traioeira. Como
poderia haver prazer num beijo que fora dado com a inteno de puni-la? Naturalmente, s podia lamentar e ressentir-se com aquele beijo...
        CAPTULO V
        Para alvio de Jssica, tia Sofia foi quem lhe mostrou a torre de Rosalinda. Chegaram at l por uma escada estreita em espiral. Nas paredes se viam afrescos
e decoraes em estilo rabe.
        No topo da escada, a mulher abriu uma porta e fez um gesto para que Jssica a precedesse. Ela no pde deixar de soltar uma exclamao de prazer ao ver a
parte interior do aposento. Era enorme e numa forma octogonal. Uma porta em arco levava para outro cmodo. A vista das janelas medievais era qualquer coisa de impressionante.
Jssica estava boquiaberta, com tanta beleza.
        - Este  o cmodo mais alto da casa - explicou Sofia de Calvadores. - Ultimamente no tem sido usado, pois  muito pouco prtico para um casal e no temos
tido filhas na casa para us-lo, como era o costume no passado.
        -  maravilhoso - Jssica murmurou num tom reverente, olhando  sua volta. As paredes eram forradas por um tecido sedoso, cor de pssego, combinando com
os tapetes sobre o assoalho de madeira. O cmodo em que se encontravam era uma espcie de pequena sala de visita.
        Nas paredes em forma octogonal haviam sido adaptadas estantes de livros. Sob a janela, enorme, um confortvel sof. Jssica chegou at a imaginar uma graciosa
jovem espanhola sentada ali, talvez tocando seu bandolim e olhando perdidamente pela janela,  espera de que o marido voltasse para casa.
        Tia Sofia abriu a porta de comunicao para lhe mostrar o quarto de dormir, tambm decorado em cor de pssego. Sobre a enorme cama antiga, uma colcha riqussima.
        - O banheiro fica daquele lado - disse-lhe Sofia, indicando uma porta na parede lateral. - No precisa se preocupar, pois ele dispe de encanamentos modernos.
        Em seguida acrescentou, com um tom formal:
        - Vou deix-la agora. Maria vir ajud-la a desfazer as malas. Normalmente almoamos s treze horas.
        Sem perder tempo, Jssica foi ao banheiro. Suspirou de prazer ao ver a banheira de mrmore e as paredes cobertas por espelhos, numa tonalidade ligeiramente
esverdeada por causa da malaquita. De qualquer lado que se virasse, podia ver a prpria imagem.
        Lavou-se rapidamente, depois foi mudar de roupa. Escolheu uma saia de linho amarelo-ouro e uma delicada blusa bordada, de mangas curtas, branca. Ocorreu-lhe
que, se fosse ficar ali pelo tempo combinado, teria de escrever  tia, pedindo para lhe mandar mais roupas.
        Depois de fazer uma maquilagem leve e escovar os cabelos, atravessou o quarto em direo s escadas. Sentia um friozinho na boca do estmago e uma sensao
de expectativa.
        O que quer que tia Sofia pensasse da presena de Jssica naquela casa, j deixara claro, no incio, que ela era uma mulher espanhola  antiga, considerando
lei a vontade dos membros masculinos da famlia. Cumprimentou amavelmente Jssica assim que esta terminou de descer as escadas e disse que estava  sua espera para
mostrar-lhe o restante da casa.
         Jssica a seguiu at a sala principal, guarnecida com porcelanas antigas. No cho, um valiosssimo tapete Aubusson. Das janelas podia se ver o jardim, inmeros
canteiros de flores, com uma convidativa piscina e um terrao.
        - Este  o jardim principal - disse-lhe Sofia de Calvadores. - Como vai ver, h vrios outros, pois os Calvadores so antes de mais nada uma famlia moura
e, durante sculos, as diferentes alas da famlia eram completamente separadas. Quando uma casa  compartilhada por vrias geraes, a privacidade  de suma importncia.
        - E esta sala?
        - Esta sala e o jardim sempre foram considerados lugares de reunio e confraternizao. Os jardins menores, no; eram privativos dos vrios membros da famlia.
        - Como a torre que pertencia a Rosalinda - concluiu Jssica.
        - Deve ser fascinante poder fazer um levantamento da histria da famlia desde tantas geraes passadas - comentou, com sinceridade, lembrando-se, de repente,
da histria que Ramn Ferres contara sobre a noiva raptada.
        - s vezes no  to bom assim que todo mundo esteja a par de todos os segredos dela.
        - O primeiro dos Calvadores foi um dos cavalheiros de Pedro, o Terrvel, no foi?
        - Ah, ento tambm j ouviu essa histria. - Sofia sorriu. -  isso mesmo. Ele se casou com a filha de um cavalheiro cristo, Rosalinda, e para ela a torre
foi construda.
         Jssica desejava fazer mais perguntas, porm procurou se controlar, para no demonstrar uma curiosidade demasiada.
        - Aqui esto elas! - soou uma vozinha infantil do fundo sala.
        - Tio Sebastin me mandou procurar vocs.
        - Lisa! - repreendeu a senora Calvadores. - Por favor, lembre-se que temos visita. - A expresso do rosto dela suavizou-se ao se voltar para Jssica e explicar-lhe
em ingls: - Ela  meio estabanada s vezes e fica muito excitada sempre que Sebastin vem. - Em seguida voltou a falar para a garotinha: - Lisa, venha conhecer
a srta. James, que vai trabalhar com tio Sebastin.
        Uma criaturinha morena, com expressivos olhos castanhos, aproximou-se e, respeitosamente, ofereceu a mo a Jssica. Estava imaculadamente trajada de branco:
o vestido impecvel, as fitas que prendiam seus cabelos, as meias e um par de sapatinhos de verniz.
        Ficou olhando para Jssica com expresso ansiosa e depois, sem conseguir se conter mais, perguntou de sopeto:
        - O tio Sebastin no vai ficar trabalhando o tempo todo, vai?
        - De jeito nenhum. - A voz de Sebastin, que entrara silenciosamente, surpreendeu Jssica. - Voc demorou tanto, pequena, que vim ver o que estava acontecendo.
        - Ento, se no vai trabalhar o tempo todo, podemos fazer um passeio a cavalo esta tarde? - Lisa sugeriu toda coquete. - Por favor, tio Sebastin! Ningum
me deixa correr tanto quanto o senhor.
        - Depois do almoo resolveremos. Primeiro sua tia tem de me contar se voc se comportou direito na minha ausncia.
        A criana correu ao encontro dele, pendurando-se em seu brao e jurando que tinha se comportado bem. Jssica ficou chocada ao perceber a necessidade da garota
de agradar quele homem.
        - Sebastin a mima muito - queixou-se Sofia de Calvadores, quando ambas comearam a seguir os dois que iam  frente. - Mas dadas as circunstncias  compreensvel.
Ela  o retrato da me e... - Ela interrompeu o que dizia como se j tivesse falado demais.
        Chamou a ateno de Jssica para uma das portas.
        - Aqui  o estdio de Sebastin. - Abriu a porta para que Jssica pudesse dar uma rpida olhada. - Naturalmente ele mesmo vai lhe mostrar com calma, mais
tarde.
        A sala de jantar era enorme e suntuosa. Jssica no imaginava como a vida nas grandes casas espanholas ainda pudesse ser to formal.
        - Primeiro um aperitivo - props Sebastin, colocando um pouco de vinho em pequenos clices e servindo primeiro a sua tia e depois o Jssica. -  feito de
nossas uvas.
         Jssica bebericou, hesitante, um pouco do lquido branco. Ainda no pudera comer nada at aquela hora e j comeava a sentir os efeitos do jejum. A ltima
coisa que desejava era um clice de vinho, mas para no ser indelicada acabou aceitando a bebida. Pretendia, entretanto, tomar apenas alguns goles, mas Sebastin
estranhou:
        - Talvez no seja do seu agrado?
        Para no desagrad-lo, bebeu, nervosamente, tudo de uma vez. Porm, logo desejou no t-lo feito, pois sua cabea comeou a girar.
        Tudo ainda rodava quando Sebastin sugeriu que passassem  mesa. Caminhou hesitante em direo ao lugar que um empregado lhe indicava. Estava apavorada com
os efeitos do vinho. Parecia muito mais forte do que qualquer bebida que j tivesse tomado.
        - Jssica! - A voz de Sebastin interrompeu seu pensamento.
        - Eu... est... me desculpem... - Procurou se agarrar  primeira coisa prxima a ela, que foi o brao de Sebastin. Tudo girava terrivelmente. Ouviu-o soltar
uma exclamao preocupado. Em seguida, sua viso comeou a clarear novamente. - Foi o vinho... - procurou se desculpar. - No tomei o caf da manh e...
        -  realmente muito forte para quem no est habituado - concordou tia Sofia. - Sebastin, a culpa  sua de ter insistido para que ela bebesse. Logo vai
se sentir melhor, minha querida.
         Jssica corava de pensar na pssima impresso que estava causando. Soltou o brao de Sebastin, como se estivesse segurando num ferro em brasas. Apesar
de seu mal-estar, pde notar o olhar irnico dele, que abaixou a cabea e disse baixinho:
        - Voc se agarrou em mim como uma pomba se agarra no galho que lhe d proteo, mas seu ar indefeso no me engana. Jorge me falou dos churrascos loucos que
vocs fizeram na praia, quando a ordem do dia era beber sangria pura. Por isso no espere que eu acredite que um simples clice de vinho cause esse efeito calamitoso!
        Que patife! Que outros motivos poderia ter para se agarrar a ele, como estava insinuando?
        Como se adivinhasse os pensamentos dela, ele acrescentou:
        - Se tem alguma segunda inteno, imaginando que qualquer homem, em sua cama  melhor que nenhum, peo-lhe que no me escale para esse papel. Como j lhe
disse, sou muito exigente em relao a quem compartilha comigo os prazeres do ato do amor.
        - Tio Sebastin, o que est dizendo  senorita James? - Lisa se intrometeu curiosa. - Ela est to vermelha e engraada!
        Tia Sofia imediatamente pegou a criana. Jssica sentou-se. Estava embaraadssima de imaginar o que a senhora Calvadores podia estar pensando dela. Ou talvez
j estivesse habituada aos hbitos do sobrinho. Ser que sempre levava mulheres para casa? Todos deviam estar pensando que fossem amantes. Sebastin sabia que ia
acontecer isso. Mas como poderia ela agir para mudar essa impresso? Simplesmente falando claro. Como? Era impossvel.
        Depois do almoo, Sebastin a convidou para ir ver o laboratrio.
        - Tambm posso ir, tio? - Lisa pediu. - Prometo me comportar.
        - Voc tem alguma objeo? - perguntou ele, dirigindo-se a Jssica.
        - De forma alguma.
        Na verdade, estava at contente de contar com a companhia da menina. A tagarelice dela quebrava a atmosfera carregada que pairava entre os dois.
        O laboratrio localizava-se nos fundos da fazenda, onde antigamente havia um estbulo enorme. Jssica notou que a porta estava bem trancada. Conforme a abria,
Sebastin disse-lhe que, por causa das tintas e dos processos, ningum mais tinha permisso de entrar ali.
        - Estamos trabalhando no momento numa nova gama de tintas, quase que inteiramente feitas de substncias naturais. Ainda temos, porm, alguns problemas com
o agente estabilizador, apesar de que no vai demorar muito para que o solucionemos.
        - Vocs so a nica companhia que conheo que usa apenas tintas naturais. - Jssica comentou. -  bem raro, no? Vai ver que  por isso que ningum consegue
obter cores to delicadas.
        - Exatamente - Sebastin concordou, sem modstia. -  por isso que a mistura exata e a estabilizao dos vrios componentes so guardados como segredos.
Sou a nica pessoa na companhia que conhece todas as frmulas. Isso  imprescindvel.
         Jssica bem podia entender a razo. A delicadeza e originalidade das cores era a razo do sucesso dos tecidos da companhia.
        O laboratrio era muito bem equipado. Ela acompanhou com interesse a descrio do trabalho que Sebastin estava desenvolvendo, apesar de estar mais interessada
no desenho dos tecidos do que em seu tingimento.
        Encaminharam-se para os fundos, onde havia um escritrio. Sebastin destrancou uma das gavetas do arquivo e tirou alguns desenhos e amostras de tecido, entregando-as
a ela.
        - Estas so as cores que esperamos fabricar para a prxima estao. Como sabe, o Conselho de Cores geralmente decide com dois ou trs anos de antecedncia
as cores a serem usadas em determinada estao. Estas foram as cores sugeridas na ltima reunio do conselho. Temos agora de adapt-las aos desenhos dos tecidos.
Gostaria que voc inicialmente trabalhasse com elas e me desse algumas sugestes.
         Jssica concordou com a cabea. Contra sua vontade, sentia-se eufrica e fascinada pelo trabalho que ele lhe encarregava de fazer. Vibrava com as cores
de outono que Sebastin lhe mostrara: preto, petrleo, cinza, malva e azul-turquesa.
        - Pode usar este escritrio ou a sala de estar da torre, se preferir - Sebastin lhe disse casualmente, olhando para baixo, pois Lisa puxava-o impaciente
pela mo.
        - O senor prometeu que amos andar a cavalo - lembrou ela.
        - Est se esquecendo de que temos visita - Sebastin replicou enrgico. - No seria mais educado perguntar se a senorita James gostaria de nos acompanhar?
        Como outras crianas latinas, as espanholas eram mimadas e tratadas com pacincia, mas boas maneiras eram fundamentais. Hesitante, Lisa fez o convite e mal
conseguiu conter um sorriso de satisfao diante da recusa de Jssica.
        - Vou levar essas amostras comigo para a torre - falou, dirigindo-se a Sebastin. Depois, voltando-se para Lisa: - Divirta-se.
         Jssica no foi diretamente para a torre. Preferiu procurar o caminho para o jardim que avistara da janela de seu quarto. Jacarands floresciam junto s
paredes, misturando-se a uma delicada florzinha trepadeira.  beira da piscina, dois pssaros emitiam sons melodiosos. Aquele recanto do jardim possua um ar misterioso,
como se tivesse sido feito para a luz do luar e o sussurro de apaixonados, e no para o sol e canto de passarinhos. Quantas vezes teria Rosalinda estado ali com
seu amante?
        Ao voltar para casa, encontrou a tia de Sebastin no hall.
        - Lisa e Sebastin foram andar a cavalo. Ela  uma graa, Jssica falou, com espontaneidade.
        - Quando quer - retrucou Sofia de Calvadores. - Sebastin a estraga com mimos, o que  natural, eu creio. Ele  tudo o que ela tem.
        - Os pais morreram? - Jssica perguntou, comovida, imaginando ter visto uma ligeira hesitao por parte de tia Sofia.
        - Sim...  sim. Ela  pupila de Sebastin. Vai ser difcil para a menina se Sebastin se casar e tiver filhos.
        - Ah, mas na certa a esposa vai compreender e aceitar a garota. - A senora Sofia sorriu.
        - Esperamos que sim. Vai depender muito da mulher.  claro que ele precisa se casar, para continuar o nome da famlia. Foi noivo uma vez, mas a noiva morreu...
num trgico acidente de carro. - Suspirou, mexendo a cabea. - Faz muito tempo j.  melhor esquecer.
        Somente no fim da tarde Lisa e Sebastin voltaram para a fazenda.
         Jssica passou a tarde trabalhando na sala de visitas da torre. Uma empregada bateu  porta e avisou-a de que era costume das senhoras da casa se reunirem
 tardinha para tomar cherry e comer torta de amndoas. A senora Calvadores estava esperando por ela no jardim.
         Jssica no se dera conta de que estava com as pernas doloridas de se manter na mesma posio. Ao sair  luz do sol, viu que Lisa e Sebastin j haviam
voltado e faziam companhia  Senora.
        Sebastin levantou-se e s ento Jssica percebeu que havia mais algum com eles: uma mulher alta, por volta de uns trinta anos, com o cabelo puxado num
coque e olhos frios que a examinavam atentamente. Jssica a reconheceu logo. Era a mesma mulher que vira com Sebastin no hotel em Sevilha.
         - A est Jssica - disse ele  companheira. - Querida, deixe-me apresentar-lhe a srta. James. Ela vai trabalhar para mim durante algumas semanas.
         - Espero que ela perceba a sorte que tem - respondeu acidamente a moa.
        - Jssica, Pilar Sanchez  uma grande amiga e vizinha nossa.
        - S uma grande amiga? - corrigiu Pilar, olhando de novo friamente para Jssica. - O que  isso? Nosso relacionamento  mais forte do que sugeriu. Se a pobre
Manuela estivesse viva, seramos praticamente irmo e irm. - A mo de Pilar, com unhas esmaltadas de vermelho, seguravam possessivamente o brao de Sebastin. A
maneira como o olhava era tudo, menos fraternal.
         Jssica sentiu um aperto no corao. Deviam ser amantes. Mas no era possvel! A famlia de Pilar devia ser to escrupulosa quanto a de Sebastin. Sua irm
devia ter sido a noiva dele, assim quem melhor do que ela para substitu-la?
         Jssica voltou  realidade com a voz alterada da visitante, repreendendo Lisa visivelmente nervosa e com o rosto corado.
         - Olhe seus dedos... No ponha a mo no meu vestido, menina, vai estrag-lo!
         O desapontamento da garotinha parecia estampado no rosto. Olhou em dvida para Sebastin, que estava com o cenho cerrado, depois para Sofia, que lhe disse
com meiguice:
        - Lisa, v procurar Maria. Est na hora de ir descansar.
        - Realmente, Sebastin, essa menina est ficando impossvel! - Pilar comentou assim que Lisa saiu. - Devia mand-la para um convento onde aprenderia a ser
obediente.
        - Como Manuela? - Sebastin perguntou irnico.
         Jssica, porm, no podia entender a ironia da pergunta, nem a razo de tia Sofia mostrar-se subitamente tensa.
        Esperou at depois do jantar para mostrar a Sebastin o trabalho que fizera durante a tarde. Para surpresa sua, ele no teceu tantas crticas quanto imaginara,
mostrando-lhe, pelo contrrio, o que tambm havia feito.
        - Inicialmente no quis lhe dar nenhuma instruo - confessou ele. - Acho importante poder analisar seu trabalho em sintonia com o meu. Pelo que voc me
mostra, vejo que realmente aprecia nossos tecidos e sabe o resultado que esperamos conseguir. Amanh vamos, ficar uma hora juntos em meu estdio para falar das novas
tendncias. Gostou da torre? - perguntou-lhe inesperadamente.
        Pega de surpresa, Jssica respondeu, com entusiasmo:
        - Muito, mas me pergunto se Rosalinda foi feliz l. Ela ocupava aqueles aposentos sozinha...
        - Em vez de compartilhar os do marido? - interrompeu-a Sebastin. -  verdade, mas isso foi s nos primeiros dias. Ela acusou o marido de seduzi-la, quando
ele sabia muito bem que no era verdade. Casara-se com ela para proteger seu bom nome, mas jurara permanecer celibatrio, sem nunca tocar na mulher que no o queria
e que j se entregara a outro. As coisas teriam continuado desse jeito se Rosalinda no tivesse tido a coragem de procur-lo e dizer-lhe que mentira ao pai, no
para esconder qualquer caso com outro homem, mas simplesmente por ter se apaixonado perdidamente por Rodriguez e desej-lo para marido.
        Completamente envolvido com a narrativa, Sebastin continuou:
        - Ela disse que, sabendo da inimizade existente entre o pai e ele, no teria a menor chance de despos-lo, por isso concebeu esse plano. Sabia tambm que,
se o acusasse de t-la desonrado, ele seria obrigado a reparar o erro. Foi muito corajosa. Teve de enfrentar a desonra ao admitir a falta de castidade e correu o
risco de ter de agentar o dio do marido para sempre, quando ficasse sabendo que fora enganado.
        Sebastin no conseguia esconder sua admirao:
        - Mas era to bonita quanto corajosa. Rodriguez no pde resistir s lgrimas de arrependimento e ela confessou a ele que ainda era virgem. Acabou no passando
muitas noites sozinha na torre - concluiu ele secamente.
        - Ento ela o fisgou, como voc me acusou de pretender fazer com Jorge - Jssica observou.
        Ele a olhou zangado.
        - Os dois casos so completamente diferentes. A motivao dela foi o amor, o que a justifica. Sua motivao  a ganncia, o que  imperdovel.
         Jssica se perguntava por que razo acabavam sempre discutindo, qualquer que fosse o assunto que estivessem conversando. Ps-se a recolher seus desenhos
e as amostras de tecido.
        - Est plida. - Jssica sentiu-se confusa com a observao de Sebastin. - Minha tia me disse que voc trabalhou a tarde toda e noite adentro.
        - Voc estava com uma visita - comentou Jssica, lembrando-se da desagradvel Pilar. - Alm disso, gosto desse trabalho.
        -  bom fazer um pouco de exerccio fsico. Sabe montar a cavalo? Jssica negou com a cabea.
        -  uma pena. Poderia fazer uma passeio comigo e Lisa pela manh.
        Por um momento, Sebastin dava a impresso de que ela era a prpria criana, a quem primeiro se repreendia, depois se acarinhava.
        - Posso nadar ou caminhar, isso no  problema. Mas quanto antes terminar o trabalho, mais depressa posso voltar para casa.
        Sebastin comprimiu os lbios numa expresso zangada, tendo novamente uma guinada de humor que Jssica j comeava a temer. Como ele havia tirado a jaqueta,
uma baforada de vento fez com que sua camisa se colasse ao corpo, revelando seu peito msculo. A camisa estava aberta at o peito e a cor branca realava-lhe a tez
morena. Jssica no conseguia desviar os olhos da linha do pescoo dele, sentindo uma envolvente sensualidade. Umedeceu os lbios com a lngua, num gesto nervoso,
ao v-lo se aproximar dela.
        - Jssica...
        Ele interrompeu o que ia dizer quando a porta da sala foi subitamente aberta, dando passagem a um jovem alto e moreno.
        - Jorge! - exclamou Sebastin surpreso. - Dio!l O que est' fazendo aqui?
        "Ento este  o tal Jorge?" pensou Jssica. No restava dvida de; que ele estava meio abalado pela situao em que encontrava Sebastin. Olhou hesitante
primeiro para o irmo, depois para Jssica.
        - Queria v-lo - disse intrigado. - No tinha a menor idia de que estava planejando vir para c. No comentou nada quando falamos por telefone.
        - Talvez porque no imaginasse que pretendia ficar com os Reajons por to pouco tempo. Achei que fosse ficar um ms.
         Jssica sentiu pena do rapaz ao v-lo corar e ficar embaraado
        - Essa era uma das coisas sobre as quais queria lhe falar, Sebastin. Eu... - interrompeu-se e olhou inseguro para Jssica. Depois, voltou-se para o irmo,
em tom galante. - Mas est com uma visita... e muito bonita. No vai me apresentar?
        Dizer que Sebastin ficou estupefato  pouco. Tomar conscincia do significado daquelas palavras foi como levar um choque eltrico. Voltou o olhar para Jssica,
que estremeceu diante da mensagem contida nos olhos dele.
        - Pensei que a srta. James j fosse sua conhecida - falou em tom glacial. - De fato, no faz tanto tempo assim que voc estava me implorando para tir-la
de sua vida.
         Jssica lamentou toda aquela confuso pelo rapaz, que se mostrou mais embaraado ainda.
        - Sou prima de Isabel - explicou a ele, ignorando Sebastin.
        - Houve um mal-entendido e seu irmo me tomou por ela. Ao ouvir, no lugar dela, uma srie de ofensas, resolvi no esclarecer a confuso. Por mais defeitos
que tenha, Isabel  extremamente sensvel...
        No precisava dizer mais nada. Jorge, sentindo-se envergonhado, olhou para o irmo.
        - Sebastin, no combinamos nada de voc falar pessoalmente com Isabel! No havamos concordado que uma carta...
        - Havamos, mas no imaginei que ela pudesse aparecer para debater o caso pessoalmente... ou foi o que pensei. Naturalmente minha inteno primeira foi proteg-lo.
        - Outro erro de sua parte - Jssica lhe disse, com amargura.
        - Isabel... no me havia contado todos os detalhes. Ela estava apavorada que voc pretendesse ir at a Inglaterra para v-la. Est noiva agora de outra pessoa...
e, naturalmente...
         Jssica comeava a perder a autoconfiana. No queria demonstrar a estupidez de Isabel, nem sua falta de fibra moral, mas Sebastin no tinha papas na lngua.
        - O que est tentando me dizer  que sua prima mentiu para voc?
        - No de m f - apressou-se a defend-la. - Simplesmente no queria que houvesse repercusses pela carta que enviou a Jorge. Ela a escreveu num momento
de extrema preocupao, quase desespero. Isabel queria to-somente que eu dissesse a Jorge que ela estava de pleno acordo em encerrar o caso - declarou Jssica,
com convico. Apesar de no ser exatamente a verdade, o argumento pareceu-lhe convincente.
        - Se sabia que eu a tomara por ela, por que no me disse logo a verdade? - Sebastin vociferou.
        - Porque no queria expor Isabel aos insultos que fui obrigada a ouvir - Jssica replicou friamente. - Da mesma maneira que voc queria proteger seu irmo,
quis proteger minha prima!
        - Conversaremos sobre isso mais tarde - argumentou ele em tom conciliador. - Por enquanto...
        - Naturalmente deseja ficar a ss com seu irmo - Jssica completou, sentindo uma vontade louca de gritar que ficava muito feliz de ver-se livre de ambos.
        A inesperada chegada de Jorge acabara sendo uma surpresa desagradvel. Em vez de ficar satisfeita e aliviada por finalmente Sebastin conhecer a verdade,
tudo o que conseguia pensar  que ele provavelmente agora a mandaria de volta  Inglaterra. E por uma razo qualquer, que no estava em condies de analisar, no
queria absolutamente ir embora dali!
        CAPTULO VI
        - Ah, voc est a Posso interromp-la por alguns minutos? Jssica olhou para o rosto preocupado de Jorge e sorriu. Estava desenhando no jardim para aproveitar
um pouco do sol.
        - Sebastin est trabalhando no laboratrio - informou ele. Jssica j o sabia, pois o prprio Sebastin lhe dissera durante o caf da manh que estaria
l, caso ela precisasse dele. Naquele momento, seus olhos pareciam querer avis-la de que ainda teriam contas a acertar, mas Jssica preferia no pensar no assunto.
        - Devo me desculpar pelo... pelo comportamento de meu irmo, - murmurou Jorge, corando um pouco. -  imperdovel que a tenha envolvido neste assunto. Ele
me contou mais ou menos o que aconteceu entre vocs. S no entendo por que, sentindo-se da maneira como se sentia, ele a tenha trazido para a fazenda, para trabalhar
com ele.
        Jorge estava visivelmente infeliz e perplexo, mas Jssica achou melhor no esclarecer nada agora.
        - Estive conversando com minha tia e ela parece acreditar que... isto , Sebastin deu-lhe a impresso que... que vocs so amantes
        - acrescentou, embaraado. - O que simplesmente no  a verdade. Vou conversar com ele sobre isso. Isabel me falou muito a seu respeito. Sei que no ...
que no...
        - Que no sou promscua? - Jssica completou, desconfiando que a descrio que Isabel devia ter feito a seu respeito no fosse muito lisonjeira.
        - Si - o rapaz concordou, com uma expresso agradecida pela interveno. -  isso. Sebastin no pode expor a reputao indelvel de uma jovem a um insulto
desses.
         Jssica se surpreendeu com os termos antiquados do rapaz. Jorge soava como protagonista de um romance da era vitoriana!
        - Vou falar com ele. No  justo! - ele repetiu novamente, como quem no se conforma.
        Certo ou errado, no via como Sebastin fosse se deixar influenciar pela opinio de seu irmo mais novo, refletia Jssica enquanto ele se retirava.
        Estava sozinha h quase meia hora quando ouviu passos se aproximando. Levantou a cabea e, para sua surpresa, viu Pilar se aproximando, com um sorriso forado
e os dois lados do rosto estranhamente corados, uma vez que era sempre muito plida.
        - Est perdendo seu tempo! - vociferou para Jssica, sem maiores prembulos. - Sebastin no a quer. At hoje somente amou uma mulher: minha irm...
         Jssica pensou em interromp-la, para tranqiliz-la de que no tinha qualquer interesse romntico em relao a Sebastin. O comportamento de Pilar, porm,
fez com que soasse uma campainhazinha de alerta em sua mente, que a fez aguardar.
        - Ele era obcecado por ela - Pilar continuou, como se Jssica no estivesse ali. - Um dia vai ter de se casar, nem que seja apenas para ter filhos. Quem
melhor do que a irm da mulher que ele amava?
        - Mas naturalmente...
        "Naturalmente ainda h Jorge para continuar o nome da famlia", Jssica ia dizer, mas Pilar no lhe deu chance de completar.
        - Deve estar pensando em Lisa - disse Pilar, com amargor. - Ela  apenas uma menina. Sebastin precisa de filhos homens.
        Ento Lisa era filha de Sebastin? Jssica no podia deixar de se sentir chocada. Como ele ousava questionar sua moral quando ele prprio...
        - No sabia? - Pilar comeou a rir histericamente. -  claro que ele no iria lhe contar... Ningum deve saber. Minha irm Manuela estava noiva dele h meses
e todos os preparativos do casamento j estavam concludos quando, repentinamente, ela adoeceu. O mdico disse a meus pais que era estafa e Manuela foi para a Argentina,
repousar na casa de parentes nossos. Quando voltou, era visvel que estava grvida... de um filho de Sebstian. Meus pais ficaram tremendamente abalados, como pode
imaginar. Confiavam em Sebstin como num filho e ele havia tirado a inocncia de Manuela antes do casamento. Os preparativos para as bodas foram apressados. Minha
me implorava a Manuela para explicar o porqu de no ter se confidenciado com ela antes de ir para a Argentina. Eu mesma era casada na ocasio e fiquei muito abalada
com o comportamento de Sebstin, mas sabia o quanto ele a amava. Ento, apenas dois dias antes da cerimnia, Manuela pediu emprestado o meu carro.
        Pilar parou de falar. Seu olhar tinha uma expresso atormentada. Mas continuou a histria:
        - Sofreu um acidente perto de Sevilha e foi, imediatamente, levada para o hospital. Conseguiram salvar a criana, mas quando Sebstin chegou ela j estava
morta.
         Jssica ouvira toda aquela longa histria no mais respeitoso silncio. No conseguia agora disfarar seu choque. Pobre Manuela! No importa como tivesse
procedido, era jovem e inocente e no merecia uma morte estpida daquelas. Deixara Sebstin com suas lembranas, e uma filha! Por que a teria apresentado como sua
"pupila"?
        - Sem dvida, tudo aconteceu muito rapidamente - prosseguiu Pilar. - Apenas os membros mais ntimos da famlia ficaram sabendo das circunstncias do nascimento
de Lisa. - Ela apertou os lbios e Jssica se lembrou de como ela demonstrava no gostar da menina. Sua prpria sobrinha, afinal de contas. - Lisa  a lembrana
viva, para Sebstin, de minha irm - continuou dizendo.
         Jssica percebeu ento que ela tinha cimes, cimes da filha de sua irm!
        - Foi um ano trgico para nossa famlia. Primeiro Manuela, depois meu prprio marido e meus pais morreram num desastre areo quando seguiam de avio para
Minorca. Mas o pior de tudo foi... Lisa. Ainda bem que Manuela morreu. Se estivesse viva teria de carregar a vergonha de seu pecado.
         Jssica mal podia acreditar nos prprios ouvidos. Era simplesmente feudal o que acabava de escutar. E onde ficava Sebstin? Ele tambm era culpado, se
"culpa" fossa a palavra adequada para aquela situao. Pobrezinha de Lisa! Nem imaginava que Sebstin fosse seu pai. Uma onda de raiva a invadiu. Como podia Sebstin
negar  filha o direito de conviver com ele, com o prprio pai? Pilar havia dito que ele amava Manuela. Na opinio de Jssica devia ter sido um sentimento muito
mesquinho para negar pura e simplesmente o fruto vivo daquele amor.
        Depois do almoo, Jssica ainda se sentia abalada pelo que Pilar lhe contara. Sebstin chamou Jorge e disse que queria conversar com ele em seu estdio.
Lisa, que estava do outro lado da mesa, aproximou-se de Jssica e lhe pediu para ficar com ela.
        - Vou ficar bem boazinha - prometeu. - Hoje  dia de tia Sofia receber visitas e eu acho muito chato.
        Tocada pela espontaneidade da menina, Jssica sugeriu que ela lhe mostrasse os arredores. Seus desenhos j estavam bem adiantados e, de qualquer forma, s
poderia termin-los depois de falar com Sebstin.
        Como sempre havia gostado de crianas, Jssica ficou encantada com a companhia de Lisa e procurou disfarar o sentimento de piedade que sentia por ela, quando
a menina lhe confessou que se sentia, muito sozinha.
        - Tia Pilar quer que eu saia daqui - disse temerosa. - Mas acho que tio Sebstin no vai deixar.
        A tarde chegava ao fim quando voltaram. Tia Sofia estava na sala com as amigas. Lisa prestou ateno, educadamente, s perguntas que lhe fizeram, respondendo
com polidez, comportando-se de maneira, muito diferente da criana exuberante que estivera com Jssica ainda h pouco.
         Jssica, por sua vez, percebeu que estava sendo objeto de grande curiosidade.
        - Jssica  amiga de Sebstin - tia Sofia logo tratou de explicar.
        - Mas pelo que minha sobrinha me disse voc est aqui principalmente para trabalhar com ele - procurou esclarecer uma senhora gorda, que Jssica concluiu
ser tia de Pilar. - E sua famlia, no se importa?
         Jssica garantiu a ela que no.
        - Na Espanha, nenhuma jovem de boa famlia se hospedaria na casa de um homem solteiro sem ter uma acompanhante feminina com ela.
        - Estou aqui a trabalho - retrucou, friamente, recordando o que Jorge havia lhe dito.
        Ficou imaginando se aquelas senhoras realmente acreditariam que Sebastin e ela fossem amantes. E, se fossem, o que tinham com isso? De qualquer jeito, era
muito desagradvel ter a sensao de estar sendo examinada. Sem dvida, assim que virasse as costas teriam muito o que falar a seu respeito.
        Quando se retiraram, Jssica foi para a torre e Lisa foi levada pela empregada para descansar.
        Era impressionante o bom andamento daquela casa. Embora tia Sofia no parecesse ter grande trabalho, os empregados a consultavam todos os dias depois do
caf da manh.
        Realmente era necessrio um pulso firme para que todas as coisas funcionassem com tamanha preciso em todos os cantos daquela fazenda, conservando-se suas
valiosas antiguidades e um verdadeiro tesouro em obras de arte sempre impecveis.
        Como fosse importante falar com Sebastin sobre seu trabalho, antes de prosseguir, Jssica recolheu os desenhos e foi at o estdio. Ao se aproximar, porm,
ouviu vozes. A de Jorge estava exaltada e na defensiva.
        Concluindo que no era o momento oportuno para interromp-los, Jssica comeava a se afastar quando o administrador da fazenda apareceu.
        - Queria falar com o Conde... - ela falou, como que se justificando.
        - Avisarei a ele, quando se desocupar - prontificou-se Rafael. - No gostaria de tomar um ch?
        Eram seis horas e Jssica sabia que habitualmente o jantar era servido tarde. Agradeceu a Rafael, aceitando.
        Vinte minutos depois, um gostoso ch, com bolinhos de amndoas, chegava ao seu quarto. Foi ento que Jssica se deu conta de como estava faminta. Acabava
de tomar a segunda xcara, quando ouviu uma batida rpida na porta. No precisou abri-la para, instintivamente, saber que era Sebastin.
        Ele estava visivelmente preocupado e zangado. O corao de Jssica disparou. Aquele estava longe de ser o momento adequado para discutir suas idias com
ele.
        - Bem, acho que chegou o momento de me explicar o porqu de no me ter dito a verdade sobre sua prima.
         Jssica sentiu um calafrio na espinha.
        Encostado  porta, de braos cruzados sobre o peito e uma expresso ameaadora em seus olhos cinzentos, Sebastin era a imagem perfeita do homem que se sentia
o todo-poderoso.
        - J lhe disse - foi tudo o que Jssica, conseguiu falar. Realmente ela j vira nele aquela expresso ameaadora, de quem tem contas a ajustar, quando Jorge
inadvertidamente lhe revelara a verdade.
        - Quero ouvir com mais detalhes.
        - Eu quis proteger Isabel...
        - Proteger Isabel ou o noivo dela? - perguntou ele, com uma irritante objetividade. - Jorge me falou desse tal de John. Pelo que entendi ela j estava planejando
ficar noiva dele quando conheceu meu irmo.
        - Jorge foi apenas um romance de frias - Jssica afirmou. - Isabel pode ser tola, mas no  leviana. Posso lhe garantir que no tinha nenhum motivo mercenrio
em relao a ele.
        - No? Ento por que o ameaou com essa criana?
        - Foi um engano. Acho que pode avaliar como Isabel se sentiu desesperada ao imaginar que estava grvida.
        - Tentou ento forar Jorge a se casar com ela - Sebastin concluiu, com uma expresso de desprezo. - Foi essa "inocente" criatura que voc desejou proteger?
Definitivamente no posso aceitar.
        No podia contar a ele que Isabel mentira para ela, seno a imagem da prima ficaria pior ainda.
        - A mim pouco importa se aceita ou no - Jssica jogou-lhe na cara, com o queixo levantado em desafio. - Tudo que desejo agora  esquecer esse incidente
todo.
        O que era praticamente impossvel. Certos detalhes daquele "incidente" continuavam a atorment-la. Chegava a temer que o que sentia por Sebastin estivesse
perigosamente prximo do amor. No sabia exatamente como, nem por que acontecera, mas com a convivncia dos ltimos dias ficava cada vez mais claro que ele no lhe
era absolutamente indiferente. Bastava sentir a maneira como seu corao disparava sempre que ele se aproximava! O incrvel  que Sebastin era a verdadeira anttese
de tudo o que admirava num homem. Arrogante, dominador e, segundo as aparncias, incapaz de assumir suas responsabilidades.
        - Fcil de falar, difcil de fazer. - Descruzando os braos, Sebastin caminhou at a janela. - Segundo o que Jorge tentou, muito contrariado, me provar,
minha tia e suas amigas esto pensando que somos amantes.
        Aparentemente ele esperava uma resposta. Jssica, porm, estava mais preocupada com a dorzinha que sentira no corao ao constatar a indiferena com ele
falava no assunto.
        - Ambos sabemos que no  verdade - declarou ela, finalmente.
        - Alm disso, estou pouco ligando para a opinio de meia dzia de pessoas que nunca tinha visto antes e que dificilmente verei depois.
        - No tenho dvidas de que est pouco ligando, mas, infelizmente, eu estou, pois terei de v-las inmeras vezes e tudo o que diz respeito ao bom nome de
minha famlia me preocupa.
        Estava na ponta da lngua de Jssica dizer que devia ter pensado nisso antes, mas sua observao foi outra:
        - Sim, entendo, quem tem um passado como o seu deve precisar zelar por sua reputao!
        No mesmo instante, ela percebeu que tinha ido longe demais. Sebastin a agarrou pelo pulso.
        - O que est querendo insinuar com isso? - perguntou-lhe entre dentes.
        - Acho que sabe muito bem - replicou ela, enchendo-se de coragem. - Lisa... as pessoas no so cegas...
        - Ah, contaram-lhe sobre Manuela. - O sorriso de Sebastin era cnico e amargo. - Claro que tem razo. As fofocas sobre Lisa e seus pais so interminveis.
Por causa disso preciso ser extremamente discreto, tanto por ela, como por mim mesmo.  ...
        - No entendo por que no lhe diz a verdade.  muito cruel e de qualquer maneira, Lisa vai acabar sabendo.
        - Parece estar muito preocupada com ela. - Novamente o mesmo sorriso cnico.
        - Acontece que gosto dela. Alm disso, senti na pele o que  perder ambos os pais. Nada... nada compensa essa perda. Ter um dos pais  melhor do que no
ter nenhum - argumentou acaloradamente.
        - E voc a est privando do direito a esse relacionamento.
        - Chega! - Com uma fria que quase a fez perder a respirao, Sebastin a puxou para si. - No quero ouvir mais... quero que se cale!
        - Como vai me fazer calar? - Jssica perguntou, quase sem ar. - Vai mandar me prender?
        - Nada disso. - A maneira suave como ele falou e o olhar insolente que acompanhou suas palavras fizeram Jssica estremecer. -  melhor assim!
        Sebastin foi to rpido que ela no teve tempo de escapar. Com um gesto firme, ele a apertou contra seu corpo, de modo a impedir-lhe qualquer movimento.
        Foi quase brutal o contato da boca dele sobre a sua. A presso daqueles lbios parecia queimar os seus, com uma raiva selvagem. Os dedos de Sebastin em
sua cintura chegavam a machuc-la.
         Jssica estava gelada, completamente incapaz de sentir o que quer que fosse. Tentava no se importar que ele a estivesse humilhando daquela maneira, transformando
um contato que poderia ser extremamente sensual em humilhao.
        Como se pressentisse que sua vingana no estava surtindo o efeito que desejava, Sebastin diminuiu a presso de seus lbios tornando-a mais suave. Inesperadamente,
afastou um pouco a boca, at que ela ansiasse por sentir novamente o contato do seu beijo. A raiva havia desaparecido dos olhos dela, dando lugar a uma chama intensa.
Mesmo sem o querer, seus corpos estavam moldados um no outro.
        - Por Dios - ele sussurrou ao seu ouvido. - No d para negar a atrao que existe entre ns.
         Jssica sabia que podia protestar e pedir que a soltasse, mas sentia-se presa a ele como a um m, no desejando de forma alguma renunciar ao prazer que
lhe davam os lbios dele roando-lhe o pescoo, as mos dele afagando-lhe as costas.
        Nem mesmo o calor das mos de Sebastin sobre seus seios a intimidou. Pelo contrrio, foi tal a resposta de seu corpo quela carcia que ela sentiu uma necessidade
primitiva de usufruir do contato dele sem a barreira de roupas.
        Como se estivesse lendo seu pensamento, Sebastin soltou uma exclamao rouca e comeou a desabotoar-lhe a blusa. Ela no esboou a menor inteno de impedi-lo.
O suti rendado mais realava do que escondia o contorno bem-feito de seus seios. A pulsao de Jssica se acelerou ao ver a maneira com que Sebastin admirava sua
pele clara.
        - Muito mais atraente do que os corpos demasiadamente bronzeados que enchem nossas praias! Isto  que  um convite para um homem tocar e acariciar - declarou
num tom emotivo. - A palidez de sua pele aparenta uma castidade que excita qualquer homem a querer roub-la, mesmo que a impresso seja falsa.
         Jssica estremeceu quando ele desabotoou seu suti, deixando-lhe os seios expostos  sua admirao. Intimamente ela sabia que devia estar sentindo vergonha,
mas tudo lhe parecia to natural que s conseguia sentir uma enorme excitao e um desejo louco de que ele a tocasse.
        Como que adivinhando esse desejo, Sebastin tomou-lhe os seios nas mos, acariciando-os e fazendo com que os mamilos enrijecessem.  Um gemido sensual escapou
dos lbios de Jssica. Tinha necessidade agora de sentir todo o corpo daquele homem colado ao seu.
        - Dios, me desprezo muito por isso, mas nesse momento tudo o que desejo  lev-la para a cama e sentir a suavidade de sua pele contra a minha e me perder
nela... Eu...  O que h com voc que me faz esquecer quem voc ? - perguntou, levantando-a em seus braos e levando-a para a cama.
         Jssica sabia que no devia estar consentindo naquela loucura, mas cada milmetro de seu corpo ansiava pela realizao que s o corpo dele podia lhe proporcionar.
        Sentiu a cama sob os dois e todo seu corpo estremeceu quando os lbios de Sebastin roaram-lhe os seios, mordiscando-lhe os mamilos e provocando nela reaes
at ento desconhecidas.
        - Mujer, como te desejo!
        Aquelas palavras soavam a Jssica como um eco de seu prprio pensamento. Nunca sentira antes tamanho desejo e necessidade de ser possuda por um homem. Mas
tambm nunca havia amado ningum como amava Sebastin.
        Amava! Era doloroso admitir, mas era tarde demais para negar aquela verdade. Ela o amava mesmo.
        - Jssica?
        Sebastin observava seu rosto corado, altamente excitado. Ela desejava poder toc-lo da maneira ntima como ele a tocava. Timidamente comeou a acariciar
o pescoo dele e foi descendo as mos em direo ao seu peito msculo.
        - Como sonhei sentir o contato de suas mos no meu corpo - ele confessou ofegante, enterrando a cabea nos ombros dela. - Quase desde o primeiro momento
em que a vi. No acha que h qualquer coisa entre ns que no pode ser negada?
         Jssica teve mpetos de dizer que no era simplesmente "qualquer coisa", mas, como Sebastin estava despindo a camisa, ficou olhando fascinada para a nudez
viril dele. Havia uma masculinidade primitiva naquele corpo que apelava a cada um dos seus sentidos.
        - Dios, Sebastin, o que significa isto? - uma voz exclamou. Estavam to fascinados um com o outro que no ouviram sequer a porta se abrir. Os olhos de Jssica
deram com o rosto preocupado de tia Sofia, acompanhada de Pilar, que sorria triunfante.
        - No lhe disse? - ela falou exultante. - Agora a senhora no vai mais duvidar que eles sejam amantes...
        Sebastin estava protegendo o corpo de Jssica com o seu prprio, mas isso no evitou que ela se sentisse envergonhada da cabea aos ps.
        - Sebastin, no tenho palavras para lhe dizer o quanto estou indignada por voc usar sua casa para...
        - Agora chega. - A atitude calma de Sebastin fez com que tia Sofia se calasse. - Se aguardarem na sala de visitas, h uma coisa que devo lhes contar.
        Esperou que as duas se retirassem e depois levantou-se rapidamente.
        - Me desculpe pelo que houve - disse a Jssica em tom corts. - Nunca podia imaginar que... Preciso falar com minha tia.
        Saiu, fechando a porta atrs de si.
         Jssica foi tomada por um sentimento de culpa e autocensura. No devia ter se deixado levar por aquela onda de desejo que se apossara dela. Como poderia
agora encarar tia Sofia e Pilar? Sentia-se tremendamente humilhada pelo fato de ambas terem testemunhado aquele momento de intimidade. Conscientemente estivera determinada
a se entregar ao amor, porm agora estava reduzida  mera condio de objeto, cuja nica funo era satisfazer s necessidades de seu dono, que podia se aproveitar
do corpo dela, apesar de condenar sua moral.
        - Jssica, pode vir aqui por um momento? - ouviu a voz firme de Sebastin. Era o tipo de chamado que no admitia recusa.
        Nervosa e insegura pelo que ele poderia querer lhe dizer, olhou-se no espelho para confirmar se sua aparncia traa o que lhe ia no ntimo, antes de se dirigir
 outra sala.
        Tia Sofia, quando ela entrou, dirigiu-lhe um olhar de pesar, Pilar de dio.
        - No pode estar falando srio, Sebastin - insistia ela, quando Jssica chegou. -  loucura!
        - Isso  problema meu - ele retrucou, num tom inflexvel. Depois, dirigiu-se a Jssica:
        - Acabei de contar  minha tia e a Pilar que vamos nos casar. - Os olhos dele diziam-lhe autoritrios que no ousasse contradiz-lo.
        - Conforme Pilar e Jorge me alertaram, j fui responsvel por uma jovem ter perdido seu bom nome, no posso permitir que o nome dos Calvadores seja jogado
na lama pela segunda vez.
        - Mas, Sebastin, da a chegar at esse ponto! - protestou Pilar, fitando Jssica com desdm. - Acho que no  necessrio tanto...  Basta mandar essa mulher
embora. No comentaremos nada.
        - No, Sebastin est certo - interrompeu tia Sofia. - No deve tentar dissuadi-lo, Pilar. Tenho prazer de lhe dar as boas-vindas  nossa famlia, Jssica.
- Caminhando at Jssica, pegou-lhe as mos e beijou-a dos dois lado do rosto.
        - Venha, Pilar.  melhor irmos agora, Sebastin, quero que me diga depois, que providncias devo tomar...
        - Se realmente pretende casar-se com ela, deve querer faz-lo o mais discreta e rapidamente possvel - aconselhou Pilar, venenosa.
        - No vai querer outra noiva tendo um filho antes de lev-la ao altar, no ?
        - Chega!
         Jssica se encolheu diante da ferocidade do olhar de Sebastin. Pilar, entretanto, pareceu no se importar. Deu de ombros, insolente, dizendo a Jssica:
        - Ele pode se casar com voc, mas sabe muito bem o porqu. Quando saram e Sebastin fechou a porta, aquela ltima frase ainda martelava na cabea de Jssica.
Realmente no poderia se casar com Sebastin, mesmo ele admitindo que a desejava e que um sentimento mais slido pudesse nascer dali, mesmo que ela prpria tivesse
amor suficiente pelos dois.
        - Olhe, no h necessidade de nos casarmos - comeou a dizer, titubeante. - Posso ir embora...
        - Para que todos digam que mais uma vez um Calvadores traiu seu nome? - Sebastin lhe perguntou amargo, com os olhos cheios de revolta. - Nunca! Depois,
acho que no vai ser to aborrecido assim para voc viver comigo. Sexualmente vamos nos dar bem. - Um sorriso brotou nos lbios dele. - Pelo menos na cama no vai
ser montono. Quanto ao resto, tenho meu trabalho e, se Deus quiser, voc eventualmente ter nossos filhos para criar.
        Incrvel como, colocado daquela maneira, Sebastin lhe prometia uma existncia muito vazia, bem diferente da que Jssica havia sonhado.
        - Devia ter dado ouvidos a Jorge e no me deixar tentar pela suavidade de sua pele e pela necessidade de senti-la junto a meu corpo - acrescentou, como se
falasse mais para si mesmo. - Concorda em que nos casemos o mais breve possvel?
        A vontade de Jssica era de dizer "no". Devia dizer "'no". Entretanto, um "sim" hesitante finalmente lhe escapou dos lbios.
        - Deciso inteligente - comentou Sebastin, com os olhos cheios de desdm. - Vai ser a primeira noiva Calvadores, em quase mil anos, que no se casa virgem.
        - Voc uma vez me disse que jamais se casaria com uma mulher que tivesse tido outros homens - Jssica lembrou-o, com um n na garganta. .
        - As circunstncias s vezes nos obrigam a baixar de padro. Se no me casar com voc agora, sem dvida vou ser acusado de ter destrudo a vida de duas jovens
inocentes. No posso deixar que isso acontea.
        - No  um preo muito alto apenas por uma questo de orgulho de famlia? - Jssica perguntou, sem saber direito o que dizer. Nunca em sua vida havia sonhado
viver uma situao como aquela.
        - H coisas que no tm preo - respondeu ele, sombrio. - Talvez, quando estivermos comemorando o nascimento de nosso primeiro filho, eu possa dizer a mim
mesmo que, afinal de contas, nosso casamento valeu a pena.
        Jamais ela consentiria que um filho crescesse achando vlido trocar a prpria vida por causa da honra dos alvadores. Seu filho no seria triste e solitrio
como Lisa. Seu filho...
         Jssica, chocada, deu-se conta de que j estava se imaginando esperando um filho de Sebastin. Pouco importava se o bom senso a aconselhava a no se casar
com ele. Era o que faria.
CAPTULO VII
        Trs dias depois, casaram-se em Sevilha.
        Com a mesma delicadeza que adotara desde que Jssica havia aceito seu pedido, Sebastin lhe perguntara se gostaria de convidar algum para a cerimnia. Imediatamente,
ela pensara nos tios e em Colin, mas negou com a cabea, lamentando muito. Convid-los iria suscitar muitas perguntas e dvidas. Seria fcil fazer a participao
depois, quando tudo estivesse acabado.
        "Quando tudo estivesse acabado!" Que coisa estranha pensar em seu casamento nesses termos! E por que no? Desde a tarde em que concordara em se casar com
Sebastin, o casamento fora tratado como uma obrigao desagradvel. Apenas Lisa demonstrara contentamento com a notcia.
        - Estou to feliz por voc se casar com tio Sebastin - admitira naquela manh. - Detestaria que ele se casasse com Pilar. Ela no gosta de mim!
        O resto da famlia, entretanto, estivera o tempo todo com expresses consternadas.
        Jorge havia procurado Jssica para lhe dizer que no via que outra sada o irmo poderia ter tido.
        - Sebastin jamais consentiria que voc se tornasse objeto das tramas de Pilar. Sabe muito bem como ela  possessiva em relao a ele. Faria qualquer negcio
para pr em descrdito quem quer que se aproximasse dele.
         Jssica no pde deixar de sentir uma vitoriazinha. Se essa tivesse sido a razo para Pilar irromper em seu quarto daquela maneira, o resultado acabara
sendo exatamente o oposto do que ela desejara.
        Olhou para o rosto de Sebastin, por um breve momento. Gostaria de saber em que ele pensava. Haviam se casado naquela manh e agora ela era a Condessa de
Calvadores. Tocou na aliana de ouro, como para se certificar de que no estava sonhando.
        Depois da cerimnia, houve um almoo na casa deles, para cinqenta pessoas, todas estranhas para Jssica. Segundo tia Sofia, eram familiares que ficariam
magoados se no fossem convidados.
        - J houve tanta confuso na vida de Sebastin... Teremos problemas se no os convidarmos - alegara.
         Jssica sabia que ela estava pensando em Manuela, a outra jovem com quem Sebastin ia se casar.
        Na realidade, Sofia estava fazendo todo o possvel para que Jssica fosse bem recebida na famlia. Tinha sempre uma expresso serena no rosto. Nunca mais
notara nela aquele olhar de reprovao de quando invadira seu quarto na torre, acompanhada de Pilar.
        Naquela manh, enquanto Jssica se aprontava para o casamento, Sofia entrara no quarto, trazendo um colar de prolas.
        - Use-o. Todas as noivas Calvadores o usaram.
        - Mas estou longe de ser a noiva que a senhora desejava para seu sobrinho - Jssica alegara, sentindo-se pssima.
        Mais do que nunca gostaria de ter a me ao seu lado. Intimamente havia sonhado sempre em usar um vestido de noiva branco nesse dia e no o conjunto de duas
peas creme que comprara s pressas, em Sevilha. Era lindo, mas no um vestido de noiva.
        - Voc o ama - Sofia declarou, com surpreendente convico. - E isso  mais do que suficiente para mim. Acima de tudo, Sebastin  o tipo de homem que precisa
do amor de uma esposa. Sei que  muitas vezes difcil e at arrogante. - Ela esboou um leve sorriso, terno e compreensivo. - Meu marido era assim tambm. Infelizmente,
 um trao dos Calvadores. Sebastin j passou por maus pedaos na vida. A perda dos pais foi um golpe terrvel para ele. Teve de assumir o papel de protetor e mentor
de Jorge. Depois, o caso da pobre Manuela. Tanto sofrimento e dor! H muito desejava v-lo casado. Sei que ser uma boa esposa para ele, pois o ama.
        - Mas ele no me ama! - desabafou Jssica, sem disfarar sua angstia.
        - Ele a deseja. Quem sabe um sentimento mais profundo poder nascer da?
        "Quem poderia saber?", Jssica pensou infeliz, ouvindo o som de vozes que se comunicavam apressadamente em espanhol. Fazia agora parte daquela famlia e
parte importante, pois, mais tarde, seria a me do prximo chefe dos Calvadores.
        Sebastin achara desnecessrio uma lua-de-mel. Voltariam os dois para a fazenda, onde permaneceriam por mais algumas semanas, at que os desenhos estivessem
prontos. A partir de ento dividiriam o tempo entre a casa em Sevilha e a fazenda.
        Com o canto dos olhos Jssica reparou em Jorge. Sebastin estava zangado por ele ter anunciado que rompera o compromisso com Brbara.
        - No basta que um de ns tenha se casado sem amor? - Jorge jogara-lhe na cara, no meio da discusso.
         Jssica, que estava esperando do lado de fora do estdio para falar com Sebastin, fugira dali e fora se refugiar em seu quarto, onde cara em prantos.
        Afinal, que tipo de casamento era aquele? Seu marido iria tirar prazer de seu corpo e a ignorava como pessoa. Quanto poderia agentar?
        O almoo parecia-lhe interminvel. Sua cabea latejava e todo seu corpo estava dolorido de tenso. Teve um sobressalto quando Sebastin se levantou e a pegou
pelo cotovelo para irem embora.
        - Diosl - exclamou ele, os olhos tornando-se sombrios. - Por que estremece desse jeito, como se fosse uma virgem apavorada?
        "Porque  exatamente isso que sou", Jssica teve mpetos de gritar, mas as palavras no lhe vieram  boca. Como pudera consentir que ele pensasse o contrrio,
por tanto tempo?
        Dispunha de todo o trajeto at a fazenda para pensar nessa loucura. No tinha iluses a respeito da natureza daquele casamento. Seria para valer e no haveria
nada de romntico. Sebastin queria filhos e ela tambm. At ento, entretanto, no pensara em outra coisa a no ser que o amava. Agora, era obrigada a enfrentar
o fato de que ele a considerava uma mulher sexualmente experiente.
        O rudo do ar-condicionado no interior do Mercedes era o nico som a quebrar o pesado silncio que se estabelecera entre os dois. Sebastin guiava, de vez
em quando desviava os olhos da estrada para contemplar o rosto plido de Jssica.
        - No est se sentindo bem?
        - Estou com dor de cabea - ela admitiu, com um fio de voz.
        - Essa  a desculpa da mulher casada, no da noiva - Sebastin retrucou sem rodeios. - Voc  minha mulher, Jssica, e no vou renunciar aos meus direitos
como marido agora. Me parece que h mais do que uma simples dor de cabea perturbando-a. O que ?
        Talvez aquele fosse o momento de lhe dizer a verdade. Pigarreou hesitante, desejando que ele parasse o carro e a tomasse nos braos. Assim talvez fosse mais
fcil dizer a ele que ainda era virgem.
        - Pare de brincadeiras! - advertiu-a irritado, praguejando quando um ciclista lhe cortou a frente do carro, obrigando-o a brecar bruscamente. - Por Dios,
minha pacincia tem limite! - murmurou entre dentes. - S posso agradecer a Deus que no vou precisar iniciar uma virgem. Fomos interrompidos num momento muito pouco
oportuno por minha tia e Pilar. Desde ento meu corpo est ardendo de necessidade de satisfao. Ainda bem que ser acalmado essa noite - acrescentou, com um sorriso
malicioso, chocando-a com sua franqueza.
        -  meu pagamento pelo privilgio de usar seu nome?
        - Pagamento? Que besteira est dizendo? Seu desejo era to grande quanto o meu, voc mesma admitiu.
        Admitira sim, mas era um desejo gerado pelo amor e agora completamente tolhido pelo medo. Como poderia lhe dizer a verdade depois daquelas palavras?
        Tornaram a ficar em silncio por algum tempo. Depois, voltando-se para trs e contemplando a nuvem de poeira que o carro levantava, Jssica comentou, para
disfarar seu nervosismo:
        - Os outros ficaram bem para trs.
        - Ficaram mesmo. Pelo menos umas vinte e quatro horas. Esta noite passaremos completamente a ss, por sugesto de minha tia, contra a qual no pude argumentar.
Ainda assim, ela me disse, muita gente em nossa famlia achou estranho que voltssemos para a fazenda, em vez de sairmos em lua-de-mel.
        - Tenho certeza de que Pilar vai coloc-los a par da verdade - Jssica retrucou, com amargura. - Vai dizer que eu o obriguei ao casamento, da mesma maneira
que uma vez voc me acusou de estar tentando fazer com Jorge.
        - Pilar no vai dizer nada - garantiu-lhe Sebastin. - E voc est se tornando histrica, no posso entender o porqu.
        Como poderia? Estava completamente cego. Parecia no ter sentimento algum! Caso contrrio, j teria percebido que...
        Entraram na estrada que os levaria at a casa. A tarde estava caindo e o anoitecer carregado do perfume das flores e do trilar dos grilos.
        Conforme Sebastin lhe dissera, a casa estava completamente vazia. Jssica sentiu os olhos dele em sua nuca quando se encaminhou  torre. Ouviu-o caoar:
        - Est no caminho errado. De agora em diante vai ocupar meus aposentos.
        Os aposentos e a cama! Quase sufocada de medo, Jssica o acompanhou por uma parte da casa que ainda no conhecia.
        Uma sala grande e austera dava para um jardim privativo, muito escuro agora. Era decorada em tons de bege, com uma moblia moderna, marcadamente masculina.
        - O quarto  por aqui.
         Jssica olhou, mas no via nada. Estava tomada de pavor. No podia acreditar que quando ele lhe falara em seu desejo estivesse com inteno de satisfaz-lo
imediatamente!
        Olhou s cegas para a porta. Sua cabea estava num verdadeiro caos. Desejava j ter lhe contado a verdade... desejava que durante o transcorrer do dia as
atitudes dele tivessem se suavizado um pouco...
        - Estou com fome - mentiu, sem convico. - Eu...
        - Eu tambm - Sebastin concordou. - Mas acho que deixei bem claro que no quero brincadeiras comigo... O que est tentando fazer? - perguntou, bruto. -
Quer me levar ao ponto de violent-la? Ser que esse pensamento a excita?
        - No! - Jssica estava totalmente revoltada. Quis lhe dizer que ainda no estava preparada, mas no sabia como.
         - Gostaria de tomar um banho e trocar de roupa, se no se importa - argumentou com a mxima dignidade.  O dia foi longo e...
        - Claro que no me importo. O banheiro  ali.
        Sebastin indicou uma porta do outro lado do quarto. Ao abri-la Jssica se deu conta da proximidade dele e, como sempre, no ficou indiferente  virilidade
que exalava do seu corpo.
        - Se me desculpar por um segundo, h algo que preciso fazer - ele lhe disse em tom caosta.
         Jssica ficou aliviada de v-lo sair do quarto. Pelo menos teria alguns minutos sozinha. Provavelmente ele entendera que ela precisava de algum tempo para
se preparar para o que estava por vir.
        Olhou em redor do quarto, to masculino quanto a sala que o antecedia e decorado nas mesmas tonalidades. Que roupa usaria? No podia de forma alguma vestir
as mesmas. Atravessou o quarto e entrava na sala quando a porta se abriu e Sebastin se materializou em sua frente.
        - Onde vai?
        - Eu...  minhas roupas...
        - Esto em um dos armrios aqui. As empregadas fizeram a mudana durante o dia. - Ele a observou atentamente. - Por que est to nervosa? No  a primeira
vez que se encontra nesta situao...
        - Entretanto,  a primeira vez que me caso - retrucou Jssica, desejando no mesmo instante no ter sido to agressiva.
        - Rafael nos deixou um pouco de champanhe gelado, apesar de que o casamento no vai ser consumado com o esprito que ele imaginou. Certamente, pensou que
ajudaria a relaxar seus temores virginais - esclareceu, de forma sucinta, quando ela o olhou hesitante.
        Quando ele saiu, Jssica foi procurar suas roupas, pegando, trmula, um vestido leve.
        O banheiro era luxuosssimo, com uma banheira enorme, e todo decorado em creme e vinho. Depois de hesitar por um momento, Jssica resolveu tomar uma ducha.
Desejava que o banheiro tivesse um trinco. Sabia que estava se comportando feito uma donzela vitoriana e procurava se lembrar de que amava Sebastin.
        O contato com a gua fez com que seus nervos se acalmassem um pouco. Ensaboou o corpo, sentindo-se mais  vontade a desligar a gua quando ouviu a voz provocante
de Sebastin.
        - Est demorando, minha cara!
        No havia percebido a entrada dele no banheiro! Instintivamente, procurou pegar a toalha.
        - Que acanhada! - caoou ele, tirando a toalha de seu alcance. -  to desnecessrio...
        - Por favor, Sebastin! - Sua voz soou estranhamente rouca. Sentia todo o corpo arder de vergonha.
        - No precisa implorar, querida - ele retrucou, dando um duplo sentido ao seu pedido. - Voc  muito desejvel, apesar de um pouco magrinha. Mas sabe ser
provocante e gosto do seu perfume - acrescentou, deslizando a mo pelas costas dela.
         Jssica sentia-se tomada de pnico. Seu corpo enrijeceu-se ao contato daquela mo. Sebastin, porm, se percebeu, no se importou. Seus dedos continuaram
a acarici-la e, antes que ela pudesse protestar, avisou:
        - Como eu disse, estava demorando muito. O que h?
        - Eu... eu gostaria de me vestir - ela gaguejou. - J lhe disse que estou com fome e...
        - Espero que voc no esteja com idias tolas de renunciar ao nosso casamento. Eu a desejo, Jssica - disse-lhe objetivamente. - E a quero agora... Neste
momento, s desejo sentir o calor de seu corpo vibrando junto ao meu...
        - No!
         Jssica tentou esboar um protesto, mas foi em vo. Sebastin tirou-a do chuveiro e levantou-a no colo, sem se importar com seu corpo molhado. Levou-a sem
o menor esforo para o quarto e colocou-a na cama.
        - Que maravilha! - sussurrou ele, sentindo um visvel prazer ao acariciar sua pele. - To suave e macia.
        Se ao menos a luz estivesse apagada, pensou Jssica, intimidada pela claridade que revelava os mnimos detalhes de seu corpo.
        Percebendo-a olhar para o lustre no teto, Sebastin perguntou, como quem no gosta da idia:
        - Vai querer fazer amor no escuro? Por qu?
        Como Jssica no respondesse, ele acrescentou:
        - Para poder fingir que sou outra pessoa? Essa no, querida. Quero que saiba muito bem quem a est possuindo. Alm disso, seu corpo  to bonito que quero
usufruir dele no s com minhas mos, meus lbios e meu prprio corpo, mas tambm com meus olhos. E, da mesma forma, quero que usufrua do meu - insinuou, num tom
sedutor. - Foi uma pena que tivesse tomado o banho antes que eu pudesse me juntar a voc. Gostaria de t-la despido.
        - Sebastin, sou uma mulher, no uma boneca! - Jssica protestou, indignada.
        - Agora voc  minha mulher. No importa o que tenha acontecido antes, vai ser como se nunca tivesse existido outro homem. Pela manh voc se lembrar apenas
do contato das minhas mos, do meu corpo...
         Jssica pensou, nervosa, no sangue mouro que corria nas veias de Sebastin e na decantada sensualidade que ele havia herdado atravs daquele sangue. Sentiu
uma onda de calor invadir-lhe o corpo. Estava apavorada. Ele estava convicto de que fosse uma mulher experiente...
        Ela estremeceu. Sebastin a olhou pensativo e se afastou da cama, voltando com um copo de champanhe.
        - Beba isto. Est gelado.
         Jssica engasgou, deixando cair um pouco de champanhe entre os seios.
        - Dios, como a desejo! - Sebastin inclinou a cabea e passou a lngua no lugar onde havia cado a bebida.
        Uma sensao de amolecimento se apoderou de Jssica. As mos dele a agarraram pelos quadris e sua boca continuava a explorar-lhe os seios, ora delicadamente,
ora agressivamente.
         Jssica esqueceu o medo. Tudo o que mais queria estava ali, ao seu alcance. Passou as mos pelos cabelos de Sebastin, soltando um gemido de prazer, quando
os lbios dele deslizaram at sua cintura.
        - Voc est muito impaciente - ele murmurou. - Temos a noite toda pela frente...  Sua pele  to doce e tenra como um pssego...  firme e tentadora...
        As mos de Sebastin acariciavam-lhe o corpo agora, de maneira cada vez mais ertica.
        - Sebastin...
        - Como  doce ouvir meu nome em seus lbios... Como seria doce sentir seus lbios em meu corpo, querida...
        Ele se movimentou um pouco e Jssica teve plena conscincia de como estava excitado. Uma sensao de languidez se apoderou dela, fazendo-a perder completamente
o medo. Com dedos trmulos, comeou a desabotoar a camisa de Sebastin, acariciando-lhe o peito e as costas. Ele reagiu imediatamente quele contato, incitando-a
a roar seus lbios pelo corpo dele.
        - Dios, Jssica - arquejou, conforme ela passava a lngua, suavemente, pela linha do seu pescoo. Suas mos estavam cruzadas agora na nuca dele e os movimentos
sensuais de seu corpo eram um convite ao amor.
        Ele pegou-a pelo queixo e beijou-a com ardor. Foi um beijo profundo e prolongado. Suas mos movimentavam-se sensualmente pelo corpo dela, excitando-a cada
vez mais.
        Com os olhos brilhantes, Sebastin lhe pediu que o ajudasse a se desvencilhar da cala. Despudoradamente, ele se levantou por um breve momento e se deixou
contemplar inteiramente nu. Seu corpo bronzeado ficava com uma colorao dourada  luz da lmpada. Jssica o olhava maravilhada.
        - Voc est me olhando como se nunca tivesse visto um outro homem antes, querida. Esse olhar  uma tentao e eu estou mais do que desejoso de ser tentado.
        Ele se reclinou sobre ela, pegando-lhe os seios na mo. Abaixando a cabea, roou os lbios em seus mamilos at tomar-lhe o seio na boca. Jssica sentia-se
arder por dentro. Os lbios de Sebastin percorriam-lhe o corpo todo, tirando-lhe sensaes jamais conhecidas.
        Uma necessidade de retribuir aquela descoberta maravilhosa de seu prprio corpo fez com que Jssica levasse os lbios ao peito dele, repetindo as mesmas
carcias. Sebastin vibrou de prazer. Depois, pressentindo que o desejo de Jssica chegava a ser quase insuportvel, ele a fez entreabrir as coxas.
        Os lbios dele a beijavam agora de maneira possessiva. Seu corpo estava preparado para possu-la. Subitamente, o medo voltou a tomar conta de Jssica quando
Sebastin hesitou e pressionou forte seu corpo no dela.
        Havia dor e raiva nos olhos dele, uma raiva que a fez fechar os olhos para no v-lo.
        Lgrimas escorriam pelo rosto de Jssica, quando a dor aguda terminou, tirando-lhe toda a euforia do prazer que sentira antes.
        - Virgem! Voc era virgem! - acusou-a Sebastin.
        Em p ao lado da cama, j com um robe de seda cinza, cabelos despenteados e uma expresso amarga no rosto, ele lhe perguntou:
        - Por que no me contou antes?
        - Como podia? - Jssica balbuciou. - Ia lhe contar quando voc comeou a me dizer como estava contente por eu ser uma mulher experiente... De qualquer jeito,
acho que no pode se queixar - acrescentou, num tom revoltado. - No  qualquer homem que tem o privilgio de ter duas noivas virgens... Apesar,  claro, que no
caso de Manuela...
        As feies de Sebastin se enrijeceram. Jssica teve a sensao de que, se no fosse mulher, ele a espancaria.
        - Devia estar satisfeito - ela continuou, sem ligar para o seu sexto sentido que a advertia para no ir longe demais. - Pensei que inocncia e pureza fosse
o que todos os Calvadores desejassem de suas noivas!
        - Devia ter me dito - ele repetiu, gelado.
        - Por qu?
         Jssica estava quase chorando. Tudo tinha sido um desastre. No ntimo de seu corao, alimentava a esperana de que a constatao de que ela era virgem
pudesse aproxim-lo dela, mas, pelo contrrio...
        - Para que voc tivesse sido menos... abusivo? E faria diferena? De qualquer jeito iria doer - desabafou, amarga.
        Era uma acusao infantil. Na verdade, seus sentimentos estavam mais machucados do que seu corpo. Sebastin fechou a cara.
        - Nesse caso, pode ter certeza de que nunca mais vou... machuc-la novamente. No quero nenhum sacrifcio na minha cama - declarou, cruel.
        - Para isso existe Pilar, no ? Para consol-lo... Ela pelo menos no  nenhuma virgenzinha trmula para ficar chocada e ferida com suas...  exigncias!
        Ele riu amargamente.
        - Minhas exigncias, como voc diz, so iguais s de qualquer homem excitado. Meu erro foi desejar compartilh-las com voc. Voc simplesmente preferia permanecer
uma puritana frgida. Pois pode ficar assim!
CAPTULO VIII
        Tudo acabara dando errado, para tristeza de Jssica. Conversava com tia Sofia e tinha Lisa no colo. As trs estavam na sala, tomando caf e comendo deliciosos
biscoitos de nozes.
        Tia Sofia informou a Jssica que aguardavam a visita do padrinho de Sebastin e de sua filha.
        - Querida, no est se sentindo bem? - perguntou a Jssica, com ar de sincera preocupao. - Est plida... Tem ficado muito tempo trancada, trabalhando
nesses malditos desenhos de Sebastin! Precisa sair um pouco.
        -  mesmo, voc prometeu ir passear comigo - interveio Lisa. Garantindo a ambas que estava bem, Jssica esboou um sorriso forado, para tranqiliz-las.
No ntimo, porm, sabia que no podia estar pior.
        No se conformava com que duas pessoas compartilhassem da mesma intimidade e vivessem to isoladas uma da outra. De incio imaginara que Sebastin fosse
sugerir que ocupassem quartos separados. Achava que ele no iria querer dividir seu dormitrio com ela depois do que acontecera. Para sua aflio, porm, ele no
fizera essa sugesto. Talvez o tremendo orgulho dos Calvadores o impedisse de admitir que no viviam como marido e mulher. Qualquer que fosse a razo, porm, ela
era obrigada a engolir a humilhao, noite aps noite, de t-lo deitado a apenas alguns centmetros dela, numa atitude de quem estivesse separado por um oceano.
        O estado fsico de Jssica comeava a ser revelador. Mais de uma vez, surpreendeu um olhar de pena nos olhos de tia Sofia. Perguntava-se se ela desconfiava
da verdade.
        Lisa insistiu que queria passear com ela. A menina estava usando um de seus vestidos empetecados. Apesar de lindo, Jssica gostaria de v-la usando short
e camiseta, se sujando, tendo uma vida mais natural.
        - Queria que tio Sebastin estivesse com a gente - Lisa confessou quando atravessavam o jardim. - Quando ele vai voltar de Sevilha?
        - Hoje  noite - Jssica respondeu, procurando no demonstrar a emoo que sentia cada vez que pensava em Sebastin.
        Ela o tinha visto zangado antes, mas nada era pior do que a indiferena dele. Como fora tola em pensar que seu amor era a chave para o corao de seu marido!
Depois daquela noite, Sebastin no queria nem seu amor nem seu corpo.
        - Vou lhe mostrar o meu esconderijo - Lisa props com ares de importncia. - Ningum sabe dele. S ns... e tio Sebastin.
        Pegando-a pela mo, a menina levou-a at o estbulo. Seu pnei relinchou ao v-la passar.
        - H muito tempo era aqui que faziam o vinho - contou Lisa, sentindo-se cada vez mais importante. Abriu uma porta que dava para uma espcie de depsito.
L havia alguns tonis antigos e vrios barris. -  aqui embaixo, venha!
         Jssica seguiu a menina at um canto da construo e ficou surpresa ao v-la abrir uma outra porta. Diante da escada estreita e escura que saa dali, ela
estremeceu, sentindo uma certa relutncia em descer. Sempre detestara a idia de ficar no subsolo, mas Lisa, pelo visto, no possua escrpulos.
        -  divertido, no ? - perguntou, eufrica, descendo com uma agilidade que demonstrava conhecer bem o caminho. Jssica precisou inclinar a cabea, devido
ao teto baixo. Estavam num compartimento retangular, quente e abafado, iluminado por uma nica lmpada, cujo fio corria por toda a extenso do teto.
        Sem se dar conta do desagrado de Jssica quanto ao seu to valioso esconderijo, Lisa exultava de prazer:
        - Ningum nunca vem aqui. H muito tempo isso era usado para guardar os barris.
         Jssica estava decidida a conversar com Sebastin e pedir a ele que no permitisse a Lisa perambular por lugares to perigosos como aquele. Subiram novamente
as escadas e apagaram a luz. Sentia o sangue gelar s de pensar no que poderia acontecer a Lisa, sozinha ali. O teto no oferecia a menor proteo. Pde notar at
vrias rachaduras.
        Voltavam para casa quando Jorge, inesperadamente, veio ao encontro delas. Pelo seu cabelo despenteado, podia-se perceber que estivera andando a cavalo.
        " um jovem, atraente", Jssica pensou, sorrindo amistosamente para ele. S que no era Sebastin!
        - Tio Jorge, tio Jorge, me ponha no cho! - Lisa protestou, rindo, quando ele a levantou nos braos, fazendo-a girar.
        - S depois que voc me der um beijo - ele prometeu. Mais que depressa Lisa obedeceu e Jssica sorriu.
        - Ah, ento esse  o segredo de seu grande charme,.no ? - brincou ela. - Ganha beijos fazendo ameaas?
        - Tome cuidado seno fao a mesma coisa com voc - Jorge replicou, em tom de brincadeira.
        No mesmo instante, veio a advertncia sincera de Lisa:
        - Voc no pode beijar Jssica, porque ela  casada com tio Sebastin!
        - Cuidado com a boca das crianas - Jorge cochichou, dando um olhar compreensivo para Jssica. - Mas bem que eu gostaria de tentar. Meu irmo  um homem
de muita sorte.
        Ainda riam quando chegaram ao jardim. Jorge passava um brao pelos ombros de Lisa e o outro pela cintura de Jssica, numa atitude protetora.
        O sorriso, porm, morreu no rosto de Jssica quando deu com a expresso zangada de Sebastin. Ele estava sentado no terrao com a tia e Pilar. De repente,
ela se deu conta de sua aparncia desarrumada e do brao de Jorge em sua cintura.
        - Jssica, esqueceu-se de que Pilar vinha visit-la agora  tarde? Jssica dirigiu um olhar surpreso a Pilar, cujo rosto, muito bem maquilado, estava impassvel.
Pelo que sabia no haviam combinado coisa alguma, e nem teriam razo para combinar. No gostava de Pilar e a recproca era verdadeira. No podia mesmo gostar dela,
se no tivesse outra razo, seria suficiente a maneira como tratava Lisa, que, afinal, era filha de sua irm.
        Para evitar qualquer discusso, Jssica desculpou-se e ia pedir licena para subir, a fim de se arrumar, quando, para seu espanto, Pilar falou:
        - Est tudo muito bem, Jssica. Acho at compreensvel. Quando se tem um acompanhante to atraente, at se esquece dos compromissos com as amigas...
        Sebastin no podia parecer mais zangado. Jssica mordeu os lbios. Esperava que ele no fosse acreditar que deliberadamente esquecera um compromisso com
Pilar. O pior era que Jorge olhava de maneira evasiva para o irmo e no tinha coragem de abrir a boca e explicar que haviam casualmente se encontrado no estbulo
e voltado para casa juntos.
        Lisa, sentindo a atmosfera tensa, procurou a mo de Sebastin. Seu rostinho estava ansioso. Nas pontas dos ps ela o olhava, sem que ele se desse conta de
sua presena.
        De repente, a menina perdeu o equilbrio e, para no cair, se agarrou no brao de Pilar, que, desequilibrada entornou o copo de vinho sobre o seu finssimo
vestido de seda creme. Com um grito de raiva, Pilar pousou o copo sobre a mesa, pegou a menina pelos ombros e a sacudiu violentamente.
        - Assim  demais, querido! - queixou-se a Sebastin. - Essa criana  desajeitada e sem modos. J lhe disse antes, precisa ser mandada para um convento para
aprender boas maneiras... Aquilo que  um comportamento adequado numa casa inglesa pode no servir para nosso povo. Talvez devesse explicar isso  sua esposa, pois
 evidente que ela est estimulando Lisa a se tornar selvagem. Menina desastrada! - esbravejou, voltando-se para Lisa, que, assustada tinha os olhos castanhos muito
arregalados. - Quando eu era criana, levava uma surra e ficava de castigo em meu quarto o resto do dia por uma mal-criao dessas!
         Jssica estava louca para interferir. Sentia o sangue fervendo de raiva. Achava inadmissvel que Pilar aterrorizasse a criana daquele jeito.
        - Talvez tenha razo, querida - ouviu Sebastin responder, secamente. - Lisa, pea desculpas a sua tia e depois v para seu quarto...
        - Provavelmente a culpa  mais de Jssica do que dela - Pilar acrescentou maldosa. - Viu como a criana est suja? Deve estar superexcitada...
        - Minha mulher parece mesmo ter esse poder com algumas pessoas - concordou Sebastin. - Lisa, disse j uma vez que  para voc ir para o quarto, no vou
dizer a segunda!
         Jssica percebeu que tia Sofia no estava agentando aquela injustia, mas sentia-se impotente para reagir. Sem conseguir se conter mais, a indignao de
Jssica transbordou:
        - Ser que no viram que foi um acidente?! - interrompeu esquentada. - Coitadinha da Lisa, tem tanta culpa quanto... qualquer um de ns. Sebastin, eu...
        - Cuidado, Jssica - caoou Pilar. - Sebastin no gosta de que suas decises sejam questionadas, no , querido?
         Jssica ignorou a observao.
        - Venha, Lisa, vou lev-la para cima - disse  menina, com ternura, sentindo um aperto no corao ao notar a expresso dos olhos dela.
        "Acabou de ver seu dolo cair do pedestal", pensou Jssica, sem entender por que Sebastin havia sido to rude.
        O jantar, que era sempre uma ocasio formal na casa dos Calvadores, estava insuportavelmente tenso nessa noite. Jssica sentia-se deslocada e recusou a sobremesa.
        - O senor Alvarez e Lusa chegam amanh. Voc vai busc-los no aeroporto? - perguntou como para romper o silncio.
        - Tenho alguns desenhos para terminar - respondeu Sebastin, que quase no havia falado com ningum durante a refeio.
         Jssica estava achando-o excepcionalmente tenso e se perguntava se ele estaria to arrependido quanto ela de ter se casado.
        - Posso ir - prontificou-se Jorge. - Poderia levar Jssica e Lisa comigo - completou, dirigindo-se ao irmo.
        - Acho melhor no - interrompeu-o Sebastin, friamente. - O carro vai ficar lotado com cinco pessoas. Alm disso, j est na hora de Lisa aprender a importncia
das boas maneiras. Vai ficar em casa amanh como lembrete.
        - Isso se aplica a mim tambm? - Jssica perguntou, com o rosto pegando fogo de raiva. - Vou ser mandada para o quarto por ter esquecido o compromisso com
Pilar?
        Sebastin comprimiu os lbios.
        - Lisa est numa idade em que ainda  possvel moldar sua personalidade. Lamentavelmente voc no est mais. Agora, se me derem licena, tenho servio a
fazer.
        - Arre! Ele est com um pssimo humor hoje, hein? Vocs brigaram? - quis saber Jorge.
         Jssica teve vontade de soltar uma gargalhada. Para brigarem precisariam falar, repartir emoes. Definitivamente, no eram ntimos sequer para brigar.
        - Sebastin est cansado - tia Sofia justificou-o. - Tem trabalhado muito. Bem que o avisei...
        - No sabia que Pilar pretendia vir me visitar - Jssica explicou  tia, no desejando que ela a considerasse indelicada.
        - Pilar sempre foi muito possessiva em relao a Sebastin, o que s vezes a faz demasiado impulsiva em suas atitudes. Tenho certeza de que no teve a inteno
de causar qualquer atrito entre vocs.
         Jssica no respondeu. No tinha dvidas de que era exatamente o que Pilar queria, mas no ia admitir isso aos outros.
        - Sebastin lhe falou alguma coisa sobre Brbara? - Jorge lhe perguntou meia hora mais tarde, quando caminhavam pelo jardim.
        - No, absolutamente nada - respondeu-lhe Jssica, sentindo vontade de acrescentar que ele mal falava com ela.
        - Sei que ele est aborrecido comigo, mas no posso me casar com uma mulher que no amo.
        - Claro que no - Jssica concordou, imediatamente endossando a causa dele.
        O jardim, iluminado pela Lua cheia, refletia um tom prateado. O ar estava morno, talvez at morno demais, e extremamente parado.
        - No vai ser surpresa se logo tivermos uma tempestade - Jorge comentou quando se encaminhavam para casa. - Estamos precisando urgente de chuva. A primavera
foi muito seca. - Seus braos se roaram por um instante e ele a fez parar, subitamente, colocando-lhe a mo no ombro e fazendo-a voltar-se para ele.
        - Voc  to diferente de sua prima... - disse-lhe com ternura. - Ela gosta de tirar o que pode dos outros, enquanto voc gosta de dar. Tome cuidado para
no dar a meu irmo mais do que ele merece. Desde que Manuela morreu, Sebastin parece ter o diabo dentro dele, e no permite que seja exorcizado.
        Com os olhos marejados de lgrimas, Jssica abaixou a cabea. Apesar do conforto que sentia ao lado de Jorge, estava confusa com o que lhe dissera e se perguntava
se Sebastin ainda amaria Manuela.
        Entraram em casa e, como sempre, Jssica relutou em subir. Sebastin nunca estava l. Trabalhava at tarde, provavelmente evitando o momento horrvel de
se encontrar a ss com ela. Se contava com a possibilidade de sua virgindade aproxim-lo de si, estava agora amargamente desapontada.
        O desejo mtuo, do qual ele falava com tanta liberdade antes de se casarem, talvez nem devesse existido. Jssica no conseguia entender a razo de tamanha
mudana. S sabia que odiava as noites vazias e longas em que se deitava ao lado dele sem. poder dormir, consciente de que bastaria estender o brao para toc-lo
e que, no entanto, no podia faz-lo.
        O mais humilhante  que, apesar de tudo, morria de vontade de toc-lo e acarici-lo. Mas as palavras cruis que ele dissera na noite de seu casamento no
lhe saam da cabea e a impediam de tomar qualquer iniciativa. Por isso, era um verdadeiro tormento a lembrana do xtase que sentira nos braos dele.
        Abriu a porta do quarto e enrijeceu o corpo, surpresa ao ver a figura de Sebastin, iluminada pela luz da Lua,  porta do terrao.
        - Ento voltou. - A voz dele era seca e indiferente. - Depois do que presenciei, pensei que tivesse resolvido passar a noite com meu irmo.
        Por um momento Jssica ficou olhando-o sem entender, mas depois concluiu que devia t-los visto juntos no jardim.
        - Jorge e eu estvamos simplesmente conversando - rebateu indignada, mas logo calando-se diante da gargalhada grosseira dele.
        - Da mesma maneira que estavam simplesmente conversando esta tarde, imagino.
        Era intil tentar contar a ele que casualmente encontrara Jorge, quando voltava do passeio que fizera com Lisa. Ao pensar na menina, veio-lhe  mente sua
carinha vermelha de choro na hora em que fora lhe dar boa-noite.
        - Voc foi muito injusto com Lisa hoje  tarde - declarou zangada, disposta a defender a filha dele, se no conseguia defender a si mesma. - O que houve
foi um mero acidente, no precisava culp-la daquele jeito. Pilar procura sempre atorment-lo. Ela o adora, Sebastin, e voc foi muito cruel. No posso entender
o porqu.
        - Ah, no pode? Talvez porque um animal ferido ataque a vtima mais prxima, em sua agonia; talvez porque eu esteja saindo do srio de tanta frustrao!
- replicou agressivo. - Quando me casei com voc no foi com a inteno de que nossa unio fosse platnica.
        - Eu devia ter-lhe dito a verdade - Jssica admitiu vexada. - Eu queria, mas...
        - Preferiu que eu descobrisse da pior maneira. E depois vai procurar consolo com meu irmo.
        - Sebastin, por favor...
        - Bem, talvez voc no encontre consolo em meus braos, Jssica, mas no sou nenhum santo para queimar no fogo do inferno quando o meio de extingui-lo est
ao alcance das minhas mos. Se estava pronta a se dar a Jorge, ento agora vai se dar a mim!
        Antes que Jssica pudesse protestar, um beijo quase selvagem lhe tapou a boca, fazendo latejar cada poro de seu corpo. No mesmo instante, tudo estava esquecido,
com exceo do clamor de seu sangue, da necessidade de ser possuda por ele.
        - Eu te desejo - Sebastin murmurou quase contra os lbios dela. - Quando eu possu-la, quero que pense somente em mim, no em meu irmo, nem em mais ningum.
 meu nome que quero que pronuncie no momento da paixo;  meu corpo que vai faz-la delirar de prazer.
        Sebastin tinha o rosto iluminado pela luz do luar. Jssica podia jurar que nele estava estampada uma expresso de sofrimento. Uma ponta de cimes apertou
seu corao ao imaginar que ele talvez estivesse se lembrando de Manuela. Um pequeno gemido de protesto aflorou-lhe aos lbios, desencadeando uma reao ainda mais
feroz por parte dele. Conforme ele a despia com movimentos rpidos, Jssica sentia-se a um s tempo chocada e excitada.
        A conscincia de que ele a desejava, aumentava-lhe tambm a sensao de desejo. Trmula, ela comeou a desabotoar vagarosamente os botes da camisa dele,
e com a mo acariciou-lhe o peito. Sebastin colocou sua mo sobre a dela, mantendo-a presa junto ao seu corao. Sua respirao estava cada vez mais ofegante. O
tempo pareceu parar.
        Desta vez Jssica no se sentiu intimidada diante da nudez do corpo do marido, pelo contrrio, sentia uma enorme necessidade de toc-lo e conhec-lo nos
mnimos detalhes. Conforme seus dedos acariciaram a coxa dele, o murmrio que Sebastin soltou alertou-a da intensidade do seu desejo. As mos dele apertavam-lhe
os seios com fora e sua boca parecia querer devor-la.
        Sem a menor inibio, Jssica explorou toda a masculinidade daquele corpo que amava, sentindo crescer nele a necessidade de possu-la. Com a mesma intensidade,
ansiava tambm ser possuda. Arqueou os quadris e Sebastin gemeu de prazer contra seu pescoo, fazendo-a moldar-se, inteiramente, ao corpo dele.
        - Sebastin...
        Era bom pronunciar aquele nome e sentir as mos dele acariciando-lhe o corpo, transmitindo-lhe sensaes incrveis, mas... em vez de satisfaz-la, ele parou.
Jssica abriu os olhos e o fitou, sem entender. Um vago protesto brotou-lhe nos lbios:
        - Sebastin, por favor! - Seus dedos se cruzaram s costas dele, pressionando-as. Seu corpo precisava ser satisfeito a qualquer custo.
        - Voc me deseja.
        No foi uma pergunta, foi uma afirmao, mas alguma coisa dentro dela a fez responder:
        - Muito... muito.
        Os olhos de Sebastin tornaram-se sombrios e sua respirao ainda mais ofegante e irregular.
        - Dios, Jssica - disse-lhe cruamente - eu a desejo, apesar de saber...
         Jssica no queria de forma alguma que palavras pudessem estragar aquele momento de magia entre eles. Deitada em seus braos, sentindo todo o corpo dele
sobre o seu, estava quase convencida de que ele podia am-la. Mas, se ele falasse, se pronunciasse uma vez mais a palavra "desejo", quando o que queria ouvir era
"amor", talvez a chama que ardia dentro dela se extinguisse. Por isso, em desespero, levou a mo aos lbios dele e o fez calar. Depois puxou-o para junto dela. Contornou,
suavemente, com a lngua os lbios dele at que, possessiva, a boca de Sebastin fechou-se sobre a sua. Ele ento controlou seu desejo para que ela pudesse gozar
das delcias de seus corpos entrelaados. Entre dor e prazer, Jssica alcanou um xtase que jamais sonhara existir.
        Ao acordar na manh seguinte, estava sozinha; no havia sinal de Sebastin no quarto. Sentindo-se letrgica e fraca, Jssica levantou-se. Gostaria que o
marido estivesse ali, para tom-la nos braos novamente, desta vez para beij-la com a ternura que todo homem reserva para a mulher que ama.
        Procurou afastar esse pensamento. Esperava que a noite passada marcasse o incio de um melhor relacionamento entre eles.
        Esquecida de que ele dissera que iria para Sevilha, Jssica ficou decepcionada ao no v-lo mais em casa.
        Jorge, ainda  mesa de refeies, tentava distrair Lisa, que estava chorosa.
         Jssica comeara a acompanhar tia Sofia na distribuio do servio do dia e na discusso do cardpio. A fazenda era to grande que administrar o servio
da casa requeria uma preciso quase militar. Muitos dos empregados haviam herdado suas funes do pai ou da me e todos se mostravam muito dedicados  famlia. Passaram
a trat-la tambm com o mximo respeito e afeio. Por isso, quando comentou com tia Sofia que no conseguiria se sair to bem quanto ela, a velha senhora disse,
rindo:
        - Ora, se vai...  e no vai demorar muito. Voc tem um jeito especial para lidar com pessoas.
        "Se tenho, isso no inclui o meu marido", Jssica ruminou, revoltada.
        Lisa estava to infeliz que Jssica resolveu passar a maior parte da manh com ela. Seu trabalho com os desenhos estava praticamente completo. Dependia apenas
da deciso final de Sebastin.
        Recebera uma carta da tia, encantada com as boas notcias e repleta de votos de felicidades. Dizia que lamentavam no terem estado presentes e que Isabel
se casaria dentro de trs meses. "Claro que contamos com a sua vinda e de seu marido, a quem desejamos muito conhecer." A tia contava ainda que os pais de John fariam
a recepo na casa deles - iriam cobrir parte do jardim com toldos e estavam programando uma festa linda. "A me de John  uma esplndida organizadora, por isso
no vou ter que me preocupar com coisa alguma, alm de meu traje."
        Ao dobrar a carta, Jssica suspirara, imaginando se Isabel iria ser mais feliz do que ela. Esperava, sinceramente, que sim.
        Numa tentativa de animar Lisa, ensinou-a a jogar baralho, com um mao de cartas velhas que encontraram. Apesar de ter aprendido direitinho, a menina no
tirava os olhos da porta.
         Jssica sentiu um n na garganta. No entendia como Sebastin podia ser to cruel com ela. Podia compreender seu orgulho e at perdo-lo, mas a obstinao
em omitir a verdade  prpria filha era realmente indesculpvel.
        - Ser que tio Sebastin vai mesmo me mandar para um convento?
        - Lisa perguntou-lhe em dado momento, com o queixinho trmulo.
        - Tenho certeza que no, meu bem - Jssica procurou tranqiliz-la.
        - Mas quando vocs tiverem um beb, ele no vai mais querer saber de mim, no ? - indagou, deixando Jssica ainda mais preocupada.
        - Mas como pode pensar uma coisa dessas, Lisa?
        - Foi Pilar quem me disse.
        - Ns sempre vamos quer-la. Voc  muito especial e vai nos ajudar a cuidar de nosso beb, isso sim - garantiu-lhe Jssica, sentindo o corao apertado
ao imaginar-se me do filho de Sebastin.
        Entretanto, mais angustiada estava por constatar como a natureza humana era mesquinha. No se conformava com a atitude de Pilar. Para que Lisa, entretanto,
no percebesse como ficara contrariada, procurou desviar o assunto:
        - Afinal, o que vamos fazer hoje  tarde? Lisa recusou-se a responder.
        Logo depois do almoo, Jorge chegou com os visitantes da Amrica do Sul. Senor Alvarez, o padrinho de Sebastin, era uma pessoa muito extrovertida. Beijou
Jssica, tia Sofia, efusivamente, e seus olhos brilharam ao dizer que esta ltima no havia mudado nada.
        - Ento deve estar precisando de culos novos - Sofia respondeu, rindo. - Pois j se passaram vinte anos desde que nos vimos pela ltima vez!
        - Lembro como se fosse ontem - ele assegurou, galante. - Voc estava ento casada h uns seis meses. Ai, como invejei meu primo! Aposto que da mesma maneira
que muitos homens invejam Sebastin - acrescentou, voltando-se para Jssica. - Jorge me disse que ele foi a Sevilha a trabalho, mas que volta a tempo para o jantar.
        - Creio que sim - concordou Jssica, hesitante.
        - No deve consentir que ele trabalhe tanto. O que  isso? S trabalho e nada de diverso? No  possvel...
        - Sebastin est trabalhando a todo vapor no momento - Jorge interrompeu-o, alegre. - A pobrezinha da Lisa  que foi vtima de seu mau humor ontem... e tudo
por causa daquela peste de Pilar Sanchez.
        - Ah, essa Pilar! - exclamou o senor Alvarez, fazendo uma cara de descontentamento. - Que mulher ferina ela . Preciso tomar cuidado para proteger a minha
Lusa das garras dela!
        Ele chamou a filha para apresent-la a Jssica, que no pde deixar de notar o olhar doce com que Jorge olhava a garota. Ela era pequena e graciosa. Seus
cabelos muito brilhantes estavam puxados para trs, realando seu rosto perfeito e seus olhos muito expressivos. Jssica calculou que devia ter uns dezoito anos,
mas j demonstrava aquela inocente sensualidade caracterstica das mulheres latinas.
        A convite de Jorge, logo aps a apresentao, Lusa foi conhecer o jardim.
        - Sua filha  um encanto - Jssica comentou, depois que os dois saram.
        -  uma rosa encarnada, de ptalas aveludadas - concordou poeticamente o pai. - Muitos homens, entretanto, preferem a beleza da rosa amarela que floresce
melhor no clima frio do norte.
        O senor Alvarez viera  Espanha em viagem de negcios e lazer. Ao saber que Jssica estivera ajudando Sebastin com seus novos desenhos, ps-se a falar com
ela, com grande interesse e entusiasmo, sobre tecidos e sobre a Amrica do Sul.
         Jssica ficou fascinada; ele era, sem dvida, uma excelente companhia. Instrudo e vivido, era do tipo de pessoa que no se cansava de ouvir. Como todos
os latinos, era tambm prdigo em elogios. Sebastin nunca a havia elogiado, nem flertado com ela tampouco, deu-se conta, subitamente. Aquela pontinha de infelicidade,
que sentira ao constatar que ele havia sado sem se despedir, crescia dentro dela.
        Sebastin voltou antes do jantar. Pilar tambm fora convidada para participar da reunio, especialmente porque conhecia muito bem a famlia Alvarez.
        A indesejvel visitante chegou exatamente quando todos bebiam vinho na sala. Seu vestido de seda preto realava-lhe o tipo moreno e o corpo curvilneo.
         Jssica, em comparao, sentiu-se insignificante e desbotada em seu vestido de chiffon creme, apesar de ter gostado tanto dele na loja.
        Luisa, como convinha a uma jovem, usava um vestido branco, muito singelo. Apesar de bonito, Jssica achou que no estava  altura da beleza da moa.
        Sebastin demorara a se juntar a eles. Entrara na sala apenas uns minutos antes de Pilar chegar. Esta, assim que o viu, dirigiu-se a ele com um ar de proprietria
e enlaou-o pelo brao, rindo e brincando com o senor Alvarez.
        - Foi ver Lisa? - Jssica deu um jeito de perguntar a Sebastin, discretamente, antes de se sentarem para jantar. - Esteve chorosa o dia todo por causa de
sua zanga com ela.
        A ltima coisa que imaginava era que Pilar tivesse ouvido o comentrio. Para seu espanto, ela surgiu  frente deles, dizendo num tom forado:
        - Preciso subir para ver Lisa antes de ir. Creio que esteja passando por uma fase difcil - acrescentou, dirigindo-se ao senor Alvarez. - Receio ter sido
obrigada a me exaltar com ela ontem.
        Sua pergunta a Sebastin ficou sem resposta e Jssica achou melhor no tornar a faz-la. Todas as suas esperanas de que a exploso da noite anterior amenizasse
a atitude dele em relao a ela morreram no momento em que ele pisou na sala.
        Com o rosto impassvel, Sebastin aproximara-se dela e, polidamente, lhe perguntara como fora seu dia. Essa atitude parecia pretender coloc-la, deliberadamente,
a distncia e preveni-la de que no adiantava querer se aproximar.
        Magoada, Jssica se perguntava se o amor dele por Manuela havia sido to devastador que Sebastin jamais conseguira amar outra pessoa. Talvez a morte dela
tivesse congelado suas emoes, tornando impossvel para ele sentir qualquer coisa por uma mulher alm de mero desejo fsico.
         Jssica suspirou. Sabia que a noite  sua frente no ia ser fcil. J percebera que Jorge estava sendo mais do que simplesmente educado e atencioso com
Lusa e que ela retribua sua ateno com olhos brilhantes e sorrisos encantadores. Pelo visto, Sebastin ainda no havia notado, mas quando notasse...
        Jorge ainda no fora perdoado por recusar-se a casar com Brbara. Particularmente, Jssica achava muito errado da parte de Sebastin impor ao irmo um casamento
que ele no desejava. Aquilo, porm, era costume espanhol.
        A noite estava quente e abafada. Ouviam-se ao longe estrondos de troves. No meio do jantar, Jssica foi tomada por uma onda de enjo e mal-estar, que, felizmente,
conseguiu superar. Esperava que ningum tivesse notado, porm, em dado momento, percebeu que Pilar a olhava intrigada.
        Tentando combater o desassossego que sentia sempre que a outra a observava, Jssica procurou no comer mais. Provavelmente o calor excessivo e a tempestade
que se aproximava a faziam sentir-se to esquisita. Ainda bem que Sebastin parecia menos tenso ao conversar com o padrinho. Ouviu-o mencionar seu nome e ficou imaginando
o que poderia estar dizendo a seu respeito.
        - Seu marido estava elogiando sua habilidade como desenhista - o senor Alvarez lhe falou, com um sorriso, como se tivesse lido seu pensamento. - Me disse
que inspirao  o que no lhe falta.
        Uma vez mais Jssica percebeu o olhar maldoso de Pilar, mas procurou ignor-lo. Seu corao estava agora rejubilando-se. Sebastin a havia elogiado! Talvez,
afinal de contas, pudesse existir algum futuro para eles. Apesar de no ter pensado nisso antes, aquilo poderia ser a basca partir da qual poderiam construir um
relacionamento slido.
CAPTULO IX
        - Tia Sofia, a senhora viu Lisa?
        Jssica j estava procurando pela menina h meia hora, mas ningum a vira depois do almoo. Olhou pela janela. O cu estava escuro e chovia copiosamente.
No acreditava que Lisa tivesse se aventurado a sair com aquele tempo. Pelo rdio anunciavam a possibilidade de enchentes.
        Sebastin mostrara-se preocupado com as vinhas, apesar de que, segundo ele, nessa fase de desenvolvimento elas no corriam risco de grandes danos.
        Jorge j comentara com Jssica que os pequenos plantadores poderiam ter prejuzos, mas Sebastin e outros grandes fazendeiros havia formado uma associao
para ajud-los em pocas de dificuldade.
        - Ele leva muito a srio suas responsabilidades como chefe de nossa famlia. Meu irmo era muito jovem quando teve de assumir o lugar de meu pai.
        Naquele momento ocorreu a Jssica que se Manuela estivesse ao lado dele talvez as coisas pudessem ter sido mais fceis. Mas agora suas preocupaes mais
fortes estavam voltadas para Lisa.
        - Estou ficando seriamente preocupada com a menina - Jssica comentou com a tia. - Onde pode ter se metido?
        - Ela tem estado muito aborrecida ultimamente - concordou a velha senhora, to preocupada quanto Jssica. - Falei a Sebastin que foi muito severo com ela,
mas ele parece estar com outros problemas no momento.
        - Acho que vou subir e ver novamente se ela no est em seu quarto. Pode ter se escondido.
        - Se no a encontrar, vamos organizar uma busca. As crianas tm as idias mais estranhas quando esto aflitas.
        Mas a garotinha no estava no quarto. Ao sair, Jssica topou com Maria, a moa que cuidava de Lisa. Ela tambm a estava procurando com expresso assustada.
        - Viu Lisa? - Jssica perguntou-lhe.
        - Desde esta manh que no a vejo. A coitadinha estava muito triste. A noite passada... - A moa mordeu o lbio, pensando, hesitante.
        - Sim, diga - Jssica pediu-lhe. - O que houve a noite passada?
        - Bem, apenas a senora Sanchez subiu para v-la. Eu tinha descido para buscar um pouco de leite quente, para ajud-la a dormir, e quando voltei ouvi a voz
dela. A senora Sanchez estava muito brava. Eu a ouvi gritando, mas achei melhor no entrar. Quando ela saiu, no me viu. Entrei no quarto e encontrei Lisa chorando.
A senora lhe dissera que ela ia ser castigada por causa de suas malcriaes e que o Conde ia mand-la embora daqui, para uma escola severa e que nunca mais poderia
voltar.
         Jssica ficou apavorada. Sua fisionomia expressava o pnico que sentia. Como Pilar podia ser to desalmada? Ser que Sebastin tinha mesmo essa inteno
e no dissera nada a ela? Sem dvida, Pilar era tia da menina, mas seria natural que Sebastin tivesse consultado a prpria esposa antes de decidir mandar Lisa para
a escola...
        A inteno de Jssica era sugerir a ele que matriculasse a menina numa escola em Sevilha. Durante a semana poderiam viver com ela na casa da cidade. Como
um homem lcido e inteligente daqueles podia tratar a filha to mal?
        - Tentei consolar Lisa, mas ela s conseguiu adormecer muitas horas mais tarde. - Maria concluiu.
        - Devia ter vindo me contar. - Jssica argumentou, cheia de remorso, sofrendo ao pensar em Lisa deitada chorando, enquanto todos jantavam, indiferentes ao
que se passava com ela. - Lisa lhe disse alguma coisa hoje cedo?
        Maria sacudiu a cabea.
        - Nem uma palavra. Estava muito abatida e quieta, mas no disse nada.
        Sentindo-se mais apreensiva ainda, Jssica desceu imediatamente para contar a tia Sofia o que soubera. A expresso da velha senhora tambm no podia ser
mais aflita quando acabou de ouvir toda a histria.
        - Mas ser mesmo que Pilar disse a Lisa que Sebastin ia mand-la para a escola? No posso acreditar que ele tomasse uma deciso dessas sem comentar conosco
primeiro. Acha que pode ter sido exagero dela?
        Era uma possibilidade, mas Pilar devia ter alguma base para dizer uma coisa daquelas.
        Jorge foi chamado e posto a par dos temores das duas. O senor Alvarez, que o acompanhava, prontamente sugeriu que cada um procurasse numa parte da casa.
        - Sebastin deve ser avisado - acrescentou com convico.
        - Vou telefonar para ele - Jorge concordou. - A menos que, naturalmente... - olhou para Jssica, mas ela balanou a cabea.
        No confiava que pudesse falar objetivamente com o marido naquele momento; estava preocupada demais com Lisa. Talvez por isso estivesse agora com a mesma
sensao de nusea que sentira ao levantar-se. Imaginara, ento, que seu organismo ainda no estava habituado a jantar to tarde, mas no momento admitia que talvez
fosse de puro nervosismo.
        - No est se sentindo bem? - o senor Alvarez notou sua palidez e aproximou-se dela correndo.
        - No  nada - assegurou-lhe. - Estou bem agora. - Percebeu o olhar que ele trocou com tia Sofia e ficou meio intrigada. A tia ento lhe falou, discretamente:
        - Tenho observado que voc no tem passado muito bem ultimamente. No pode ser que...
         Jssica demorou alguns minutos para entender ao que ela se referia. Estaria grvida de um filho de Sebastin? Ainda era muito cedo para saber, mas tambm
achava muito pouco provvel. Afinal, acontecera s duas vezes...
        Uma apenas era mais do que o suficiente, lembrou a si mesma, ficando tomada de pnico. Ainda no estava preparada para a responsabilidade de ter um filho.
Seu relacionamento com Sebastin tambm era frgil demais; no tinham o direito de pr um filho no mundo com um casamento to incerto. As crianas deviam ser desejadas
e cercadas de amor e cuidados.
        Estava deixando sua imaginao ir longe demais. Provavelmente no estava grvida coisa nenhuma.
        - Sebastin est voltando imediatamente - avisou o senor Alvarez. - Enquanto isso vamos fazer o impossvel para encontr-la.
        Para alvio de Jssica, ele tomou o comando da situao. Cada um ficou com um setor da casa para fazer as buscas, com exceo de Lusa que preferiu ajudar
Jorge no setor dele.
         Jssica os acompanhou at o topo da escada. Achava uma pena que Sebastin teimasse em arrumar casamento para o irmo. Era bvio que Lusa estava pronta
para se apaixonar por Jorge, da mesma forma que ele por ela.
        Quando encontrava-se a meio caminho da parte que lhe coubera na fazenda lhe ocorreu um pensamento. Desceu rapidamente as escadas e saiu pelo jardim, ignorando
a chuva pesada, at alcanar o estbulo. Esperava encontrar Enrico, o encarregado dos cavalos, mas ele devia ter-se abrigado em outro lugar, pois no havia ningum
por ali.
        A primeira coisa que chamou a ateno de Jssica, ao se aproximar do local, foi o teto, que parecia estar cedendo sob a presso do excesso de gua. Havia
inclusive vazamento, pois o cho sob seus ps estava molhado quando entrou. Porm, procurou afastar a preocupao que o fato lhe causava e se dirigiu, apressadamente,
para a porta do poro. Abriu-a e, ansiosa, chamou por Lisa.
        A luz estava acesa e lhe pareceu ouvir uma resposta fraca quando ecoou, quase acima de sua cabea, um tremendo estouro de trovo. Jssica olhou para os degraus,
insegura. Sentia um verdadeiro pnico de descer. Lisa, porm, poderia estar l e precisando de sua ajuda. Talvez estivesse machucada, ou assustada demais. Passou-lhe
pela cabea que talvez devesse primeiro ter voltado  casa e avisado o senor Alvarez de seus pressentimentos. Estava comeando a pensar se no seria melhor voltar,
quando ouviu um rudo. Apurou os ouvidos e tornou a escut-lo. Lisa estava l!
        - No se preocupe, Lisa! - gritou. - Estou descendo.
        Havia quase chegado embaixo quando ouviu um barulho pesado. Procurou se convencer de que escutara um outro trovo, mas intuiu que era algo pior. O teto devia
ter rudo sob a presso da gua! No queria nem pensar. Sentia-se tomada de pavor. Passou a mo, protetoramente, sobre o abdome e, naquele momento, teve a revelao
de que queria o filho de Sebastin.
        O pensamento de que talvez j o tivesse gerado dentro de si fez com que Jssica se sentisse ainda mais responsvel em relao a Lisa. Quase tropeando, desceu
os degraus e ps-se a procurar a menina, desesperada, at que a localizou a um canto, na outra extremidade, com o rostinho congestionado de tanto chorar.
        - Oh, Lisa!
        - Jssica, no consigo me levantar - disse a menina, chorando. - Ca e machuquei meu tornozelo. Pensei que nunca mais fosse sair daqui...
        - Tudo bem, querida, est tudo bem - Jssica confortou-a. - Vamos, agora no precisa chorar mais. Deixe-me ver - disse, com carinho, abaixando-se ao lado
da menina e passando a mo por toda a extenso da sua perna at o tornozelo. Felizmente no estava quebrado, mas no poderia arriscar Lisa a for-lo com seu peso.
Teria de carreg-la.
        - Ponha os braos em volta do meu pescoo e segure firme. Talvez doa um pouco, mas pense que assim logo vamos chegar em casa. Voc nos deu um susto - continuou,
falando para distrair a menina. - Sabe que at o tio Sebastin est vindo de Sevilha para nos ajudar a procur-la?
        - No deixe que ele me mande para a escola interna - Lisa implorou chorosa.
        - Foi por causa disso que veio para c, para no ter de ir  escola? Lisa sacudiu a cabecinha.
        - S queria pensar...
        As duas estremeceram ao ouvir um outro barulho forte, acima delas.
        -  apenas um trovo - Jssica afirmou.
        Levantou os olhos e viu, para seu horror, uma enorme fenda no teto. A lmpada balanava muito at que o poro ficou imerso na escurido. Sem poder enxergar,
os ouvidos dela ficaram ainda mais atentos. Percebia que cada vez mais caam detritos do teto pela fenda. No podiam ficar nem mais um minuto ali.
        - Temos de ir - disse  menina e ficou aliviada quando, mais compreensiva do que podia imaginar, Lisa lhe respondeu assustada, mas objetiva:
        - Temos mesmo, seno o teto pode cair em cima da gente, no ?
        - Segure-se bem.
        Precisariam se guiar pela parede para encontrar as escadas. Jssica ouviu o barulho de alguma coisa que se quebrava. Abaixou a cabea para proteger Lisa
da sujeira e da gua que caam do buraco no teto. Tateando, foi procurando o caminho e quase chorou de emoo quando sentiu o primeiro degrau.
        Estava apavorada que pudessem ficar soterradas ali. Seu corpo tremia, quando chegou ao topo da escada. Procurou a maaneta e empurrou a porta, mas esta se
recusou a abrir. Tentou novamente, forando-a com o prprio corpo, mas no adiantou.
        - Alguma coisa deve t-la bloqueado.
        - O que vamos fazer? - Lisa perguntou, apreensiva, ignorando, porm, a gravidade da situao.
        - Vamos nos sentar aqui e esperar que algum venha abri-la - Jssica respondeu, procurando parecer calma.
        - Mas ningum sabe que estamos aqui!
        A menina tinha conscincia da terrvel verdade. O que poderia lhe dizer? Respirando fundo, Jssica mentiu:
        - Ah, sabem sim. Eu falei a Jorge que voc talvez estivesse aqui. No lhe disse nada antes porque sabia que voc no queria que eu contasse a ningum sobre
seu esconderijo.
        - Agora quatro pessoas j sabem - Lisa replicou, em sua ingenuidade infantil. - Voc, eu, tio Sebastin e tio Jorge.
        Ento, Sebastin sabia, mas ser que lhe ocorreria procurar por elas naquele lugar? Provavelmente algum perceberia que o teto havia rudo, mas podiam no
se dar conta de que as duas tivessem presas no poro.
        Os piores pensamentos comearam a passar pela cabea de Jssica. Teve mpetos de gritar e bater na porta com fora at que cedesse. Mas no podia apavorar
Lisa.
        Nunca teria certeza se estava grvida mesmo. Pobre Sebastin, iria perder outra mulher e desta vez... Jssica suspirou e estremeceu, sentindo o frio cortar-lhe
a pele.
        Lisa batia os dentes. Usava apenas um vestido leve. Jssica tirou seu prprio casaco, colocando-o sobre os ombros dela e puxando-a para junto de seu corpo.
        Parecia que estavam ali h uma eternidade. Os nicos sons que quebravam o silncio eram os de suas prprias vozes e os provocados pela ruptura do teto. Lisa
comeou a chorar.
        - Vamos ficar enterradas aqui para sempre - soluou. - No vamos nunca mais sair daqui!
        - Claro que vamos. Oua, vou lhe contar uma histria, quer? Jssica comeou a inventar personagens e situaes, mas percebia que Lisa estava muito pouco
concentrada.
        - Pare! - a menina pediu em dado momento. - Jssica, acho que ouvi alguma coisa.
        Com o corao disparado, Jssica se calou e ficou prestando ateno. Sim, podia ouvir sons... muito fracos, mas diferentes dos provocados pela queda de detritos.
        - Vamos gritar - props Lisa. - Assim ficam sabendo que estamos aqui.
        - No,  melhor batermos na porta - argumentou Jssica, temendo que se gritassem as reverberaes pudessem fazer o teto vir abaixo de uma vez.
        Bateram, mas no houve resposta. Por mais que aguassem seus ouvidos, no ouviam coisa alguma do outro lado da porta. Provavelmente haviam imaginado aqueles
rudos. No devia ter ningum ali; ou pior, talvez algum tivesse estado ali e ido embora.
        -  melhor continuarmos batendo - disse a Lisa, desolada, mas tentando fazer com que a criana no esmorecesse.
        J estava com o pulso doendo. No era fcil ter de dar apoio a Lisa e bater na porta ao mesmo tempo.
        Finalmente, no havia mais dvida, algum estava respondendo s suas batidas. A resposta soava muito leve, mas no podia haver engano. Para ter certeza,
Jssica tornou a bater e o mesmo tipo de batida fez-se ouvir de volta.
        Lgrimas de alvio escorriam-lhe pelo rosto. Estava com o peito apertado de dor e nem sabia o que pensar.
        Os sons pelo lado de fora foram ficando cada vez mais fortes. Em contrapartida, era cada vez maior a queda de detritos, agora alcanando os prprios degraus
da escada.
        " uma luta entre a vida e a morte", Jssica pensou, estremecendo. O salvamento delas seria o prmio.
        - Quanto tempo ser que ainda vai demorar? - Lisa perguntou-lhe, batendo o queixinho. - Estou com tanto frio, Jssica!
        - Agora no vai demorar muito - procurou tranqilizar a menina. No enxergava nada no escuro, mas sabia que deviam estar serrando a porta. A poeira caa-lhe
no rosto.
        Finalmente, surgiu um facho de luz e Jssica pde perceber um pequeno buraco.
        - Jssica? - a voz apreensiva era de Sebastin. - Onde vocs esto?
        - Aqui, no alto da escada - Jssica respondeu, abraando Lisa.
        - Preste ateno. O teto desabou e a porta est emperrada. Vamos serr-la pela metade, no se assustem, e, por favor, no se movam de onde esto. O piso
deve ter cedido e, se sarem da, os degraus podero cair com seu peso. Est tudo bem?
        - Apenas o tornozelo de Lisa deve estar contundido. Podia-se ouvir a movimentao atrs da porta. O pequeno facho de luz comeou a crescer e, finalmente,
Jssica pde ver o rosto de Lisa. Constatou, ento, como era precria a posio das duas.
        No lugar do poro existia apenas um monte de entulho. Vrios degraus j mostravam rachaduras. Finalmente, parou o barulho da serra e a luz invadiu o local.
Jssica levantou os olhos cheios de amor e alegria ao ver Sebastin.
        - Tire Lisa primeiro - disse a ele, levantando a criana. O rosto dele estava sujo e o cabelo despenteado. Era estranha a expresso de seus olhos.
        - Sebastin, apresse-se, num minuto tudo vai ruir! - ouviu Jorge recomendar mais para trs.
         Jssica ento deu-se conta de que Sebastin estava sozinho naquela parte arriscada do prdio. Ela tambm precisaria de ajuda para poder sair dali, mas,
enquanto ele fosse levar Lisa para um lugar seguro, teria de ficar sozinha.
        Como se pressentisse seu medo, ele hesitou por um momento. Jssica, porm, forou um sorriso e levantou Lisa para ele. Ele pegou a menina e se afastou rapidamente.
        Vendo-o desaparecer, Jssica teve a pior sensao de medo e abandono de sua vida. Agarrou-se  porta, tentando subir para pul-la, mas foi em vo. Estava
tomada de pnico. Atrs dela, fez-se ouvir um estrondo e metade dos degraus desapareceram, deixando-a pendurada  porta.
        - Jssica, Jssica, est tudo bem, voc j est comigo!
        Os braos fortes de Sebastin tinham envolvido seu corpo e sem hesitar ela se agarrou a eles.
        Somente quando se viu. fora dali, Jssica pde perceber os riscos que Sebastin havia corrido. O prdio tinha rudo completamente. Mal os dois se afastaram,
ouviu-se um barulho seco. Levantando a cabea, Jssica viu o cho deslizar, levando o restante do prdio com ele.
        - Foi por causa, dessas chuvas pesadas - Jorge dizia, quando Sebastin se aproximou dele.
        O senor Alvarez, ao lado dele, segurava Lisa. Os dois homens estavam molhados at os ossos. Seus rostos revelavam angstia e tenso.
        Ainda chovia. Jssica pensou que nunca fora to bom sentir a chuva em sua pele e pouco lhe importava o vento frio.
        - Se Sebastin no tivesse se lembrado do esconderijo de Lisa, provavelmente nunca as encontraramos - o senor Alvarez comentou, com ar grave, enquanto se
dirigiam, apressadamente, para casa. - Foi um verdadeiro milagre que tivesse chegado a tempo.
        - Ainda bem - ela concordou, estremecendo sob o calor dos braos de Sebastin.
        Aflita, tia Sofia aguardava na casa. Sua expresso desanuviou-se um pouco ao v-las nos braos de Sebastin e Jorge.
        - Lisa machucou o tornozelo - Jorge avisou. - Ser que o doutor...
        - Vou cham-lo j... mas antes temos de lev-las para cima para tirar essas roupas molhadas.
        - V com Lisa, tia Sofia - Sebastin aconselhou. - Eu cuido de Jssica.
         Jssica quis protestar, quis dizer a ele que no lhe desse ateno se no podia lhe dar amor. Estava enfraquecida e suscetvel e no seria difcil, naquela
situao, que extravasasse seu amor por ele, amor que ele no queria.
        Sebastin a levou para um quarto que ela no conhecia, finamente decorado em tons de creme e verde.
        - Creio que vai preferir ficar sozinha - disse-lhe quase gentil, colocando-a na cama. - Este quarto era de minha me. Faz parte da sute que ela ocupava
com meu pai. Uma vez ela falou que quando eu me casasse minha mulher sempre dormiria comigo, mas h ocasies... - ele parou  porta. - Sinto muito pela criana.
No imaginei que pudesse acontecer.
         Jssica ficou confusa. A que criana ele se referia. Ser que... Mas...
        Ele foi at o banheiro e reapareceu alguns minutos depois, com uma esponja e uma toalha.
        - Tia Sofia me contou - ele esclareceu baixinho. - Ela estava muito preocupada com voc e achou que eu devia saber.
        - Mas pode estar enganada - argumentou Jssica, com dor no corao. Era evidente que ele no a queria, nem  criana.
        - Talvez. - Sebastin no parecia convencido. - Vamos, deixe-me limp-la, vai se sentir melhor. Depois a deixo em paz.
        Ele limpava-lhe as manchas de p e sujeira, como se Jssica tivesse a idade de Lisa. O calor do quarto comeou a faz-la sentir-se sonolenta.
        Sebastin terminou a tarefa e foi buscar a toalha. Jssica o olhou fixamente. Seu rosto estava quase austero.
        - Foi uma sorte terem se salvado - ele declarou, como se falasse consigo mesmo.
        - Sorte foi voc saber do esconderijo de Lisa - admitiu Jssica. Os lbios dele se apertaram, como se fosse dizer mais alguma coisa, mas ele simplesmente
a secou com a toalha, puxou os lenis e a cobriu.
         Jssica teve mpetos de lhe passar as mos pelo pescoo e de pedir a ele que ficasse com ela, que era do calor do corpo dele que precisava. Mas de que adiantaria,
se Sebastin no a queria, se no queria aquele filho, e, provavelmente, desejaria jamais ter-se casado com ela?
        Ela estava quase adormecendo quando o mdico chegou, acompanhado de tia Sofia. Ele examinou-a detalhadamente, depois sorriu-lhe:
        - A senhora est grvida, no? - Felizmente sua gravidez est bem no incio - declarou calmamente. - Caso contrrio...
        Diante da confirmao de que carregava no ventre o filho de Sebastin, lgrimas vieram aos olhos de Jssica. Queria que tudo fosse muito diferente, que ele
desejasse aquela criana como ela prpria j a desejava.
        Quando Jssica acordou, o dia j havia amanhecido. Imaginou que deviam ter-lhe dado alguma coisa para dormir. Depois lembrou-se que no estava em seu quarto
e os mais angustiosos pensamentos passara-lhe pela cabea. Perguntava-se a razo de Sebastin t-la afastado de seu quarto e se martirizava ao pensar que o fato
de estar grvida o fizesse recordar o passado e Manuela, a quem amara como nunca a amaria.
        A manh arrastava-se. Jssica teria de permanecer em repouso por vrios dias, segundo tia Sofia lhe dissera. Ficara sabendo tambm que o tornozelo de Lisa
estava mesmo contundido.
        - E Sebastin? - Jssica perguntou, sem esconder a ansiedade.
        - Teve de ir a Sevilha a negcios - a tia evitara seus olhos.
        - Vem v-la quando voltar. No se preocupe, Jssica. Pense apenas na criana que vai nascer e no perca as esperanas.
        Mais tarde, Pilar apareceu. Como sempre, estava impecavelmente vestida, e com uma maquilagem digna de capa de revista.
        - Ah, que bom que est acordada! - exclamou, com um sorriso traioeiro que Jssica temia. - Podemos conversar um pouco.
        - Sobre o que quer conversar?
        - Ora, sobre Sebastin,  claro, e essa sua loucura de acreditar que poderia agarr-lo. Ele apenas se casou com voc por piedade. Foi evidentemente forado
porque achou que havia comprometido sua moral. Deve saber disso, no?
        Claro que Jssica sabia, mas no pretendia ouvi-lo daquela megera.
        - Agora voc est grvida e acredita, tolamente, que isso vai lhe dar acesso ao corao dele. Est redondamente enganada. O corao de Sebastin...
        - Pertence a sua irm. Sim, j sei - Jssica concluiu, saturada.
        - S que sou a esposa dele, Pilar, e vou ter um filho.
        -  mulher dele e dormem em quartos separados - Pilar ironizou.
        - Vai ter um filho... Bem, mas a coisa mais fcil para um homem  ter filhos. No pode esperar prend-lo por causa disso.
        - Onde voc quer chegar, Pilar?
        - Acho que seria melhor voc ir embora por conta prpria, antes que lhe pea para faz-lo. Voc deve saber muito bem que ele no a deseja; que o casamento
de vocs foi um erro desde o princpio.
         Jssica estava abalada demais para pronunciar uma palavra. O pior era que tudo o que Pilar lhe dizia parecia ser a expresso da verdade.
        - Se Sebastin a desejasse, por que ele haveria de mud-la para este quarto? - prosseguiu ela, com ar de desdm. - Ele  um homem sensual e viril, no do
tipo que se conformaria em dormir separado da mulher. A menos,  claro, que estivesse tentando faz-la entender alguma outra coisa.
        Depois, aparentemente satisfeita, Pilar se levantou.
        - Bem, vou deix-la agora - falou, com uma falsa doura, encaminhando-se para a porta. - Pense bem no que lhe disse e, tenho certeza, logo ver que  verdade.
         Jssica sentia na boca o gosto amargo da derrota. Tentara lutar para conseguir o amor de Sebastin, mas suas armas mostravam-se ineficientes. Pilar estava
certa desta vez, Sebastin no a desejava. Se ainda possua algum orgulho, algum amor-prprio, s lhe restava partir e o mais breve possvel.
        CAPTULO X
        - Como est se sentindo, Jssica?
        - Um pouco melhor, Jorge, obrigada.
        - Tia Sofia disse que voc est suficientemente bem para receber visitas, mas que no devo cans-la.
         Jssica sorriu.
        - Voc sabe que no me cansa. Como est Lisa? Ainda no a vi.
        - Aparentemente se recuperando mais rpido do que voc.
        - Que bom.
        - O dr. Bartolo disse a Sebastin que se voc no a tivesse protegido do frio com seu casaco Lisa poderia estar bem pior. Ela tem um probleminha nos pulmes
- explicou-lhe. - Algo que herdou da me. Com excesso de frio poderia ter se agravado. Mas  com voc que ele est preocupado. Disse que est muito plida e abatida.
Acho que est um pouco plida mesmo.
        -  apenas um pouco de cansao. Como esto os demais, o senor Alvarez e Lusa?
        - timos, mas logo vo nos deixar. Alis, o senor Alvarez me convidou para ir visit-los na Argentina...
        - Imagino que voc logo tenha aceitado.
        - No, vai depender de Sebastin me deixar ir.
        - Falou com ele sobre como se sente em relao a Lusa? Jorge meneou a cabea.
        - Nunca o vi to inacessvel. Simplesmente no sei o que h com ele.
        Bem que Jssica o sabia. Ele devia estar sentindo a angstia de se ver amarrado a um casamento que no queria. Pilar tinha razo. Talvez fosse melhor ir
embora de volta para Londres.
        Nisso, a porta se abriu e Sebastin entrou. A primeira impresso de Jssica foi que ele estava abatido e cansado; em seguida, porm, no poderia parecer
mais furioso e zangado.
        - Bem... volto para conversarmos mais tarde... - Jorge desculpou-se, naturalmente tambm percebendo o olhar irritado do irmo.
        - O que ele estava fazendo aqui? - foi a primeira pergunta que ele fez assim que Jorge saiu. - Voc devia estar descansando!
        - E estou. Ele veio conversar, comigo.
        - Apenas conversar? - Sebastin apertou os lbios, contrariado. - E precisava sentar-se na cama? - Jssica no conseguia entender o mau humor dele e a razo
de seu antagonismo com Jorge. - Sobre o que ele falava?
        - Estava me contando que o senor Alvarez o convidou para visitar a Argentina e que gostaria muito de ir. Acho que queria que me aliasse a ele para pleitear
isso a voc!
        - O dr. Bartolo me disse que voc no est se recuperando to depressa como esperava - ele comentou, mudando bruscamente de assunto. - Acredita que uma mudana
de ares talvez lhe faa bem. O que acha de ir visitar sua famlia?
         Jssica sentiu como se lhe tirassem o ar. Ento era mesmo verdade, ele queria livrar-se dela.
        Voltou o rosto para que Sebastin no pudesse ver o sofrimento em seus olhos.
        - Por Dios! - ele exclamou zangado. - Como no pensou em contar a algum onde estava indo? Se no tivesse me ocorrido, no caminho de volta, procurar no esconderijo
da pequena, vocs duas poderiam ter morrido l!
        - Como se voc fosse se importar! - Jssica jogou-lhe na cara, amargurada, no agentando mais. - Sua prpria filha e voc fala de mand-la para um convento!
        - Espere um pouco... De que est falando?
        - Voc contou isso a Pilar, sabendo muito bem que ela odeia a menina, apesar de ser filha de sua irm. Mas isso no vai acontecer com o meu beb, ouviu?
Coitadinha da Lisa, nem ao menos sabe que  sua filha. Acha que vai esconder a verdade eternamente? No pensou no sofrimento e decepo que ela vai ter quando descobrir
a verdade? Como vai lhe fazer mal?
        - Lisa... minha filha? - ele perguntou, franzindo a testa de tal maneira que a fez corar. - Do que est falando, Jssica? Lisa no  minha filha! Quem lhe
disse isso?
        - No importa. Est fazendo essa encenaozinha para preservar as aparncias, mas sei da verdade. Manuela concebeu sua filha durante o perodo de noivado.
        - Quem lhe contou isso? - Sebastin insistiu, com fisionomia alterada.
         Jssica estremeceu diante do olhar enfurecido que ele lhe dirigiu.
        - No importa... - ele refletiu. - O fato  que voc acreditou. Ento acha mesmo que eu ia desonrar a mulher com quem ia me casar?
        Havia tamanha incredulidade na voz dele que Jssica sentiu-se enciumada de Manuela.
        - No estou falando de desonra, Sebastin. Sei que voc a amava e ela o amava. Nada mais natural que...
        - Dios, voc fala como se a vida fosse um romance! Apesar disso, o que voc diz tem um fundo de verdade. Manuela teve mesmo uma criana fora do casamento
e essa criana  Lisa, mas ela no  minha filha. - Ele notou a expresso de Jssica e sorriu amargurado. - Voc no acredita, no ?
        - Voc deve convir que no faz sentido...
        - Pois  a pura verdade, apesar de que ningum sabe disso alm de Pilar e eu mesmo. Talvez deva lhe contar tudo, assim no haver mais dessas acusaes histricas
sobre minha falta de sentimentos em relao  "minha filha".
        Com ar concentrado, ele passou a contar a histria:
        - A minha famlia e a de Manuela sempre foram muito amigas. Desde h muitas geraes. ramos ainda pequenos quando se ventilou a idia de casamento entre
ns, como era costume aqui. Crescemos ento sabendo que um dia iramos nos casar, apesar de nos sentirmos mais como irmos. Ficou posteriormente acertado que o casamento
seria no ano em que ela completasse dezoito anos. Assim, quando ela fez dezessete anos ficamos oficialmente noivos. Foi ento que o pai de Manuela confidenciou comigo
que estava seriamente preocupado com a sbita mudana no comportamento dela. Seu humor estava muito varivel, tinha ataques de choro, fazia uma tempestade por causa
de pequenas coisas. Decidiu-se que ela iria passar algum tempo com parentes na Amrica do Sul, pois o pai achava que lhe faria bem.
        - E voc, como se sentiu?
        - Apesar de nosso relacionamento no ser aquilo que esperava para um casamento, Manuela era agradvel e pouco exigente. Sabia que seria livre para viver
minha prpria vida desde que fosse discreto. Teramos filhos...
        Sebastin interrompeu sua narrao ao ver a expresso de Jssica.
        - No precisa sentir pena - disse-lhe. - Foi uma espcie de acordo mtuo que no faria mal a ningum. Enquanto Manuela viajava, eu comecei os preparativos
para nosso casamento. Ela voltaria, duas semanas antes do grande dia. Pilar chegou a comentar comigo que o pai temia que se Manuela voltasse antes suas crises pudessem
se repetir. Nessa ocasio Pilar estava casada e no tinha noo da gravidade do caso da irm.
         Jssica, consternada, o ouvia atentamente.
        - Ela permaneceu oito meses fora, mas mal pude reconhec-la quando chegou. Fui esper-la no aeroporto e ela me apareceu toda vestida de preto, com o rosto
plido e transtornado. Recusou-se a me receber quando fui visit-la.
        No havia mgoa na sua voz, ao recordar aqueles acontecimentos.
        - Uma semana depois, antes de nosso casamento, recebi um telefonema de um hospital em Sevilha. Manuela tinha sofrido um acidente de carro e chamava por mim.
No me deram a menor informao sobre o estado de sade dela. Somente quando cheguei l  que me disseram que ela no tinha chance de sobreviver. Falaram tambm
que estava grvida de sete meses e, tendo sido informados de nosso noivado, imaginaram que a criana fosse minha e me chamaram para pedir autorizao para tentar
salvar a vida dela, apesar de no poderem salvar a da me.
        Ele deu alguns passos pelo quarto. Continuou:
        - Naturalmente, telefonei para os pais de Manuela, mas eles se recusaram a ir at o hospital, de tanta vergonha. Esperavam que o estado dela passasse despercebido
at o dia da cerimnia e que, por algum milagre, depois que estivssemos casados tudo ficasse certo.
         Jssica olhava-o fixamente. Quem visse aquele homem arrogante jamais poderia imaginar que tivesse sido protagonista de uma historia como aquela. Muito quieta,
ouviu-o prosseguir:
        - Fiquei sem saber o que fazer. Ento, inesperadamente, Manuela voltou  conscincia. Contou-me que havia conhecido o amante na Argentina e que o amara de
uma maneira que jamais poderia me amar. Sabia que ia morrer e me pedia perdo, implorando-me que tentasse salvar a vida da criana e que cuidasse dela. Mais tarde,
atravs de conhecidos na Amrica do Sul, fiquei sabendo que o pai de Lisa era casado, fato que ele evidente no havia contado a ela. De certa maneira, fico pensando
se no foi melhor que Manuela tivesse tido um momento de felicidade, mesmo que breve...
         Jssica percebeu uma grande ternura em sua voz. Certamente ele sofrer muito.
        - Fiquei com ela at o fim. Morreu pouco depois do nascimento de Lisa. Nunca vou me esquecer da expresso do seu rosto ao abrir os olhos e ver a criana.
Jurei naquele momento que criaria Lisa como se fosse minha filha. De qualquer jeito, era mesmo inevitvel que as pessoas pensassem que fosse minha.
        - Sinto muito... - Jssica conseguiu dizer num sussurro. - Voc deve ter amado muito Manuela...
        - Amado? - Sebastin a olhou incrdulo. - Como irmo, sim, mas amor de um homem para uma mulher, no. H um lado egosta em mim que at exulta de no nos
termos casado. - De repente, ele pareceu preocupado. - Mas estou lhe cansando e o dr. Bartolo disse que voc precisa de repouso.
         Jssica queria dizer a ele que no estava cansada. Queria suplicar-lhe que ficasse, mas sabia que no a atenderia. Nenhuma vez, durante aquela conversa,
Sebastin mencionara o casamento deles. Talvez se arrependesse muito, como dissera Pilar.
        Incrvel, como Pilar a fizera acreditar que Sebastin ainda amava Manuela, havia mentido sobre Lisa... Que ela o desejava, Jssica no tinha dvidas. E aquela
unio seria at muito adequada.
        Ser que Pilar era vtima do mesmo tipo de fraqueza da irm e por isso Sebastin no quisera casar-se com ela? Mas Jssica sabia que nada deteria Pilar no
intento de consegui-lo. Era quase manaco seu sentimento de posse em relao a Sebastin.
        Dois dias depois, dr. Bartolo informou que Jssica estava em condies de se levantar.
        Sebastin, como sempre, era extremamente polido quando a via, o que, entretanto, era cada vez mais raro. Quando conversavam, seus assuntos eram a fbrica,
os desenhos, o trabalho enfim. Jssica sentia o corao partido depois de cada conversa.
        Uma tarde, Jssica concluiu que no poderia permanecer mais ali. Sebastin fora inspecionar as vinhas, Lisa e tia Sofia estavam visitando amigos e Jorge
fora levar o senor Alvarez e Lusa a um passeio.
        Na hora do almoo, Sebastin mencionara que havia se informado sobre vos para ela ir  Inglaterra. Tia Sofia se mostrou surpresa quando ele disse que Jssica
iria visitar a famlia. Ela procurou disfarar a dor que sentia ao constatar que ele estava to ansioso por se ver livre dela.
        Um exame de laboratrio confirmara que Jssica estava mesmo grvida, mas Sebastin simplesmente comprimira os lbios e olhara a distncia quando fora informado.
Desde ento, nem uma vez mencionara a criana.
        Aquele talvez fosse o momento adequado para partir, antes que, sob o pretexto de mand-la de "frias", ele a forasse a ir embora para no mais voltar.
         Jssica ainda tinha muitas coisas no quarto de Sebastin. Agora era o momento oportuno para ir busc-las.
        Estava entretida tirando as roupas dos armrios e empilhando-as sobre a cama quando, inesperadamente, abriram a porta. Jssica endireitou o corpo, com o
corao disparado, ao mesmo tempo temendo e desejando que fosse o marido. Mas no era Sebastin, e sim Pilar, que entrou no quarto com o rosto contorcido de raiva.
        - Voc aqui! - gritou ela raivosa. - Pensei que tivesse lhe dito que Sebastin no a quer. Quase no acreditei quando a empregada me falou que voc encontrava-se
no quarto dele!
         Jssica estava a ponto de lhe dizer que simplesmente recolhia suas coisas, quando uma enorme sensao de raiva se apossou dela, fazendo-a replicar, na maior
naturalidade:
        - Sou esposa dele, Pilar, e tenho todo o direito de estar neste quarto.
        - Ele no a quer - afirmou Pilar, enfurecida. - Jesus, voc devia saber disso! Acima de tudo, Sebastin  um homem. Se a desejasse no se recusaria a t-la
em sua cama nem renunciaria seu corpo, como o fez nestas ltimas semanas!
         Jssica sabia que era verdade, mas alguma coisa compeliu-a a defender-se e dizer calmamente:
        - Se Sebastin est se privando da minha presena,  pelo meu bem e do nosso filho.
         Jssica ficou apavorada ao ver o dio mortal nos olhos de Pilar. Naquela frao de segundos, chegou a arrepender-se de ter despertado a ira daquela mulher.
Estava sozinha naquele quarto com uma verdadeira fera, que vinha em sua direo, com as garras muito vermelhas, como se quisesse rasgar-lhe a carne e destruir a
vida que se formava dentro do seu corpo.
        - Todos esses anos tenho esperado que ele se aperceba de mim - Pilar declarou entre dentes. - Todos esses anos fiquei esperando e observando... Sabia que,
por causa da tradio da famlia, teria de se casar. E, ento, quando penso que vai ser meu, voc me aparece... Bem, mas ele vai ser meu - sentenciou, venenosa.
- Manuela achou que podia tir-lo de mim e foi punida por isso. No pense que vou deixar que voc e seu filho se interponham entre mim e quem  por direito meu!
        "Pilar s pode estar louca!" Jssica pensou, trmula, ao ver as feies contorcidas e o olhar selvagem da outra.
        Assustada, afastou-se, indo se postar a um canto. Tarde demais deu-se conta de que no era o lugar mais adequado. Pilar a estava acuando como uma fera 
sua presa. De repente, ela soltou uma gargalhada exultante ao colocar as mos no pescoo de sua vtima, na tentativa de estrangul-la.
        Nesse momento, a porta se abriu e Sebastin entrou. Estava com o palet jogado s costas, a camisa desabotoada e uma expresso de extremo cansao no rosto.
Sua expresso mudou ao perceber o que se passava.
        - Pilar, por Dios, o que est fazendo? - Agarrando-a pelos braos, forou-a a soltar Jssica e levou-a at a porta, chamando algum para ajudar.
        Dr. Bartolo surgiu apressadamente. Ficou chocado ao perceber as intenes assassinas nos olhos de Pilar.
        - Deixe comigo - disse, desolado, para Sebastin. - Receava h muito tempo que... - Interrompeu o comentrio ao notar que Jssica estava quase desmaiando.
        - Estou bem - ela lhe assegurou. - Foi apenas uma pequena vertigem.
        - Ela queria tir-lo de mim, Sebastin! - Pilar choramingou. - Falei a ela que voc era meu. Eu...
        - Vamos, Pilar, venha comigo - dr. Bartolo ordenou, com firmeza, dizendo  parte para Sebastin: - Ela precisa de tratamento especializado. H muito, estava
preocupado com seu comportamento... Conheo uma clnica onde esto habituados a esses casos. Os sentimentos dela em relao a voc tornaram-se obsessivos.
        Pilar foi retirada do quarto. Jssica procurou lutar contra a sensao de desfalecimento que queria se apoderar dela. Suas pernas estavam fracas e trmulas.
Quando Sebastin se aproximou, ela o rejeitou com uma expresso de horror.
        - Sinto muito o que aconteceu - ele declarou, visivelmente abalado. Estava de costas para Jssica e caminhou at a porta que dava para o terrao. - Devia
t-la prevenido sobre Pilar, mas ela parecia melhor... Ele j sofreu dois abalos nervosos. Nas duas ocasies, parecia convencida de estar profundamente apaixonada
petas vtimas de sua obsesso. Lamento que voc tenha sido envolvida.
        Ele voltou-se e seus olhos deram com a pilha de roupas sobre a cama. Sua expresso mudou; seus olhos tornaram-se sombrios.
        - O que  isso?
        - Minhas roupas... Estava arrumando-as quando Pilar entrou. Creio que me encontrar aqui foi a gota que fez transbordar o copo.
        - Se queria que suas roupas fossem transferidas para seu quarto devia ter pedido a uma das empregadas. No havia necessidade de...
        - ... de invadir sua privacidade? - Jssica concluiu, meio exaltada. - No precisa se preocupar, no vai acontecer novamente. Estou recolhendo minhas roupas
porque estou me retirando de sua vida. Vou voltar para minha casa.
        - No! - A negao no poderia ser mais intempestiva. - Por Dios! - Sebastin inesperadamente gritou, comovido, atravessando o quarto e tomando-a nos braos.
- No posso agentar mais... No vou permitir que v! No vou permitir que v!
        - Mas voc queria que eu fosse - Jssica lembrou-o, trmula.
        No queria que ele percebesse como seu corao estava acelerado. Aqueles braos eram como um ninho... ninho que jamais gostaria de deixar. A proximidade
dele mexia eroticamente com seus sentidos exaltados.
        - Porque temia que acontecesse algo desse tipo - ouviu-o falar. Jssica levantou a mo para afastar os cabelos que lhe caam na testa. O gesto simples fez
com que seus seios tocassem no peito de Sebastin. Ele abaixou os olhos por um minuto, depois os ergueu para ela, brilhando.
        Puxou-a contra seu corpo para que ela pudesse sentir como estava excitado. Roou os lbios sensualmente pela linha do pescoo de Jssica, pelo seu queixo,
at encontrar os lbios dela, num beijo quente e atormentado.
        A intensidade daquele beijo tirou-lhe qualquer determinao. Jssica entregou-se quele momento de corpo e alma.
        - No vou deix-la ir - ele murmurou. - Voc  minha, Jssica, s minha. Dios, que tormento foi v-la sorrir para todos, para meu irmo, para minha tia,
menos para mim! No pode imaginar como desejei v-la me olhar com amor, como ansiei para que me quisesse como eu a quero, no apenas pelo prazer que nossos corpos
pudessem encontrar um no outro, mas de alma e corao!
         Jssica estava emocionada com aquela declarao, pois havia convico na voz de seu amado e extremo carinho nos olhos que a fitavam, ansiosos, como em busca
de uma resposta.
        - Ser ento que voc me ama? - perguntou, ainda insegura, com medo de acreditar.
        - Ainda duvida? - Ele acariciou o rosto dela e puxou seus cabelos para trs. Jssica sentiu um ligeiro tremor no corpo quente de Sebastin ao toc-lo. -
Desejei voc desde o primeiro instante - ele confessou baixinho. - Mas ao mesmo tempo a odiava por ser quem era. Ou quem eu pensava que fosse.
        - Achei que me desprezava,- Jssica admitiu. - Era sempre to frio, to distante.
        - No me permitia ser outra coisa. Todo o tempo ficava me dando razes que me justificassem. Tudo que desejava fazer era tom-la em meus braos e faz-la
admitir que eu podia dar-lhe prazer como nenhum outro. Odiava Jorge por ter sido seu amante. Simplesmente no conseguia entender como ele havia deixado de desej-la.
Quando voc ameaou de ficar em Sevilha para v-lo, temi que, se a encontrasse novamente, ele voltaria a desej-la.
        - Por isso inventou aquela histria de precisar de uma desenhista, para salv-lo de mim? - Jssica perguntou com ar de censura.
        Sebastin sorriu, timidamente.
        - Quase certo. Simplesmente queria mant-la afastada dele... e perto de mim. Mais eis que ele aparece e meu mundo fica virado de cabea para baixo.
        - Que exagero!
        - Como no? Voc no era a moa que ele havia namorado, e sim algum sobre quem eu no sabia nada. Algum que podia ter um noivo, ou um amante, com quem
eu no podia lutar. Foi ento que Jorge me deu a arma perfeita. Estava preocupado com sua reputao. Conhecia minha tia e sabia que Pilar pretendia vir v-la.
        - Ento aquilo tudo foi planejado?
        - No, no pretendia que fssemos descobertos como estvamos... mas nem tudo pode ser controlado - acrescentou, em tom de brincadeira, vendo-a corar. - Naqueles
momentos voc estava to doce e receptiva que acabei esquecendo a razo de ter ido ao seu quarto e s me lembrei do quanto a desejava... o quanto a amava - corrigiu,
enternecido. - Porque naquela ocasio eu j a amava, s que era orgulhoso demais para admiti-lo at para mim mesmo.
        - Mas quando se casou comigo estava to indiferente e distante que pensei que me odiasse!
        Ele a pegou pelo rosto e a olhou tristonho.
        - Por que no me contou que era virgem? Foi para me castigar, para me fazer sofrer?
         Jssica no entendeu o que ele queria dizer.
        - Eu tentei - ela afirmou, com sinceridade. - Mas quando estvamos no carro, a caminho da fazenda, voc veio com aquela conversa de que se sentia muito aliviado
de no precisar fazer a minha "iniciao"! Depois de ouvir aquilo, simplesmente no tive coragem...
        - Em vez de me contar, voc fez com que eu sofresse terrivelmente, me odiando pelo que havia feito. J no me sentia bem de pensar que a havia forado a
um casamento que no desejava... Sabia que sentamos um desejo mtuo e tinha esperanas de que se transformasse em algo mais forte e duradouro. Quando descobri que
no apenas lhe havia tirado a liberdade, mas tambm o direito de dar seu corpo e inocncia a algum que realmente quisesse, me odiei por isso...
        - Voc foi to frio... - Jssica sussurrou - to distante... to odioso.
        - Porque era a nica maneira de evitar tom-la em meus braos e ficar fazendo amor com voc sem parar - Sebastin admitiu, mordiscando-lhe o lbio. Desejava-a
tanto que precisava colocar uma barreira entre ns dois. Queria cair de joelhos aos seus ps e lhe pedir perdo. Queria beijar cada centmetro de seu corpo e prometer
que nunca mais ele conheceria a dor e o sofrimento. Isso, porm, significava impor a voc o meu amor e o meu desejo novamente, coisa que havia jurado a mim mesmo
nunca mais fazer.
        Beijou-a docemente nos lbios, antes de continuar:
        - Ns dois sabemos quanto tempo demorou minha determinao - disse com uma certa humildade, acrescentando numa franqueza quase chocante: - Seus doces gemidos
de prazer, daquela segunda vez, sobressaltavam minhas noites como um canto de sereia.
        - E voc me fez ir dormir sozinha - Jssica acusou-o, ainda no ousando acreditar que ele a amava de verdade.
        Sebastin suspirou.
        - Querida, foi uma tortura, mas no tinha alternativa. Havia prometido a mim mesmo que lhe daria a liberdade, que era um erro mant-la presa ao casamento.
No podia me perdoar por ter-lhe roubado a inocncia. Quando descobri que voc ia ter um filho...
        - Voc foi to frio comigo que pensei que no o quisesse - Jssica interrompeu-o, extravasando a angstia que sentira. - Ento Pilar me disse que voc desejava
que eu fosse embora...
        - E voc que j pensava que eu rejeitava minha filha... - ele concluiu por ela. - Oh, Jssica, no tenho palavras para lhe dizer o que significa para mim
pensar que voc carrega um filho meu! Desejava muito que ficasse aqui comigo, mas no me achava no direito de obrig-la. No podia prend-la. Como voc disse vrias
vezes, sou muito orgulhoso para acreditar que ficasse comigo apenas por causa de nosso filho.
        - Mas e se houvesse amor?
        Ele levantou o queixo de Jssica, com os olhos transbordantes de emoo.
        - Se houvesse amor... se voc me amar, jamais vou deix-la ir. Quando vi o estado daquele prdio durante a tempestade, e sabia que voc estava l dentro...
Se voc tivesse morrido, a vida no teria mais significado para mim.
        - Voc arriscou a vida por nossa causa. Eu...
        - Acha que deixaria quem quer que fosse tentar salvar vocs? Quando tudo o que um homem preza na vida est em perigo,  natural que ele no confie em ningum,
a no ser em si mesmo, para afastar esse perigo. No imagina como sofri ao ter que tirar Lisa e deixar voc sozinha, correndo risco de vida.
        - E voc no imagina o que senti ao v-lo desaparecer! Mas depois voc foi to frio comigo...  Tudo o que eu queria era estar ao seu lado, e voc me ps
naquele quarto. Eu que queria o calor dos seus braos, seu...
        - Meu? - ele perguntou, com um sorriso malicioso. - Continue, querida, est chegando no pedao mais interessante...
        - Seu... corpo no meu - Jssica admitiu, hesitante, rindo da prpria timidez. - Sabe, Sebastin, me apaixonei por voc quase que imediatamente, apesar daquelas
coisas horrorosas que voc me disse!
         Jssica ficou surpresa quando, de repente, ele a soltou, pegando a pilha de roupas da cama e colocando-a sobre uma cadeira.
        - O que est fazendo? - perguntou, ansiosa. - Sebastin...
        - Pensei que quisesse estar em meus braos - lembrou-a com um breve sorriso. - Que quisesse sentir o meu corpo no seu...
        - Ora, mas... - Jssica tentou mostrar-se encabulada, mas no conseguiu.
        Riu quando ele a pegou no colo e disse:
        - O que h? Ser que no  permitido que o marido faa amor com sua mulher  tarde?
        - Eu...
        Sebastin roou os lbios pelo pescoo de Jssica, fazendo-a vibrar dos ps  cabea.
        - Por que acha que temos a siesta, querida? - cochichou-lhe ao ouvido. -  para que as crianas descansem e para que seus paps e mamas faam amor, no sabia?
        Ele a apertou contra o corpo, abaixando-lhe o zper do vestido, colocando-a em p, prximo  cama.
        - Eu te amo - Sebastin murmurou, com os lbios junto aos dela, enquanto seu vestido escorregava para o cho.
        Quando a colocou na cama, Jssica se perguntou se Rosalinda teria sentido essa intensidade de amor e desejo pelo seu orgulhoso cavalheiro. O marido a puxava
para junto dele, acariciando-lhe as costas, na linha da espinha, e colando os lbios aos dela. Se o cavalheiro de Rosalinda era como seu atual descendente, certamente
ela tinha sentido esse prazer embriagador que Jssica desfrutava ao retribuir os carinhos de Sebastin. despreocupado, mas no conseguindo.
